segunda-feira, 7 de junho de 2010

Insignificâncias significantes


Não me levantei cedo, apesar de um dos objectivo destas férias ser o descanso, as noites continuam a ser uma agonia, uma profusão de sonhos estúpidos e aflitivos, ou procuro obsessivamente alguém que não encontro ou algo muito importante, que não encontro, ou conduzo um carro estranho numa cidade desconhecida, ou por fim, este é o que me custa, caio completamente desamparada, ou é o chão que desaparece, ou estou a voar e falha alguma coisa, ou o chão termina num precipício, a verdade é que apesar dos comprimidos brancos que médico mandou tomar ao deitar, as noites são assim e acordo cedo com uma sensação de ressaca e cansaço. Decido limpar e arrumar gavetas, limpar é significativo porque consigo encher dois sacos de lixo, arrumo tudo de novo, camisolas, com manga, sem manga, de lã, encharpes, luvas, cachecóis, lenços, fatos de banho, lingerie, peúgas, meias, camisolas interiores, uma cotoveleira elástica que coloco e que parece aliviar uma parte das dores do braço, o braço com o tendão afectado que estava melhor com a fisioterapia e a acupunctura antes de partir a perna, o tendão está afectado porque os tumores pressionaram a traqueia, que por sua vez desviou a cervical e inflama porque passo muito tempo no teclado (parece a lengalenga do macaco do rabo cortado), descubro tesouros: desenhos “para a melhor mãe do mundo” ou para a super mãe, neles apareço a conduzir helicópteros, sempre sorridente, com e sem óculos, sempre de cabelo comprido, colares de massa pintada (guardei num guarda jóias), um espelho pintado (para a mãe), insignificâncias significantes, algumas fotos antigas, o meu pai com dois anos, convites de casamentos que já se desfizeram, cheques de contas bancárias que há muito já não existem, passes escolares, um monte (significativo) de marcadores de livros, incluindo dois feitos pelos rebentos.

Tinha planeado almoçar só, uns morangos cortados com um yougurt natural, afinal o laboratório não sei do quê não está operacional não vale a pena deslocar-se para as aulas, saltam umas bifanas, arroz branco, a conversa sobre como as mentalidades avançam lentamente, tão lentamente que se torna exasperante, descanso um bocadinho, levanto-me vazo o roupeiro arrumo tudo outra vez, tiro qualquer coisa para o jantar, apanho roupa, estendo roupa, “mãe vou ter 18 a História!” “que bom filho”, dobro peúgas, boxers, podia ser um fetiche, mexer em roupa íntima masculina, mas não é, passo a ferro, tiro as calças para levar á costureira, mais duas para eu coser, paro um minuto, vou escrever qualquer coisinha…

5 comentários:

Maria disse...

Quase fiquei cansada só de ler o que fizeste hoje...
:)))

Beijinho, Ana.

Zorze disse...

Ana,

As férias são para descansar, ok!
Eu também tenho esse hábito de que quando pego em álbuns de família fico ali a observar-las, às vezes durante horas. Só que com a vantagem de não ter de passar a ferro e coser calças.
Aproveita para descansar e não te metas em avarias!
E claro, vai sempre escrevendo "qualquer coisinha".

Beijos,
Zorze

Anónimo disse...

Gaja que é gaja tem sempre um roupeirozito para arrumar, ou uma estante, ou a cozinha toda, ou os albuns, etc..etc.., preocupante são os pesadelos...que tal uma terapia daquelas cor de rosa? Yoga, acumputura?
Um abraço
Dulce Reis

Fernando Samuel disse...

Um beijo grande, grande para ti.

samuel disse...

As férias são uma coisa muito sobreavaliada... :-)))

Abreijo.