segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Chuva e prazos


Lúcia acorda, acorda com as vozes dos locutores, cheios de alegria a jorrar entre as ranhuras do rádio despertador de números luminosos verdes e que lhe lembram que por muito que a chuva caia sobre o chão, por muito que lhe apeteça ficar um pouco mais entre os lençóis tem de ir, levanta-se calça os chinelos de quarto entra na casa de banho senta-se na sanita, passa para o duche evitando sempre confrontar-se com a outra mulher, desgrenhada e de olhos semicerrados que também finge não a ver do outro lado do espelho. A água pelas espáduas dá-lhe aquela sensação de conforto sempre boa, sai do duche quase com a mesma vontade que saiu da cama, abre a porta do quarto do filho e diz-lhe que são horas, em troca recebe o resmungo habitual, veste-se, enxuga-se, opta por uma saia prata e uma blusa de malha, a gabardine dos saldos do ano passado, a mala, o saco com uma fruta, o chapéu-de-chuva, abre uma amostra de perfume, mira a outra ao espelho, e pensa “Estás muito bem para uma bancária quarentona, divorciada!

Volta a lembrar o adolescente meio morto que está na hora, pede-lhe para se vestir de acordo com o tempo, deixa-lhe as moedas em cima da mesa, junto aos cereais, entra no elevador “Bom dia Dª Lúcia, lá vai para a labuta?” “Têm de ser Sr. Fonseca”

Na esquina o autocarro enche-se de gente, como se as pessoas, todas com sono, todas meio a dormir, fossem devoradas, dá uma corrida, se entrar neste autocarro talvez consiga entrar no barco das dez para as oito, consegue. No barco olha as caras de todos os dias, cumprimentam-se com olhares de reconhecimento, o rio lá fora está cinzento, pela perna uma comichão de insecto “Porra! Uma malha nas meias!”, discretamente olha, é por dentro das botas, “Ainda bem!”, humedece o indicador e passa pela malha, procura verniz na mala, discretamente toca aquele começo de malha com verniz, pensa que faltam três dias para receber, duas semanas para acolher na sua casa a mãe que é trespassada de uns filhos para os outros, sem saber nunca onde está e que lhe pergunta “Como se chama menina?” “Sou a Lúcia!” “Tenho uma filha que se chama Lúcia, muito bem casada, que engraçado…”, um mês para que o filho complete dezoito anos e deixe de ser legalmente responsabilidade do pai, que a pouco e pouco se foi distanciando, ocupado com outra mulher e outras crianças, seis meses para o subsidio de férias, talvez vinte anos para ver o rio lá fora cinzento e esperar por outro prazo qualquer.

8 comentários:

Pedro Penilo disse...

Mais um belo texto. Que bom!

poesianopopular disse...

Que canseira! A vida, porque o texto está delicioso!
Tu mesmo só com um pé, estás a atirar muitabem!
Beijoca, e as melhoras.

Zorze disse...

Ana,

Conheço tantas Lúcias como a que retratas.
Este modo de vida que as pessoas se conformam porque, é porque é, frutifica nas suas várias valências sociais e geográficas, vidas assim, quase sem reparar que se vive.
O apelidado mundo desenvolvido, não é mais do que uma tremenda ilusão, quando de uma nova de escravidão se trata.
O stress, a falta de tempo, a desumanização das relações, onde tudo é a correr. E fundamentalmente, se a Lúcia for uma muito bonita mulher, também não há tempo para reparar, nela transparente, quase zombie da rotina do dia-a-dia.

Beijos,
Zorze

sou azinheira disse...

ana obrigado pelos teus textos,que sempre sabem tocar-nos. sei, pela minha vizinha da frente, que já estás melhor e ainda bem.finalmente estás a deixar para trás esses maus momentos, isso nota-se até por esta nova escrita. recupera depressa.
beijos e abraços desta tua azinheira dedicada

Fernando Samuel disse...

Prazos, prazos, prazos...

Um beijo.

SENSEI disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
SENSEI disse...

Descalça vai para a fonte
Leonor pela verdura;
Vai fermosa, e não segura.

Leva na cabeça o pote,
O testo nas mãos de prata,
Cinta de fina escarlata,
Sainho de chamelote;
Traz a vasquinha de cote,
Mais branca que a neve pura.
Vai fermosa e não segura.

Descobre a touca a garganta,
Cabelos de ouro entrançado
Fita de cor de encarnado,
Tão linda que o mundo espanta.
Chove nela graça tanta,
Que dá graça à fermosura.
Vai fermosa e não segura.
.
Luís de Camões
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Lúcia é mais uma Leonor, mas do século XXI, sem poetas que a cantem ou encantem, sem que lhe gabem beleza ou formosura, mais uma Leonor, mais uma Lúcia, mais uma Maria, Ana, Clara, mulheres que embora não pareçam, vão descalças mas não pela verdura, aparentemente formosas, mas seguramente não seguras.

Beijo

Ouss

Anónimo disse...

Lindíssimo texto.

Linda música!

Um espaço de paz onde nos sentimos bem!


Bom ano para ti aninha!

Bom dia de reis

um abraço

Lagartinha de Alhos Vedros