quarta-feira, 10 de março de 2010

Planos de Futuro


Quando comecei a trabalhar, há muito tempo atrás, no século passado, a perspectiva era de trabalhar trinta anos, chegada aos cinquenta e cinco anos de idade poderia reformar-me, com essa idade teria ainda margem de manobra antes da artrite ou outra qualquer maleita me tolhesse para sempre, para ler com calma, aprender árabe ou violino, visitar os museus, passear em Lisboa fora das horas de ponta, experimentar receitas novas de culinária, viajar, namorar tranquilamente sem pensar na roupa para estender ou nas propinas, num romance serôdio, a reforma não seria um disparate de dinheiro, mas daria para viver com dignidade, anulavam-se os jantares, a roupa não era tão necessária, passava a vestir fatos de treino confortáveis, neste momento tenho de mudar todos os meus planos, com as penalizações e outras medidas de crescimento e estabilidade, irei trabalhar até aos cento e vinte anos de idade, parte deles de fraldas para a incontinência, talvez andarilho ou aparelho auditivo, se por acaso morrer antes disso os meus descendentes, provavelmente os meus netos, porque segundo a Organização Mundial de Saúde a esperança de vida da geração dos meus filhos é mais curta que a minha, terão de reembolsar o estado pelo tempo que não trabalhei, se morrer aos cem por exemplo terão de pagar uma média de cinco por cento por cada ano que faltava, vezes vinte dá sensivelmente cem por cento do meu salário, é claro que por essa altura as entidades bancárias terão um novo produto, um “reforma poupada”, com juros módicos para eles conseguirem pagar ao estado que de qualquer das formas irá apoiar essas entidades bancárias, por outro lado penso que poderemos ficar penalizados, em termos fiscais, deduções como despesas com a saúde e com a educação de qualquer um dos titulares ou dos seus dependentes só provam que no fundo não queremos fazer parte da solução, mas sim do problema, afinal estar doente é contraproducente e estudar pode ser potencialmente perigoso, esta coisa das leituras, só dá maus resultados, parte dos portugueses pelo vistos já anda a consumir anti-depressivos só porque sim, provavelmente, segundo as declarações da responsável da Saúde compram caixas de sessenta comprimidos para tomar dois e três e compor as prateleiras, digo eu, por outro lado é injusto que sejam cobrados impostos sobre vestuário de luxo, iates, transferências de jogadores de futebol, carros de grande cilindrada ou casas de sonho, se isso acabar toda a industria de revistas cor-de-rosa e programas de entretenimento televisivo morre, o que é chato, para além de se perder um certo glamour, por isso vou tomar várias decisões, o mealheiro onde guardo moedas superiores a cinquenta cêntimos na vã esperança de fazer uma viagem de sonho, vai continuar a receber moedas mas para ser deixado aos meus descendentes junto com um pedido de desculpas, vou tentar aproveitar os fins de semana, enquanto não for emitido um decreto a acabar com eles, para namorar, ler, tentar fazer as tais coisas reservadas para a reforma que nunca vai chegar, vou tomar todos os comprimidos, mesmo aqueles que me provocam azia, dores de cabeça ou erupções cutâneas, vou começar também a comprar menos livros e começar a poupar para um aparelho auditivo, andarilho ou coisa que o valha, já agora vou pedir ao médico de família, quando tiver médico de família, uma receita para uns comprimidos que me permitam assistir a aos tais programas televisivos sem me dar nenhum ataque de caspa….

7 comentários:

Fernando Samuel disse...

É assim, a estabilidade e o crescimento têm exigências incontornáveis...

Um beijo.

Anónimo disse...

Pois é Ana, vão-nos tirando tudo aos poucos e ficamos a pensar para que travou a humanidade tantas lutas para chegar a este ponto. Em vez de aumentar a qualidade de vida só piora.

Jorgete

M. disse...

... a dias melhores. :)

M.

Ana disse...

..."para ler com calma,(...) visitar os museus, passear em Lisboa fora das horas de ponta, experimentar receitas novas de culinária, viajar, namorar tranquilamente (...)" , Também eu, Ana, também eu.
Bj

Ana

duarte disse...

eheheh...
o que nos vai valendo é o sorriso das crianças e o chocolate.
eu sei o chocolate é taxado, mas o sorriso ainda não.
abraço deste vale que tarda em ser belo.

Zorze disse...

Ana,

Quem faz planos de futuro desconhece as agruras do presente que sofre.

Beijos,
Zorze

Ana Camarra disse...

Fernando Samuel

O mais incontornavél é descobrir quem vai crescer e estabilizar...

Jorgete

Só me resta continuar a lutar, vencida mas não convencida!

M

Espero por eles.

duarte

O chocolate passa o efeito depressa, o sorriso é mais duradouro


Zorze

uns micri-nano-mini planozinhos...

Beijos