segunda-feira, 1 de março de 2010

As telhas, azares e outras coisas…


Não sendo supersticiosa, até porque acho sinceramente que isso dá azar, vou-me emaranhando em múltiplos fenómenos sem explicação cientifica plausível, a minha mãe avisa-me constantemente para não cortar as unhas às sextas feiras, quando pergunto porquê, limita-se a responder “não é bom!”, também me avisa para não colocar a mala pousada no chão porque o dinheiro desaparece mais depressa, essa então é completamente desnecessária, o dinheiro desaparece sempre depressa, de resto passo por baixo de escadas e até gosto de gatos pretos, quando não consigo encontrar algo lembro-me do pano amarrado ao pé de uma cadeira, remédio santo ancestral, ensinado por avós, mãe e tias, bom, mal não faz, por vezes dou comigo ao fim de revistar gavetas, bolsos, pastas, a fazer isso mesmo, a rir-me de mim própria, seja a acção miraculosa do pano, seja o simples facto de parar um pouco a busca e descontrair as coisas lá aparecem, ou não, hoje levantei-me com “a telha”, estado de espírito que se caracteriza por ser irritadiço, apesar de repetir para mim própria que está tudo bem, sabia de antemão que não, irritou-me o vento, o rádio do carro que amuou comigo e emudeceu outra vez, o artista que conduzia na minha frente com a lentidão de quem anda de carro a ver montras, o estacionamento do hospital a abarrotar, carros estacionados de forma a ocupar dois lugares, ruminava para mim as preocupações face aos números escarrapachados nas analises, quase tão bons como os Orçamento de Estado, a preocupação com o elemento mais jovem da família (nem três meses de vida soma ainda) estar em internamento hospitalar, o facto dos horários do meu filho sobreporem com aulas no mesmo dia, na mesma hora e eu nem sequer consegui fabricar um filho com o dom da ubiquidade, mas lá estacionei, lá fui a coxear até local das consultas, inundado de gente que se junta frente aos guichets e aos corredores, como se fossem ser atendidos mais depressa por isso, ouço altercações, assisto a uns actos pouco cívicos, verifiquei que existiam apenas vinte e cinco pessoas para serem atendidas antes de mim, sentei-me a ler, fujo para a Grécia mítica e para os enredos da Guerra de Tróia, de vez em quando largo o livro, troco uma conversa de circunstância com caras conhecidas, ouço queixas da vida de alguém, fumo um cigarro, atendo chamadas, até que ouço o meu nome pelos altifalantes e lá vou, “Dona Ana, isto não está a correr como se esperava!”, eu já sabia, mas fiquei na mesma apertada com a novidade, ouço o resto, recebo papeis, próxima consulta, dirijo-me ao carro com “uma telha” maior do que trazia comigo, por um instante penso que poderia ver com alguma das minhas velhas sábias qual a mezinha para me mudar o estado de espírito….

5 comentários:

Maria disse...

Típico de uma segunda-feira...
Melhores dias virão, Ana.

Um beijo.

Fernando Samuel disse...

Nesse caso, a mezinha és tu...
Coragem.

Um beijo.

Zorze disse...

Ana,

Pelo sim pelo não, não passo por baixo de escadas e quando vejo uma tesoura aberta fecho-a.
A superstição também está ligada aos sonhos e aos presságios.
Por isso mesmo, é que os insondáveis mistérios do Universo são misteriosos.
Vá-se lá saber porquê!

Beijos,
Zorze

Diogo disse...

Melhoras! A perna está a dar-te cabo da paciência.

Beijo

Anónimo disse...

Aguenta coração.
Um dia vai passar, ainda que não totalmente,mas vai passar.Calma, pouco a pouco vais agarrando a tua vida de volta.
Até porque não há outra solução, não é?
Beijos
Dulce