terça-feira, 7 de setembro de 2010

Falemos então


Falemos então
Falemos das coisas que nunca falamos,
(Das coisas que temos vergonha
Das coisas que temos medo)
Medo de dizer e que depois de
Serem ditas
Fiquem assim a pairar sobre nós
Eternamente
Falemos de coisas que por vezes
Temos vergonha de pensar
Falemos então de tudo
Até gastar as palavras
Até não existir mais silêncio
Nem palavras
Falemos então de todos os
Desejos inconfessáveis
Vontades nunca satisfeitas
Medos que nos acompanham
(Como nos acompanha o primeiro relógio de pulso)
As fotos das crianças que fomos
Que por vezes ainda somos
(Lá no fundo de nós)
Falemos sem cerimónias
Dos arranhões na alma
Nódoas negras espalhadas
Das carícias perdidas
(de cada vez que pensamos numa e não usamos perdem-se)
Falemos sem vírgulas
Pontos finais
Falemos como uma torrente
(uma represa de nós)

6 comentários:

Fernando Samuel disse...

Falemos então de tudo...

Um beijo.

Mário disse...

Falar é bom, muito bom, mas pode ser pernicioso quando abrimos os braços. A incapacidade ou negativa de uns poucos em assumir a igualdade, o critério, as peculiaridades da realidade que conformam o discurso ou a conducta de outros, no fim, ou no meio, pode recolocar-nos na dimensão dos sacanas. Recentemente tentei falar de tudo, com tudo e com todos, mas, o tudo de uns não é o tudo de todos, e assim, nem todos são parte do tudo de outros. O tudo não é mais que o espaço vital da maioria e, enquanto assim for não há lugar ao lamento, o problema aparece quando de todos nos crêmos limite e procuramos, e conseguimos, limitar a todos, em tudo.

É só uma tentativa de trocadilho, belo texto o teu.

Abraço

Diogo disse...

Belíssimo poema!

Beijo

sagher disse...

quantas vezes amiga pensamos nisso, depois olhamos o macaco social e recuamos estratégicamente para nos defender das verdades escondidas e contidas no fundo da alma.
Somos o nosso grande inimigo, mas fazemo-lo para não nos magaor ainda mais.

duarte disse...

pois ana, falar, expremir-se sem reservas... dificil.
no entanto é só deixar fluir(às vezes sai merda do tipo o outro: "paga um copo camarada!").
estás inspirada, como sempre.
abraço e um beijinho.

Etempestade disse...

Li, arrepiei-me, senti.....
Sim falar é essencial, há no entanto momentos que o resultado dessas palavras ditas podem magoar tanto que escolhemos calar.

Gostei muito vou voltar, também tenho um louca paixão pelo mar.

BJ