terça-feira, 20 de abril de 2010

Coisas


Ontem estacionei o carro à porta de casa, pouco faltava para a meia noite, fim oficial do dia, tirei o saco, a mala, outro saco, a pasta do portátil, voltei a abrir a porta ajeitei o cinto que ficou de fora da porta do carro como a língua de um animal cansado, passou um homem por mim, não o conheço mas tinha um ar familiar, ajeitava o blusão porque estava frio, um gato salta do contentor do lixo para um muro, num movimento gracioso que não me canso de admirar, tranquei o carro subi a escada entrei em casa um dos meus homens beija-me, acolhe-me, “Como foi o dia, mãe?”, “Já acabou filho!”, distribuo as coisas que trago num dos sacos, penso se ainda abro a pasta do portátil ou não, decido que não, tiro o relógio, os brincos, o anel, o elástico que me prende o cabelo, coloco na máquina as caixas de plástico que voltam sujas e vazias, dispo-me visto o incongruente pijama cor de rosa cheio de gatos e cães, apoio a cabeça no colo de um as pernas no colo de outro, tento entrar no espírito que leva os meus homens a rirem e a fazer comentários jocosos ao filme quase artesanal, Kung Fu dos anos 70, não consigo, faço uma torrada, bebo um copo de leite, vou para a cama, ainda vejo o resto de um episódio repetido onde um grupo de policias cientistas descobre um criminoso através de um fragmento de vidro partido, acabo por ficar naquele estado de vigília até que os meus meninos, grandes, enormes, com barbas que arranham se debruçam sobre mim para me dar um beijo de boa noite, o beijo que já foi ao contrário, eu que me debruçava sobre as suas camas. Sonho, sonho com várias coisas do dia, sonho com outras, com um lago de águas calmas, com um silêncio cheio de ruídos, acordo com o despertador do costume, com o corpo ao meu lado que se levanta, deixo-me cair no luxo de estar assim um pouco, deitada, a adivinhar o dia, enroscada sobre mim própria, até me levantar fazer as torradas, tomar o banho, entrar no carro que estacionei ontem á noite, arrumar a pasta do portátil e a mala no banco do pendura colocar o cinto que voltou à forma inicial, já descansou….

5 comentários:

jorge disse...

E o texto como sempre, foi......muito bom !!

Anónimo disse...

O texto é lindo,como sempre!
Mas aninha já estás novamente em lufa,lufa?
A Actividade política e ou profissional, são modo de vida, não podem transformar-se em modo de morte!
Não é para ser chata!!!
Fica mais vezes com os teus homens, tomam também conta de ti!
Um beijinho

Lagartinha de Alhos Vedros

Fernando Samuel disse...

Assim passam os dias...

Um beijo.

Zorze disse...

Anoquitas,

Olha esses ritmos, sou mais novo do que tu, mas sei muitas moengas da vida.
E olha que depois ninguém te agradece, sabendo que tu não fazes as coisas esperando por louros.
Mas, menina, intervala e de vez em quando manda um manguito às solicitações. Fazem bem à psique, e principalmente, à saúde.
De vez em quando caga neles e manda um sms aos amigos para beber um cafecito relax.

Beijola à muy solicitada.

malinka disse...

Não é fácil...
Por vezes é necessário este ritmo.
Há coisas inadiáveis.
Quando fazemos com gosto, sem querer condecorações, sentimo-nos realizados.

Lindo texto, os meus parabéns.