quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Não consegui, outra vez


Não consegui despedir-me outra vez, é uma ineficácia que herdei de ti, como não ser capaz de chorar e conter sentimentos ou manter o carro limpo durante muito tempo, portanto não consegui despedir-me outra vez, consegui tratar das burocracias com aquele espírito prático que se usa para tapar outras aflições, as pernas que tremem, a falta de sono, aquela sensação de sermos outra vez crianças perdidas, com medo do escuro, descobri depois de crescida, que mantemos o medo do escuro, não do escuro tradicional, dos escuros da alma, apenas aprendemos também a mostrarmo-nos valentes, parecendo quase que não temos medo, mas temos.

Portanto não consegui despedir-me, até porque me pareceu, como me parece muitas vezes que estavas por perto, com as calças abaixo da cintura, não por moda, mas por hábito, um meio sorriso trocista, a postura envergonhada de quem não sabe o que fazer com os braços e ou os cruza, dando um abraço de conforto a si próprio ou os cruza atrás das costas, pareceu-me que no teu sorriso meu trocista avaliavas tal como o verde gritante da vegetação, sorriste com a perdiz que passou a correr e aspiraste o ar marítimo misturado com o vegetal da serra, maravilhado como sempre ficamos com a beleza do mar entre o azul e o verde e o fundo transparente.

Gostavas disso, das gaivotas da beira-mar, da areia fina e branca, do peixe e do vinho do almoço, do tempo roubado a todas as obrigações para uma pausa de convívio simples, tudo coisas que herdei de ti ou que me ensinaste, como o pé fino e um pouco torcido, o passo inseguro, o valor de um silêncio assim de frente para o mar a gozar da carícia do sol na face, do grito alucinado das gaivotas e do marulhar do mar de que nunca nos conseguimos despedir, tal como eu nunca me consegui despedir de ti

2 comentários:

SENSEI disse...

Oss!

Gomen nasai

Domo arigato gozaimashita

Fernando Samuel disse...

Bela (não) despedida...

Um beijo.