Aposto que são as mesmas...


Existem gotas de chuva a escorrer pelos vidros, por vezes acho que são sempre as mesmas, de há anos, na altura de que me lembro delas achava que as nuvens eram o resultado do fumo, o das chaminés, claro, dos fogareiros dos assadores de castanhas, que perfumavam o Outono e o principio do Inverno com aquele cheiro doce de madeira queimada, a madeira do carvão, a madeira da casca da castanha, pois eu pensava que as nuvens eram feitas assim e com o fumo dos cigarro também, de vez em quando pedia ao meu pai para fazer uma argola de fumo, ele fazia e eu ficava sempre á espera que surgisse no céu uma argola perfeita. Nessa altura eu pensava que as nuvens se faziam assim, não me lembro o que pensava que era a chuva, lágrimas?! Não sei não me lembro, lembro-me que para o mundo ficar no sitio eu encostava o nariz ao vidro da janela via as gotas desceram e esborracharem-se e fazerem assim um caminho secreto, juntaram-se e acabarem no rebordo da janela, nesses pedaços de tempo bafejava os vidros e fazia desenhos no embaciado, desenhos que desapareciam, como num caderno mágico. Mas dizia eu que para o mundo ficar no sítio depois de desenhar nos vidros e assistir ao choro das nuvens e às corridas das gotas, bastava sentir a casa com todos, ou o cheiro do fumo do meu pai, ver as folhas do jardim lavadas e brilhantes, aconchegarem-me com um chocolate quente na caneca favorita. Hoje não consigo colocar o mundo no sítio, as minhas dificuldades, transitórias e temporárias de locomoção, não me permitem tão pouco encostar o nariz ao vidro e fazer desenhos, a televisão informa-me das coisas que vão sendo desarrumadas no mundo, todos os dias mais, já sei o processo da água e a sua metamorfose de estado líquido, evaporação, estado gasoso mas vou fumar um cigarro, sempre mata os pedaços de tempo, enquanto as gotas fazem corridas, aposto que algumas são as mesmas…

Comentários

Anónimo disse…
Ana,
lindo, como sempre. Se calhar são mesmo as "tuas" gotas de chuva e apesar de não poderes desenhos, podes vê-las e há coisa mais bonita do que vê-las a dançar na nossa janela?
Beijo
Dulce
Zorze disse…
Ana,

E muitas delas são as mesmas. Caem, sobem e voltam a cair.
As gotas, invariavelmente, caem. O modo de entende-las, também, varia.
Vamos as entendendo como as entendia-mos num passado que passou.
Num futuro por aí entenderás a forma como as entendeste hoje.

Beijos,
Zorze
PDuarte disse…
há como que um perfume nas tuas palavras que me fazem bem.
sempre que aqui venho e me demoro saio com uma paz que não encontro noutro sítio.
as melhoras, amiga.
Fernando Samuel disse…
São as mesmas, mas... tão diferentes, hoje, do que eram!...

Um beijo.
Anónimo disse…
Eu também acho que este é melhor lugar do mundo para se dar calor á alma.

Este blogue é um SPA de alma, faz massagens,com cremes morninhos e até chocolate!

Obrigada

Um beijinho

Lagartinha de Alhos Vedros
Ana Camarra disse…
Dulce

pois, se calhar são.

Zorze

por vezes existem coisas que não são para entender.

PDuarte

Fica o tempo que te apetecer.

Fernando Samuel

O mundo inteiro é composto de mudança, já dizia o nosso amigo.

Lagartinha

Gulosa!


beijos
sou azinheira disse…
ana
essas gotas, marotas! eu conheço-as. são as mesmas que vão lá ao alentejo, cair no meu telhado, voltam e vão escorrer pela tua janela.
são umas grandes malucas, essas gotas!
http://soplanicie.blogspot.com/