Labirinto


Imaginem um dia em que tudo corre mal, tudo, sem excepções, está frio, chove, acordamos mais cedo para dar resposta a qualquer coisa planeada com antecedência que falha apesar de nós estarmos na hora certa no local planeado, depois apesar de nos esforçarmos desesperadamente por recuperar o tempo perdido, não conseguimos, há um camião a atravancar o caminho, alguém que quer falar de outro assunto qualquer, apesar do tempo sumir-se como água no deserto, segue-se e continua a chover, pára-se e interrompe-se tudo, continua-se, ainda assim o tempo esgota-se em esperas inúteis, faz-se tempo para chegar na hora certa a um encontro onde já se foram embora, continua-se, tenta-se distribuir palavras amáveis, que se vão pescando com esforço, seria também o meu dia, mas acabou por ser um dia de balões furados e esforço inglório. Não faz mal, agora fazemos uma pausa e comemos e acabamos no último labirinto destes novos templos, o Centro Comercial duplicado em réplicas infinitas, numa ilusão de óptica, lojas, cheiros e sabores, sempre iguais, come-se uma sandes com um nome estranho com sabor de papel e serradura, que enche instantaneamente o estômago sem mimar o palato, sentada numa anónima cadeira de plástico de cor berrante, continua-se o dia, as costas estão molhadas, o tornozelo inchado e as olheiras ameaçam espalhar-se pelo rosto, tomo um duche, tenho esta mania dos duches, a minha tia tinha uma espécie de fé nas canjas eu é na água quente a correr-me pelo corpo, saio do duche, aquecida, talvez reconfortada, para descobrir que o champô de cheiro a cerejas permanece na minha cabeça, o cansaço invade-me e pronto, tiro logo ali no lavatório, cabeça dobrada, torneira aberta, a água vem fria, afasta todo o conforto anterior, chega quente no final, quando já não faz falta, nenhuma mesmo, uso o secador, sempre me aquece, mesmo que não a alma, a cabeça, enrosco-me como um bicho a hibernar, pijama (ainda é de dia), manta, fecho os olhos, deixo-me estar numa consulta sonolenta dos jornais de fim de semana que não tive tempo de ler, não preciso de fazer jantar, existem caixas de plástico coloridas dentro do frigorifico, com restos para vários gostos, pelo menos isso, mas o telefone resolve não dar tréguas, chama irritado por mim, portador de más novas, muito más, tento transmitir calma, enquanto vou roendo a ponta de uma unha, acendendo um cigarro e sentido a angustia a pesar, brutalmente, sobre o peito, acabo por passar o resto do dia em chamadas telefónicas parecidas, recomendações para quem chega a casa encharcado que tome um banho muito quente, imediatamente, tento seguir a resolução de crimes em séries de ficção em quanto na minha cabeça se travam outras batalhas, deito-me, o comprimido ajuda a dormir, mas não ajuda a parar de sonhar, sonhos de labirinto em que esbarro nas mesmas paredes e becos sem saída, acordo é outro dia parou de chover, está mais frio, parece que a terra tremeu outra vez, as noticias falam da crise, de cortes, aumentos fiscais, congelamento de salários, sigo a minha rota, encontro outro dia apenas manchado por problemas novos, conversas ásperas e becos sem saída…

Comentários

Nuno Medon disse…
olá! espero que o dia termine bem... beijos ( caso seja mulher )
Ana disse…
Pois Ana,

Eu não uso secador ou uso raramente. Tb não fumo. De resto, tudo igualazinho. Problemas da margem sul.
Bj
Zorze disse…
Ana,

Primeiro, o Tempo não liga nenhuma às nossas agendas, mesmo que falemos imenso acerca dele.
Depois os problemas, não que seja reconfortante, mas diz a lei de Murphy que eles ocorrem e sempre na pior altura. Nos corolários da lei aventa-se que ainda pode ser pior.
Quanto aos labirintos, é a nossa vida, fado, destino o que se queira chamar. Vamos evoluindo à medida que os ultrapassamos.
Só para ficares mais descansada, quanto mais evoluimos, mais complexos serão os labirintos e os problemas de maior dimensão.
É um caminho sem fim, isto da evolução!

Beijos,
Zorze
LBJ disse…
Há dias assim, mas depois também há os outros :)

Beijos vizinha
Fernando Samuel disse…
É forçoso destruir o labirinto...

Um beijo.
Ana Camarra disse…
Nuno

Por acaso não terminou bem, sou de beijos sim senhor

Ana

Será desta margem?!

Zorze

Sendo assim quero desevoluir!

LBJ

Por acaso ando cheia de saudades dos outros...

Fernando Samuel

Á marretada de se for necessário!


Beijos