O Sexo e a sinceridade Capitulo terceiro


Noites a fio esperei por ti, por vezes quando chegavas com um cheiro de frio, aquecias longamente nos meus braços primeiro, depois com o resto do meu corpo, não existia muito mais, a vertigem de sacudir o frio e a noite, de mergulhar num misto de sentidos, um cheiro diferente, o aveludado da pele, o cabelo sedoso ou áspero, todos os montes e vales de geografia já conhecida e ainda assim mutante.
Não importava quantas vezes sacudíamos o cheiro da noite, com calma ou com pressa desesperante, num ritmo frenético de náufrago, em brincadeira de animais aquáticos, com a fúria da tempestade ou com a calma das águas calma.
Não importava se sacudir a noite era depois de um dia cansativo, desgastante, de mil ideias a fervilhar, compromissos, responsabilidades, coisas que se fazem, pequenas viagens por vezes árduas, contas de deve e haver, perdas e ganhos, despertador em contagem decrescente, planos e projectos, sonhos guardados para depois, não importava.
A geografia mudou, vales que se transformaram em montes, zonas sedosas que o deixaram de ser, planaltos firmes que ficaram com sulcos do arado do tempo, florestas desbastadas, mas ainda assim não importava.
Só importou depois de todas as mudanças, alguns silêncios em que parecia que, como disse um poeta, as palavras estavam gastas, compromissos secretos onde eu não cabia, mas ainda assim fingia não ver, como fingia não ver outras coisas, sorrisos só teus, um certo ar complacente, uns segredos de que adivinhava murmúrios e nada mais. Só depois disso te vi de outra forma, quando descobri que a tua geografia era partilhada de forma secreta com outro alguém, embora ninguém me tivesse informado da partilha, só quando percebi que os sorrisos não eram para mim, que passei a ser uma obrigação, uma coisa que já não querias a teu lado ou poderias querer, só e apenas em recurso porque fazias projectos e sonhos noutro lado onde sacudias o frio das noites que fingias partilhar comigo, nesse lado fazias outros projectos, construías outros sonhos, em amplexos escondidos de adolescente, esquecendo a viagem grande feita a dois, ela própria feita de pequenos percursos, nesse momento a mentira desnudou-se e só aí importou e o frio invadiu-me.

Comentários

Maria disse…
Este capítulo sobre o tema tocou-me de forma muito especial.

Abraço, Ana.
Zorze disse…
Ana,

Muito bonito! A escrita.
Este capítulo "parece" ser mais "private"...

Os meus bitaites ficam a aguardar, quando o tema se voltar a generalizar.

Beijos,
Zorze
Ana Camarra disse…
Maria

:) Um abraço

Zorze

Não é tão pessoal assim, nunca passei por esta experiência, mas três amigas passaram, recentemente.
Consigo imaginar-me ali!

Beijos
Fernando Samuel disse…
Essa é a faceta mais sombria...

Um beijo.
Ana disse…
O frio só nos invade até nos querermos. Há sempre lugar a outros sonhos, outros projectos... basta crer e querer.
Ana Camarra disse…
Fernando Samuel

Acho que sim.

Ana

Claro que há lugar a outros sonhos, sempre!

beijos