terça-feira, 20 de julho de 2010

Como o arroz doce aos domingos...


Era uma mulher com ar tranquilo, maquilhagem quanto baste, o sorriso cordato para a vizinhança, tudo mediano, número de sapatos, salário a horas, as compras ao sábado, os lençóis mudados à sexta feira, os filhos arrumados que vinham aos domingos ao almoço com pudim ou arroz doce conforme a cabeleireira de Bairro sábado sim, sábado não, com as raízes tapadas uma vez por mês de um cor só um pouco mais clara da cor original, a mala da cor do sapato, o sexo uma vez por semana, ao sábado também, em gestos sempre iguais, sem grandes amplexos, com o estertor final dele acompanhado com um suspiro dela, talvez de alivio, as fotografias dos pais, dos filhos nas diversas fases, pequenos, na escola, a trocar os dentes, na praia, a foto da casamento, ela com a cintura mais fina, ele sem barriga com o cabelo todo da mesma cor, ela com o olhar ausente, aliás mantinha sempre o olhar ausente, independentemente de todos os sorrisos, do suspiro de alivio final, de bater compenetradamente os ovos com açúcar, desenhar com canela, escolher as alfaces, de trocar de mala conforme os sapatos, de limpar o pó das molduras, sacudir o colchão sempre na muda dos lençóis o olhar permanecia ausente.
Um olhar não mortiço apenas ausente, como se estivesse a ver qualquer coisa imperceptível a outros, a verdade é que assim é, à noite, quando a respiração ao seu lado se tornava compassada, depois de cessarem os sons longínquos dos televisores dos vizinhos, da máquina de costura do rés do chão, de sentir apenas o rumor longínquo da cidade meio adormecida, o olhar ausente via o que queria, via as praias de areia branca como açúcar e de águas azuis turquesa onde nunca tinha estado, via as Cidades distantes de línguas bárbaras e monumentos diferentes, as montanhas cobertas de neve, os locais onde a música se arrastava e o fumo invadia, o corpo também se ausentava em carícias que adivinhava em filmes, livros, em pedaços de conversas no autocarro, suspirava não de alivio, mas de desejo, as mãos a atreverem rotas proibidas, a imaginação a desenhar outro corpo junto ao seu, até o da respiração da tranquila se conseguisse quebrar a rotina do amor feito da mesma maneira, a dias certos, como o arroz doce aos domingos.

3 comentários:

Fernando Samuel disse...

Excelente texto!

Um beijo.

Storyteller disse...

Muito bom!

Zorze disse...

Ana,

Vou começar por te dizer que não gosto de arroz doce, tal como, de cogumelos e nem de caracóis, já tentei, mas não vai.

Hoje também vi um céu azul turquesa, no Laranjeiro, estava vestido de nuvens compassadas, estava lindo.
Estive prá aí um minuto a contemplar, e contemplar é bom, muito bom. É uma espécie de energia que entra em nós.

Vamos costurando estes momentos, o problema, são os vendedores das máquinas... Vendilhões do templo, é o que são!
E de quem lhes chegue o arroz...