Cartilha Maternal


A minha avó tinha um respeito muito grande pela Cartilha Maternal de João de Deus, apesar de que na época em que aprendi a ler e a escrever já existirem outros compêndios de aprendizagem, não deixei de a manusear, afinal a minha avó aprendeu por ali a decifrar as letras quase por si só. Mas a Cartilha Maternal excede a obra de João de Deus, transformarmo-nos em mãe é uma transição fantástica, a vida ganha outros contornos, se por um lado passamos a recear coisas que até ali não pensávamos, por outro lado acabamos por ganhar audácias, coragens, forças e autonomias.
Para além do mistério profundo que é sentir uma vida a desenvolver-se dentro de nós, sentir os seus primeiros movimentos como uma espécie de aranha que anda por dentro de nós, com o decurso da gravidez acabamos por ganhar um grande entusiasmo, uma grande ligação, um sentido de posse dupla, porque tanto sentimos que nos pertence como em igual proporção que lhe pertencemos, por aquele ser que ainda não conhecemos, apenas umas imagens difusas num ecrã ecográfico, imaginamos o feitio dos olhos, o desenho dos lábios, se vêm com os caracóis de um avô ou as covinhas no queixo do tio, ansiamos e receamos o momento do parto, contamos dedos, perguntamos, muitas vezes, se está tudo bem.
O momento do parto, tem vindo a ser aliviado ao longo dos tempos, a tecnologia e os avanços da medicina assim o tem feito, de qualquer das formas a alegria ultrapassa o desconforto.
Tornar-me mãe foi bom, melhor do que pensava, os meus meninos tiveram chegadas difíceis, mas não me esqueço do primeiro olhar que trocámos, do seu cheiro, do toque sedoso da pele, de reconhecer neles pedaços de mim, reconhecer o seu choro entre todos os outros choros, maravilhar-me com a perfeição das unhas minúsculas, sonhar com o seu futuro e invariavelmente deparar-me com a sua autonomia que constrói sonhos próprios, tenho saudades dos meus bebés, porque a vida corre muito depressa entre obrigações, descansos e etapas, mas muito orgulho nos meus homens.

Mas ao falar de mães lembro-me de todas as faces maternais que conheço, a face da minha mãe, a face das minhas tias e avó, tive sorte em ter estas mães extra, a minha irmã verdadeiramente transformada pela maternidade, a face das mães coragem que conheço e que fazem quase que girar o mundo ao contrário pelos seus filhos, a face das mães sofredoras, tantas, que aguentaram perder filhos, que não conseguem alimentar filhos, que vivem com a dúvida eterna do paradeiro dos filhos, e ainda outras incompreensíveis que considero excepção, que lemos e ouvimos em parangonas e que nos chocam, pelo abandono ou pelos maus tratos.
Há datas pré fabricadas de calendário que me dizem imenso e outras nem por isso, o dia de ser mãe são todos a partir exactamente do momento que nos transformamos em mães.

Comentários

Fernando Samuel disse…
O dia de ser mãe é todos os dias - como o dia de lutar...

Um beijo de Maio.
SENSEI disse…
Sentir a explosão da vida em nós!
Sentir o seu crescimento dentro de nós!
Sentir um ser sair de nós!
Apenas a Mulher sente o Mundo, a Vida e o Futuro!
Na mulher está a Primavera, onde a explosão da vida ocorre e perspectiva inevitavelmente que o futuro e a esperança existem.

Ouss
Master Sensei
Zorze disse…
Ana,

O Amor de Mãe, é das forças mais poderosas do Universo.

Beijos,
Zorze