terça-feira, 13 de julho de 2010

Ficou a esperar só por ele...


No meio do bulício do autocarro no cheiro a suor, a desodorizantes baratos e a perfumes caros usados das amostras, o olhar cruzou-se, ela fazia aquele exercício todas as manhãs a tentar adivinhar as vidas que se escondiam, por detrás dos rostos fechados, o homem com falta de cabelo que esticava as melenas de modo a tapar a calva, a mulher demasiado maquilhada com o cabelo louro palha, com as coxas a estourar dentro de saias demasiado justas, demasiado curtas, sempre de meias pretas que ainda assim não cobriam as varizes, a rapariga pálida em roupas demasiado grandes, o fanfarrão que se aproximava demasiado mesmo quando o aperto não era grande, balbuciando ordinarices entre dentes a adolescentes que hesitavam entre a vergonha e o jubilo de se sentirem mulherezinhas, a mãe atarefada com dois meninos de bibe e mochila, saco do lancho, a mala dela, o saco de pano com o possível almoço dela, a senhora de cabelo ás madeixas e unhas impecáveis que desfolhava a revista cor de rosa, o velhote com um fato muito coçado e uma pasta antiga, que olhava com um ar saudoso pela janela, suspirando de vez em quando, a velhota gorda, com um avental cheio de bolsos e falta de dentes, brincos compridos, as mãos tortas de artroses, uns sacos do pão antigos dentro de um cesta a desfazer, um grupo de rapazes com buços desenhados a carvão em encontrões sem nexo, um rapaz magro com um olhar distantes com os braços carregados de livros, os dois homens de meia idade que partilham o jornal desportivo com comentários sobre estupidez dos treinadores, e ele.
Ele tinha assim um ar inesperadamente vulgar, naquele dia trazia uma camisa de um verde muito claro que fazia contraste com o tom de pele e aquele sorriso, ela não tentou inventar nenhuma história por detrás daquele rosto, daquele sorriso, passou a sentar-se sempre no mesmo banco, a sorrir com as frases doidas das camisolas dele, a esperar ansiosamente pelo autocarro apinhado, indiferente aos meninos de bibe, ao homem calvo, aos comentários desportivos, á mãe atarefada, ás mochilas, ao desodorizante e aos perfumes, ficou só a esperar por ele.

1 comentário:

Fernando Samuel disse...

Quando «ele» é assim, pronto... não há volta a dar-lhe...

Um beijo.