quarta-feira, 7 de abril de 2010

Jacarandás floridos


No decorrer das horas colecciono os sorrisos, acordo preguiçosa, devo estar a mudar com idade despego-me dos lençóis com sacrifício ou então ainda não entrei no novo fuso horário, uma dessas, o quotidiano assemelha-se a um conjunto de caixas chinesas em que de dentro de uma sai outra, inesperadas, diferentes, mas no intimo muito parecidas, alguém que teve uma ideia brilhante e que a quer concretizar pendurado no esforço alheio, alguém que não se lembra das coisas insignificantemente importantes mas que consegue lembrar-se de me chatear por coisas que nem sequer me interessam, vejo abismada o vídeo de um massacre sobre civis e jornalistas, por jovens americanos, formatados para não pensarem, numa Guerra inventada, ouço da Acta que desapareceu, com contrapartidas que nunca existiram, para submarinos que ainda não chegaram e talvez nem façam falta, das promessas da saúde impossíveis de concretizar, dos prémios dos fabulosos gestores nacionais, da Igreja que se queixa de perseguição porque se multiplicam testemunhos de abusos sexuais em crianças e jovens, levados a cabo por sacerdotes, com votos de castidade, entre outros não cumpridos, não deixa de ser irónico se não fosse dramático, ver os grandes perseguidores do mundo ocidental assumirem o papel de perseguidos, sai outra caixa do meio das outras, árvores a plantar, discuto jacarandás, gravileas, penso nos jacarandás floridos, nas flores de um roxo claro, nos cheiros de lavanda e alecrim que decidimos espalhar pelo canteiros da cidade, sem deixar de pensar nos papeis, nas reuniões, nas resoluções, no almoço e no jantar, no filme que tenho de editar, da carta que tenho de escrever, do ferro que me incomoda na perna e magoa o andar, do tupperware com a sopa para aquecer no microondas, da chamada telefónica para saber de um amigo, das amêndoas caseiras que alguém (a Tia Ilda é um doce) mandou com carinho, do peso que se acumula debaixo das pálpebras, da roupa para estender, para apanhar, para passar, para lavar outra vez, das cores que me apetecem mais claras e vivas, dos convites e cartazes e outras coisas por fazer, das sugestões de musicas fáceis para o meu menino tocar de ouvido na guitarra, da arca de brinquedos que tenho de pintar para o meu sobrinho, do fim de semana que amigos me ofereceram numa escapadela a dois num sitio à escolha, do famigerado PEC que ainda mal sai da casca me baralha a vida, das consultas médicas que tenho de marcar, dos lençóis para trocar nas camas, guardados entre sabonetes de cheiros antigos, verificar se tenho ou não coentros porque sem ervas de cheiro a comida fica mais pobre, se encontro aqueles brincos que não sei onde guardei, de várias camisolas descosidas do outro menino, para as quais tenho de me munir de agulha, linha, paciência e dos conselhos longínquos das tias velhas com cheiro de braseira, dos limões oferecidos, outro ingrediente fundamental, esquecidos num saco em cima da secretária, do amola tesouras que anuncia chuva com a flauta de pã, da vontade de voltar outra vez para os lençóis e sonhar com jacarandás floridos.

3 comentários:

Fernando Samuel disse...

Há lá coisa mais bonita do que um jacarandá florido!...

Um beijo.

Diogo disse...

É engraçado como misturaste tão harmoniosamente alhos e bugalhos. Submarinos e pedofilia católica com coentros e limões. Só tu!

Beijo

Zorze disse...

Ana,

É o dia-a-dia, dos dias actuais.
Hoje cerca de 6 biliões de alminhas viveram 6 biliões de formas de encarar a vida.
Gostei muito dos jacarandás, têm uma aura brilhante!

Beijos,
Zorze