sábado, 10 de julho de 2010

E seguiu...


Levantou-se como habitualmente, com o som ligeiramente fanhoso do rádio, a apresentar as noticias habituais, o transito, as previsões de calor, não eram necessárias tinha sentido o calor toda a noite lamber-lhe o corpo, deixando-o colado aos lençóis, no espelho da casa de banho reflectia-se um rosto quase desconhecido, umas rugas, papos debaixo dos olhos, teve o seu ritual matinal, o primeiro jacto de urina, irritantemente alegre com um cheiro a espargos de conserva, lavar os dentes energicamente porque a noite deixava-lhe sempre um amargo de boca, acender o esquentador e entrar no duche, quase frio a desenrugar a noite e os seus vincos, a sacudir os últimos vestígios de sono, passar as mãos com mais precisão pelo peito, fazendo agitações ao roçar os mamilos, ensaboar as coxas com a lentidão de um prazer proibido, depois o resto, secar cabelo, começar a reconhecer aquele rosto no espelho, cada vez mais parecido com as fotos, conforme colocava as camadas de disfarce, creme, base, pó, brilho, a roupa aprumada em cima da cama demasiado grande, pensou que tinha sido sua escolha ter aquela cama só para si num acesso de raiva e de rebeldia que lhe tinha custado um rotulo de mulher perdida entre a família, de cabra entre os amigos do ex marido, uma magoa por parte dos filhos que a olharam com desilusão, pensou na meia dúzia de homens com quem tinha compartilhado a cama depois, o que lhe dizia palavrões ao ouvido como se fosse um elogio, o que não perdia tempo com preliminares medindo o prazer egoisticamente, o que exigia satisfações ao segundo encontro sobre os decotes, as chamadas, os atrasos, os sorrisos e os olhares, o que falava na família que iriam constituir, o que lhe pedia dinheiro e se queria mudar lá para casa e o último talvez o mais coerente um solitário por opção também, sem exigências, sem horários, sem compromissos, que não lhe queria conhecer os filhos, que podia ficar para fazer amor mas nunca para dormir depois porque o sono compartilhado acaba por criar intimidades irreversíveis.

Entrou no elevador, viu o seu reflexo no espelho, cumprimentou o casal do terceiro direito, ela magra e ansiosa com um nariz de ave de rapina, ele sempre com ar brejeiro a olhar para os seios da adolescente do segundo frente, com ar amuado e forçosamente infeliz, como têm todos os adolescentes. Saiu do elevador entrou no carro conduziu ligeiramente atenta e em vez de tomar a rota do costume para o trabalho seguiu…

5 comentários:

João Vasco disse...

Gostei! Do conteúdo e da cadência.

Fernando Samuel disse...

Aí está a grande decisão...

Um beijo.

SENSEI disse...

Ainda vais nos princípios, ou já avançaste para além do capitulo II?

Promete-se que dará gosto lê-lo!
Apenas o tempo e o dia-a-dia parecem tentar travar a tal vontade que o prazer da escrita impulsiona, através dela és livre, és feliz, crias um mundo entre a realidade e uma justa ficção, de como foi, mas teria sido se...complementas-te, contas, crias, voas, factualizas, sonhas, expões as injustiças e cobre-as com uma justiça que só os puros e justos possuem.
ÉS LIVRE!
Em breve muitos voaram nas tuas asas.

Beijo

Ouss

Anónimo disse...

Ana uma verdadeira maravilha, amiga gosto cada vez mais do que escreves. A descrição da rotina matinal só não é a minha porque cá no prédio não há 2.º frente...
Ainda bem que consegui por a escrita em dia.
Beijos
Anabela

Anónimo disse...

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