quinta-feira, 29 de abril de 2010

Sem cercas


Pedem-me calma, pedem-me paciência, até há quem me peça resignação, há quem me peça para ter mais cuidado comigo, para abrandar, para descansar, inevitavelmente e no seguimento da mesma conversa acabam por me pedir ajuda, por me pedir uma camisa passada, por me perguntar o que é o jantar, perguntam pela acta, pelo papel, pela reunião, pelas contas…Tenho um depósito quase intacto das coisas que queria fazer, egoisticamente só para mim, dormir, dormir torna-se cada vez mais difícil, comprar aquele livro ou fazer a tal viagem sem olhar a contas, a tempo, aos que ficam, sair uma noite destas porque sim, fazer um penteado doido, pouco prático, só porque sim também, ler exactamente as horas que me apetecer, tocar um instrumento musical, cantar como a Billie, comprar um equipamento a sério para fazer todas as montagens de filmes que tenho na cabeça, pintar, andar vestida só com calças de crepe e chinelos de enfiar no dedo, comer medronhos maduros logo a tirar da árvore, mornos, doces e ácidos, com o sumo a escorrer pelos cantos da boca, dormir uma sesta num pinhal e uma noite na praia, fazer amor sem fechar a porta, sem olhar à hora, andar descalça na relva, misturar as palavras uma vez e outra, até tirar todas de dentro de mim, deixar de sentir inquietações surdas como traças de volta da luz, ter coragem para mostrar o meu amor por coisas, crianças, amigos, papeis, porcelanas velhas, livros, filmes que não me esqueço, momentos que estão guardados algures em mim como gotas de resina petrificada, despedir-me de todos de quem não me despedi, ver todos os museus com que sonho, sentir que há um momento só um momento em que prazer se sobreponha ao dever, estar vazia de revoltas que me angustiam e atormentam, apenas e só porque por se extinguirem as razões de revolta, uma manhã onde eu assistisse ao acordar de animais livres para me sentir assim também, sem cercas e contenções.

5 comentários:

Ana disse...

Isso Ana, era anos de vida que se ganhavam....

Gaby disse...

Olá Ana este seu post..fez todo o sentido ..pra mim..tocou, tocou mesmo. Descobri o seu blog por acaso...sem bem que não acredito muito nos acasos..tem dias..momentos da vida!
enfim partilhar consigo estas inquietações...porque tambem sou uma mulher ou se me permite uma camarada de inquietações, de luta..mas às vezes na vida, queremos apenas existir, respirar..sentir o sol na cara..nao ter de travar uma luta..sossegar...
Obrigado pelas suas palavras..nunca desista
um bjinho

Fernando Samuel disse...

Há-de chegar essa tal manhã, vais ver...

Um beijo.

Zorze disse...

Ana,

Essas manhãs já te chegam e todos os dias.
Muitas vezes não as percebemos, pois também, são batoteiras e fogem-nos, seja por entre as mãos ou visualizações mentais do que gostaríamos que fossem.
A vida é complexa, não é simples. É sem dúvida, do arco-da-velha.

Beijoquita,
Zorze

malinka disse...

Absolutamente da acordo com a Gaby.
Nunca desistas.
Sim, os aliciamentos são muitos para que deixemos de lutar.
Desistir é morrer, é entregar aos outros os nossos destinos.
A tua escrita é maravilhosa...
Tofes
O nosso blogue:
http://www.passadopresenteeofuturo.blogspot.com