Seara Madura

Olhou-se no reflexo da porta do autocarro, por um momento pensou que não era o seu reflexo, não podia ser aquela mulher baixa de ancas largas com uma gabardine fora de moda, ar cansado, as manchas de cabelo branco a aparecer, grandes, visíveis, entre um resto só um resto de cabelo cor de searas, o cabelo que sempre lhe tinham gabado, agora sem os caracóis que lhe davam um ar boneca, vagas que foram numa seara madura, agora só uma ligeira ondulação num restolho seco…o autocarro arrancou, o caminho que se seguia era o do costume, passar no supermercado, comprar uma sopa já feita numa tigela de plástico, aquecida no microondas, sem ser tão pouco transferida para outra de louça, a sopa sorvida em colheradas, frente á tv de roupão e chinelos, o luxo final de dois, só dois quadrados de chocolate depois da maçã ou da pêra, tudo comido sozinha, na companhia de romances alheios ou concursos sempre iguais onde pessoas cheias de esperança em fazer umas férias ou comprar um carro respondem a perguntas inúteis.
Lembrou-se que nunca tinha feito aquelas férias, as tais, já não lhe interessava o carro, a neta vinha com o filho em fins-de-semana alternados, só nesses domingos é que a casa ganha outro ar, são usados pratos de louça, receitas esquecidas, para almoços sempre demasiado rápidos onde no fim ficam as cadeiras vazias, os pratos sujos e um vazio a encher tudo.
Os próximos dias seriam mais vazios, as férias em casa, sem mais companhia que os romances alheios, os concursos eternos, o vazio invasor, a begónia que nunca florescia no vaso da marquise as fotografias a olhar para ela de olhos inquisidores, talvez um passeio solitário pela marginal junto ao rio.
Decidiu esquecer a sopa na tigela de plástico, o romance alheio, o concurso eterno, entrou numa loja em saldos, comprou um vestido diferente, castanho, quase como os quadrados de chocolate, com desenhos turquesa a lembrar ramagens de plantas exóticas, entrou no cabeleireiro, deixou que a seara madura fosse restaurada, um pouco mais curta, um pouco mais madura, pensou no tal dinheiro guardado, pouco, mas algum, para uma necessidade, deixou que pintassem as unhas, despiu a roupa de mulher cansada na casa de banho esterilizada do Centro Comercial, vestiu o vestido exótico, calçou os sapatos novos, tirou o baton da mala, no espelho reflectia-se a mulher enérgica, interessante que de repente movida pela necessidade de viver entrou na agência de viagens…
Foto Luis Miguens

Comentários

Fernando Samuel disse…
Como eu gosto de te ler!
Como eu gostei de te ver!...


Um beijo amigo.
Zorze disse…
E se se visse logo à primeira vista no reflexo... revolucionava-se num repentismo?
Ou o que tem de ser, será, e tem muita força?

Beijos.
SENSEI disse…
Bom!...
Cansaste da prosa?

Ouss
Master Sensei San