Uma sombra como a tua


Faz mais ou menos uma dúzia de anos que foste, não consigo imaginar para onde porque te sinto sempre presente nas coisas mais pequenas, num prato de caracóis onde disputávamos os alhos, nas casas brancas do Alentejo, nos barcos parados presos por ancoras mas sempre prontos a navegar, dando conta dessa vontade com aquele balançar mais calmo ou frenético conforme a maré e o vento, do Museu da Marinha onde me levavas vezes sem conta, sem nunca entrar no Planetário, dos barcos da Doca de Alcântara, as traineiras em Peniche, em Setúbal, em Sesimbra, o cheiro a sal, a peixe e é claro a tabaco, respirámos fundo vezes sem conta essa mistura, fresca mas quente, cheira-me a ti em todas as docas. Os barcos que desenhavas na orla do jornal, de frente, de perfil, com um corte, com medidas, no blocos das reuniões também, milhares de projectos de barcos. Também me lembro de ti sempre que ouço uma banda a tocar, e lembro-me das manhãs de domingos em que seguíamos atrás da banda, eu pela tua mão, a estremecer ao som dos pratos e tambores, lembro-me do cheiro a café e de estar sentada no meio dos teus amigos, com um livro de banda desenhada e um pacote de caramelos, caramelos da vaquinha, quadrados, de leite, pastosos e doces, lembro-me de ti no estranho hábito de desfolhar o jornal ao contrário, de fazer as palavras cruzadas, de arregalar os olhos quando é imprescindível marcar a nossa posição, lembro-me de ti no descuido pelo meu automóvel, que acumula pó, jornais meio lidos, papeis diversos, areia no tapete, coisas no porta bagagens, na sombra dos pinheiros mansos, no mar a brilhar com luz, na comoção com certos filmes, no amor por filmes de cowboys, por musica Jazz (também abano o pé), por espirituais negros, por crianças pequenas, pelas casas brancas do Alentejo, pelo nosso prato favorito, pela certeza das lutas e das causas.
Lembro-me de ti ainda no sentido de humor negro do meu filho mais velho, no olhar traquina e expressivo no meu filho mais novo.
Continuo com o aleijão, a nódoa negra da tua ausência, muitas vezes perante um assunto complexo, uma notícia, uma encruzilhada de vida, penso em falar contigo, em ouvir a tua opinião, vejo o teu andar noutras pessoas, uma sombra como a tua.

Comentários

+uma disse…
está lindo... para além de te ser algo muito particular... comoveu-me.
Obrigado, gostei!
salvoconduto disse…
De certeza que sabia que tinha uma filha assim...
Gaby disse…
De facto o importante é invisível aos olhos...é o que fica ...e o que foi dado..ja lá vão 10 anos...obrigado por essa partilha...encheu-me de emoção
Fernando Samuel disse…
Belíssima relembrança...

Um beijo.
SENSEI disse…
A vida é como uma mão cheia de nada!
Pensamos que nela tudo tem que caber, o curso, a cara-metade, os filhos, a carreira, a casa, o carro, a roupa, os bens!... Mas o tempo, o tempo corre, sempre mais do que o desejávamos, embora sempre mas sempre, ansiamos pela hora de retornar ao lar, dia após dia, pelo fim-de-semana, semana após semana, pelas férias, ano após ano e mais um ano seguido de outro, a vida corre e a corrida aumenta a cada ambição, tudo temos nas mãos, assim cremos e acreditamos.
Mas, um dia, nessa corrida de inúmeras esquinas, com maior maturidade e experiências vividas, boas e más, abrimos as mãos e olhamos, ainda que por alguns instantes, o que numa vida elas acumularam!... Nada!... Apenas esse nada é visto por nós e assim entendido, pelo simples facto de que a memória e a inteligência adquirida (por alguns, talvez e infelizmente por muito poucos) através de todas as experiências, nos diz que a vida é efémera, com um amor que não consola, vemos parte do nosso passado partir, assim como se algo nos fosse arrancado bem do fundo do nosso próprio ser, a enorme muralha fortaleza e um porto calmo e seguro que era um pai, a dedicação, a bondade, abnegação e força de uma mãe pelos seus filhos, a alegria e amor dos avós, das tias e tios, aos poucos, como se um Deus invejoso nos punisse pelo amor que temos e damos, como resultado do amor recebido desde os primórdios da nossa existência, são-nos arrancados, assim, sem mais nada, como se o tempo corresse contra tudo o que ambicionamos e temos como seguro, aí então olhamos as nossas mãos e vemos que estão vazias, não acumulámos nada, apenas vivemos e recordamos, o tempo inexoravelmente avança e tão certo como após o dia vir a noite e vice-versa, esse ciclo eterno, é apenas uma garantia, de que a vida é como levarmos água nas nossas mãos em concha, encostadas uma à outra, se formos devagar e atentos, pode ser que esta dure um pouco mais, mas sempre pingando em lágrimas no percurso. Se formos a correr sem atenção, então a água depressa se vai, sem memórias, outros derramarão as lágrimas, por quem passou uma vida sem a viver, porque sem atenção para amar, amar incondicionalmente os nossos ente queridos do nosso passado, do nosso presente e o nosso futuro, os trocarmos por mão cheias de tudo, veremos no fim, que afinal as mãos estavam cheias de nada, pois nada é o que deixamos, sem memória não pode haver saudade.

Mas o teu pai Ana deixou memórias que em todo o concelho ainda hoje são faladas com sentida saudade, nos olhos de quem as sente e delas fala, mareja um mar, também ele salgado, com nascente no coração, serpenteando pelo vale da voz embargada e das palavras que saem com soluços acompanhadas pelo brilho de uma lágrima e já lá vão 12 anos.
Também antes a tua avó muitos assim deixou, como a tua tia Amélia e mais recentemente a tua tia Hortense, pessoas que tudo deram de si, nunca quiseram nada em troca, apenas que lhes retribuíssem amor na mesma proporção de quanto elas amavam, mas nem mesmo assim o exigiam.
Elas sim, quando olhavam para as mãos, tal como o teu pai, estas estavam repletas das únicas coisas que nunca se perdem, que nunca foram, são ou serão efémeras:
AMOR
AMIZADE
CARÁCTER
SENTIMENTOS
INTELIGÊNCIA
CAMARADAGEM

Pois só com estas virtudes conseguidas na vida, poderão resultar os verdadeiros pilares de uma vida para além da morte:
MEMÓRIA
RECONHECIMENTO
SAUDADE

Enquanto lembradas, estas pessoas estão sempre presentes e o que construiriam com as suas mãos, é TUDO aquilo pelo que uma vida vale ser vivida.

Desculpa, eu escrevo poucas vezes, mas quando escrevo...escrevo!

Ouss
Zorze disse…
Saudade do Pai...
Anónimo disse…
Esta foto de uma traineira Sesimbrense é uma foto que deduzo que tenha sido piratiada pelao autor deste blog, isto porque conheço esta foto do site Olhare e é de um autor Sesimbrense.