sábado, 12 de junho de 2010

Do miserável naufrágio que atravessamos.



Continuo tranquilamente teimosa, numa expectativa inquietante, de quem sabe que esperar só não basta. Não basta esperar que nos salvem dos tédios, que nos ofereçam as condições as oportunidades, que chegue Sebastião ou qualquer outro herói a quem as traças roeram os paramentos não obstante o fedor a naftalina.
Das contradições do dia marco aqueles que não me fazem sentido, não serei a pessoa mais esclarecida, clarividente, capaz para desmontar os meandros estranhos dos fluxos de capitais planetários e outras coisas que tais, como a rota dos cardumes de atum e o louvor da caridade em detrimento da solidariedade. Das contradições absurdas registo as recentes que me dão que pensar, num país onde a maioria se acumula no litoral, em redor de Lisboa e Porto, onde fala do desgaste que esse amontoado provoca, de carros, autocarros, desempregados, reformados, bairros sociais, ruas sem jardins, salões de cabeleireiro de bairro, pequenas oficinas em garagem falidas quase à nascença, hospitais e centros de saúde apinhados, gente sem médico, escolas a rebentar pelas costuras, com aulas em pavilhões gelados de inverno e sufocantes de verão, sem laboratórios, salas de estado, de convívio, ginásios, ou outras coisas esperadas de um país em crescimento inserido na zona euro e parte integrante do Velho Continente Europeu, dizia eu que registo a contradição absurda de se fecharem escolas por todo o interior, escolas com telhados novos, escolas com meninos que fazem as aldeias mais quentes, escolas com espaço a outras aprendizagens, fecham-se, esses meninos irão seguir o caminho das grandes urbes, nem que ara isso sejam acordados da cama de madruga duas ou três antes de tocar a campainha de uma escola a transbordar onde quase não vão ter espaço para serem crianças, mas antes de se fechar as escolas fecharam-se maternidades, locais onde as pessoas chegam ao mundo com apoio, fecharam-se Centros Médicos, Urgências Hospitalares. Agora a lógica ilógica daqueles que poupam no essencial e esbanjam no supérfluo leva ainda tudo um pouco mais longe, pois que se fecha as urgências aos meninos que ainda existam perto de casa, neste casa as de Setúbal, onde chegam crianças desde Sines, mas que ainda assim abrange igualmente Palmela, se pensamos que Palmela e grande, cabe lá o Poceirão, Fernando Pó, entre outros sítios, se pensarmos que Azeitão é Setúbal, talvez o acesso a Almada não nos comece a parecer tão rápido como desejável, mas querem aplicar a mesma medida, aqui no Barreiro, onde chegam meninos de Alcochete, Montijo e Moita…quem conhece o martírio de estar ao lado o Seixal e demorar três quartos de hora para uma viagem ridiculamente pequena, que se tornou assim desde que um barco destruiu uma ponte, quem conhece o martírio de chegar do Barreiro a Almada, pode estica-lo de Setúbal, de Alcochete, de Grândola, de muitos meninos que vão sofrer mais dores pelo caminho, respirar pior no caminho, ter doenças agravadas pelo caminho, transportados por Bombeiros assoberbados, na maior parte das ocasiões voluntários, que irão aflitos tentar acalmar a aflição de pais e meninos.
Este é o miserável naufrágio que atravessamos, onde se acha lógico aumentar impostos a quem trabalha em detrimento das grandes fortunas, em que se incentiva o sector privado da saúde oferecendo equipamentos pagos com os nossos impostos para alguns lucrarem, onde os escândalos ligados a governantes e ex-governantes atingiram a banalidade do horóscopo no jornal, onde se decepa a produção, a industria, a educação, a saúde a favor da figura mítica da convergência e para espantar o mau-olhado do défice. O barco mete agua, o casco está rombo, adornamos mas nem sequer junto á costa, portanto continuo tranquilamente teimosa, numa expectativa inquietante, de quem sabe que esperar só não basta.


3 comentários:

filipe disse...

Bom e estimulante post.
Até porque o Geraldo Vandré, ainda um pouco antes do nosso 25 de Abril, já nos dizia:
"Então, vem vamos embora que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora e não espera acontecer"
Um abraço.

Fernando Samuel disse...

Esperar lutando, é o caminho.

Um beijo.

Zorze disse...

Anocas,

Dia marco, fluxos de capitais planetários, clarividente, rota dos cardumes de atum, louvor da caridade (???), que chegue Sebastião... Mas que grande algavierdade sincrónica.

Velho continente, o euro e centros médicos... Isto está a mudar e para pior sem ver energia de mudar para melhor.

Beijos,
Zorze