segunda-feira, 2 de agosto de 2010

As borboletas morrem depressa

Não digas nada, porque por vezes tudo está tão pequeno e frágil que se pode desmoronar, sabes aquela coisa das asas da borboleta que provocam um tufão? È assim podemos dizer o que não queremos ou que queremos mas sabemos que vai doer, vai doer a sair da garganta e à velocidade do som, vai doer quando entrar no ouvido, quando for dito não existe volta a dar. É como os livros comidos pelo pó e pelas traças, que até parece que estão bem mas estão puídos, fininhos, desfazem-se assim que tocamos com o olhar, as palavras dissolvem-se em mofo, como as fotos antigas com roupas que já usámos, que já não nos servem, que acabaram em panos do pó, trapos para limpar coisas, nas fotos temos sorrisos que também não usamos, o sorriso com dentes de leite, o sorriso de boca fechada para esconder a falta dos mesmos, o sorriso vidrado e assustadiço das fotos tipo passe, as cores as fotos desbotadas, antigamente eu usava o cabelo assim, lembramos-nos da discussão surda naquele dia, na alegria no outro, não nos lembra-mos do sabor do bolo de aniversário, fica assim tudo, míope e desfocado, numa memória descolorida, quase como as asas da borboleta quando lhes tocamos.

Por isso não digas nada, o silêncio até pode gritar dentro de nós, o pó ter comido a cor das memórias, as traças terem comido a macieza dos gestos, as palavras podem gastar-se por não serem ditas, talvez se não as dissermos se gastem tanto que desapareçam, as borboletas morrem depressa.

5 comentários:

sagher disse...

tao belo. parece uma brisa fresca e leve que se dissipa de encontro ás nossas memórias, por isso não digas nada e deixa o silêncio fazer o seu trabalho

Diogo disse...

Belo poema.

Fernando Samuel disse...

Sim, o melhor é não dizer nada...


Um beijo.

Zorze disse...

Não sei se preocupante ...!

Acho, antes pelo contrário, se deva dizer tudo, esse gosto de ser encolhido... tem de se soltar tudo, termo escabroso, vomitar...

A questão das borboletas morrerem depressa, é relativo.
As pessoas, também morrem depressa e fazem por isso.

À ilharga de todas as teorias, nós morremos aos bocados respirando, um dos maiores gases explosivos.
O que nos permite a vida é ao mesmo tempo o que nos mata, devagar, devagarinho.

Mas, tudo está bem, os "nossos" problemas, num contexto universal, são uma peçazinha e que tinham de acontecer... e outros virão, ainda maiores, tudo bem.

Eu já estou de braços abertos, para os que vir
ao no futuro, e a parte melhor, como ser livre, não tenho que os resolver, há coisas que se resolvem por si.

Está tudo bem... e por vezes não está, há que saber levar e entender...

Estás a precisar de uma beijoca, logo...

Uma beijoca minha

Ana Camarra disse...

sagher

Não digo então.

Diogo

Obrigado

Fernando Samuel

Xiuuuu

Zorze

Pois, estou a precisar de mimos, é verdade.

Beijos