È o mar que nos chama

È o mar que nos chama sempre, foi o mar que nos trouxe gentes até aqui, fenícios, gregos, celtas, romanos, árabes ou mouros, judeus talvez outros sem registo, foi o mar que nos chamou a partir entre a fome e Castela e Leão pelas costas, fomos pelo mar um mar roxo, assustador, calmo, azul, com peixes voadores e outros só dos que nadam, focas, tubarões, serpentes marinhas míticas de existência duvidosa, gaivotas companheiras e primeiro sinal de costa, monstros que sopravam barcos para trás e reduziam navios só e tábuas partidas e homens em corpos enxagues em qualquer praia desconhecida, sereias. Foi a ouvir o mar que trouxemos canela e malagueta, baunilha e tabaco, outras cores, cheiros e sabores, levámos guitarras connosco, já tinham cá chegado pelo mar os azulejos, as laranjas, a hortelã e o astrolábio, chegámos a outros sítios, matámos, escravizámos, lambuzámo-nos de cacau, café, cana, sexo, pasmamo-nos com elefantes e lagartos horrendos, cobras pérfidas, cavalos de riscas, macacos, tornamo-nos mais mestiços ainda levando para cá e para lá sempre sobre o mar. Ligados pelo mar chegámos a acreditar que éramos assim grandes, “do Minho a Timor”, lutámos sem saber por quê à custa de tudo, vidas, liberdades, fomes várias, foi, não só mas também, para não atravessar o mar numa guerra sem sentido, como se por acaso existissem algumas com sentido, que se fez uma madrugada nova, numa revolução com flores no lugar de balas, mas também foi por atravessar mar misturando quem aprendia a fazer guerra com garbo, com quem largava á força o arado, a colheita, a vinha, a pesca, a fábrica e a escola, foi assim a atravessar o mar todos juntos que se viu todos os lados de uma mentira feia. Foi para o mar que saltou gente em fuga para a Liberdade de um forte de onde não se poderia fugir, houve mais gente ainda que foi pelo mar a fugir da guerra, da mordaça e de ter que matar.

Para mim o mar é importante, não só porque me dizem que recicla quase metade do dióxido de carbono ou porque possui vida infinita ou por que produz oxigénio ou ainda porque é fonte de riqueza, degelo das calotes e de tantas coisas mais, parece que fui feita ao pé do mar, concebi o meu primeiro filho junto ao mar, parece que o mar me alimenta a boa disposição que me faz bem às maleitas físicas que carrego incluindo os ossos que parti que, quando abuso, doem como vidrinhos moídos, contento-me temporariamente com rios, também gosto, porque afinal todos os rios tem como destino ultimo o mar e acabam por ser filhos do mar também, porque a história das gotas de água que ascendem aos céus e acabam nos rios, passa pelo mar.

Aos céus não ascendem outras coisas, como achar civilizado e um acto de liberdade última proibir o uso véus islâmicos em diversos sítios na Europa, Europa Ocidental, Civilizada, maioritariamente cristã, tradicionalmente opressora de outros povos, aos céus não ascendem aqueles que já foram crianças em mãos de guias espirituais que lhes devassaram o corpo e a inocência, escudados pela hipocrisia de uma suposta religião de abnegação e amor, aos céus não ascendem os inquisidores, que também pelo mar foram, matando, prendendo estropiando em nome do amor último, mas já se pediu desculpa, cinco séculos depois, também se pediu desculpa porque afinal a Terra é mesmo redonda e afinal sempre se move e o mar continua a chamar em discursos hipócritas em momentos que esses hipócritas dispensavam de celebrar, que já propuseram que não fosse feriado, que deixaram a sua quota-parte de divida, injustiça social, desigualdade, recuo, é ainda assim pelo mar que chamam…

Comentários

Zorze disse…
Ana Annuette,

"...numa revolução com flores no lugar de balas...", se calhar o problema foi esse mesmo.

"... não só porque [o mar] me dizem que recicla quase metade do dióxido de carbono...", o plancton tem uma tarefa fundamental.

"... ou porque possui vida infinita...", nem mais! Vive-se, morre-se, volta-se a viver em séries, em catadupas. Tudo é infinito na proporcionalidade das nossas capacidades de entendimento.

O mar, belo e lindo de observar, causa sentimentos de relax.
Eu adoro observar o mar e estar dentro dele.
Para a espandilose o sal marinho é muito eficaz, como também para muitas outras, que a maior parte das pessoas nem sequer pensam que possa existir.

Mas o mar, também rasteira vidas. Seja por descuido ou à traição.

A vida é algo de sublime, mas, sem dúvida do arco-da-velha.

Beijos,
Zorze
Fernando Samuel disse…
E se o metêssemos num barquinho e o despachássemos mar fora?...

Um beijo.
SENSEI disse…
O Mar chama-me, para longe deste inferno, acho que vou embarcar, recuso aceitar um povo que abraçou de novo o fascismo e sai à rua a horas certas para comemorar uma hipocrisia a que há quase 35 anos chamam 25 de Abril de 74.
Não!... Não foi nada hipócrita essa data, foi sim silenciada ao longo de quase 35 anos após o 25 de Novembro de 75, onde o verdadeiro triunfo dos porcos cor de rosa assumiu o poder com algumas alternâncias cor de laranja.
Mas o que é certo, é que HOJE os porcos governam e exultam os seus seguidores servis e ao estilo de lacaios à persecução de quem se lhes opõe, grunham de baixo para cima e os porcos gordos, usam os meios pagos por todos nós, agora à sua disposição, para oprimir, ameaçar e reprimir os poucos corajosos que teimosa e corajosamente lhes fazem frente.
FAREI FRENTE ATÉ MORRER E SE ISSO FOR REQUISITO PARA OS DESTRUIR, POIS MORREREI DE DEDO BEM APONTADO AO PS E AOS SEUS LACAIOS IMUNDOS!

Ouss
SENSEI disse…
ATÉ SEMPRE ANA, CAMARADAS E AMIGOS, AS PALAVRAS ACABAM HOJE E AQUI.

Ouss
Alvarez disse…
Gostei sinceramente!...
Que nunca a prosa esmoreça nem a vontade...

Alvarez
jorgete disse…
Ana:depois de ler este texto apenas posso dizer: reúna os seus escritos, pedacinho daqui,pedacinho dali,e tudo junto, com mais um pouco de magia e de imaginação dê à luz o livro que a sua escrita merece.