Não consegui, outra vez


Não consegui despedir-me outra vez, é uma ineficácia que herdei de ti, como não ser capaz de chorar e conter sentimentos ou manter o carro limpo durante muito tempo, portanto não consegui despedir-me outra vez, consegui tratar das burocracias com aquele espírito prático que se usa para tapar outras aflições, as pernas que tremem, a falta de sono, aquela sensação de sermos outra vez crianças perdidas, com medo do escuro, descobri depois de crescida, que mantemos o medo do escuro, não do escuro tradicional, dos escuros da alma, apenas aprendemos também a mostrarmo-nos valentes, parecendo quase que não temos medo, mas temos.

Portanto não consegui despedir-me, até porque me pareceu, como me parece muitas vezes que estavas por perto, com as calças abaixo da cintura, não por moda, mas por hábito, um meio sorriso trocista, a postura envergonhada de quem não sabe o que fazer com os braços e ou os cruza, dando um abraço de conforto a si próprio ou os cruza atrás das costas, pareceu-me que no teu sorriso meu trocista avaliavas tal como o verde gritante da vegetação, sorriste com a perdiz que passou a correr e aspiraste o ar marítimo misturado com o vegetal da serra, maravilhado como sempre ficamos com a beleza do mar entre o azul e o verde e o fundo transparente.

Gostavas disso, das gaivotas da beira-mar, da areia fina e branca, do peixe e do vinho do almoço, do tempo roubado a todas as obrigações para uma pausa de convívio simples, tudo coisas que herdei de ti ou que me ensinaste, como o pé fino e um pouco torcido, o passo inseguro, o valor de um silêncio assim de frente para o mar a gozar da carícia do sol na face, do grito alucinado das gaivotas e do marulhar do mar de que nunca nos conseguimos despedir, tal como eu nunca me consegui despedir de ti

Comentários

SENSEI disse…
Oss!

Gomen nasai

Domo arigato gozaimashita
Fernando Samuel disse…
Bela (não) despedida...

Um beijo.