quinta-feira, 12 de agosto de 2010

A pulga


A pulga é um animal particularmente chato e dá comichões, comichões pouco saudáveis, das coisas piores que existem deve ser ter a pulga atrás da orelha, a sensação incómoda de que algo se passa da qual podemos ser: assunto, motivo ou objecto. Essa qualidade de pulga sussurra-nos ao ouvido coisas difusas, pouco esclarecedoras ou pedaços de coisas, boatos, retalhos, mesquinhices, coisas que nos agarram nas curvas de pensamentos tortuosos, acabamos por nos dar conta de que algo não está como devia de estar, podemos ser nós, os que nos querem bem, os que nos querem mal, os que por alguma razão obscura pensam que nos querem bem fazendo-nos mal, ou que nos querem mal por não lhes querermos bem ou antes pelo contrário outra coisa qualquer, não sabendo o querem e sentindo-se mal com isso, pensamos ser superiores a essas pulgas, afinal seres minúsculos insignificantes, mas tal como muita coisinha minúscula e insignificante são incomodas, passamos a olhar por cima do ombro, as reflectir gestos que até aí eram espontâneos, a olhar para sombras que nos perseguem, a ter mais atenção com o que dizemos, da forma que dizemos, do sitio onde dizemos, do local onde dizemos…
Logicamente, pensamos em enfrentar a pulga, matar a pulga, caçar a pulga, ignorar a pulga, esquecer a pulga, regra geral a pulga continua a sussurrar coisitas, pequeninas naquela voz irritante das pulgas.

3 comentários:

Fernando Samuel disse...

Na verdade, as pulguices são muito chatas...

Um beijo.

LBJ disse...

Sabes tão bem como eu que não se podem ignorar as pulgas, mas já diz o povo que há muitas formas de as matar.

Beijos

O Puma disse...

Neste país

se fossem só pulgas