quarta-feira, 17 de junho de 2009

Vi-te!


A verdade é que te vi, noutra pessoa que não eras tu, porque tu já não andas por cá.
Não era flagrantemente parecido contigo, nem a feição, nem os olhos, não eram os teus olhos de um verde intenso marítimo, nem era o teu sorriso, era assim um ar na forma de andar com um ombro á frente como fazias sempre, fruto talvez do teu tempo que era gasto em cima de pranchas.
Era a tua forma de andar, um gesto parecido com o teu, uma cadência.
Doeu-me ver-te assim de repente, noutra pessoa.
Lembrei-me que não penso em ti tantas vezes, só de vez em quando, quando penso em ti existe uma mistura estranha, uma saudade doce e amarga, mel com limão…
Fiquei assim parada a olhar até que a outra pessoa olhou para mim, deve ter sentido o peso do meu olhar, parou e sorriu.
Aquele sorriso retirou-me toda a dor, sorri de volta, segui o meu caminho, pareceu-me que eras tu que me sorrias, quase que esperei ouvir a tua voz “Então, Linda, que fazes á vida?”
Se me tivesses perguntado respondia-te que faço fintas todos os dias à vida, tantas como ela me faz a mim, que faço por viver todos os dias, não subsistir ou só existir, viver. Porque nunca sei quando a vida me vai excluir como te excluiu a ti da minha, como te excluiu a ti do mar, como te excluiu de repente das tuas mãos de artista que criavam formas diferentes e arrojadas.
Responderia ainda que tinha saudades tuas, que me fazes falta e que gostei de encontrar.

13 comentários:

Maria disse...

Ana

Não tenho a certeza que não sejas minha irmã... de sentimentos...
Consegues escrever o que eu engulo todos os dias. De uma forma doce e ternurenta. Enquanto eu faço mais um nó na garganta, que é exactamente o que sinto neste momento...

Beijo

Fernando Samuel disse...

Belíssimo texto!

um beijo.

Anónimo disse...

Dos mais lindos!
um abracinho

Lagartinha de Alhos Vedros

salvoconduto disse...

Porque será que sem conhecer algumas pessoas as consigo ver? Neste momento estou aqui a ver-te.

Abreijos.

sagher disse...

só tu minha linda. Ler-te é redescobrir muita forma de olhar e de sentir os que já não estão connosco ou os que estando, simplesmente não fazem parte da vida diária.

Diogo disse...

As pessoas vão desaparecendo e muitas vezes a nossa memória não acompanha a mágoa. E sentimos um aguilhão de culpa.

Beijo

SENSEI disse...

Quantas vezes fecho os olhos e, assim me encosto à sombra de uma árvore, sinto na cara o vento, que me trás saudades de alguns que de olhos fechados vejo, assim tão nitidamente, ouço-os, chego mesmo a falar com eles, mas é apenas a minha imaginação que no furor da saudade me faz reviver, sentir e cheirar odores do passado, como se viajasse no tempo e, assim fico, calmo e sereno, penso que é bom ter este tipo de imaginação, sacia-me a sede que por vezes a saudade de alguns me dá, a dele também.

Domo Arigato Gozamaishita

Zorze disse...

Aninhas,

Como te passar uma realidade que tu vives, eu e os outros?
Não como convicção, não como consolo. Mas a realidade existencial sem os ritualismos e teatralidades de quem sente também que haja algo mais.

Os olhos serem a janela da alma, é uma figura literária muito bonita.
Mas a alma, podemos lhe chamar muitos nomes, não é algo simples. Pelo contrário é muito complexa.

Se a maior parte da Humanidade não "vê" a sua própria alma, como "vê" a dos outros? E logo pelos olhos! Será mais uma questão de expressões faciais que induzem a tal opinião.
É uma questão para te arregalar os olhos.

Quando recordamos alguém já noutra dimensão, noutra frequência energética, também vislumbramos a sua alma, o seu Ser, a maneira do Ser.
Mais, fazemos um evocattio instintivo. E por vezes essa consciência aparece.
Aqui já é complicar. Mas é assim...

Existem realidades que a maior parte das pessoas foge a sete pés. É um medo sub-consciente difícil de ultrapassar. Vidas após vidas. E mortes também.
Mas, lá está, só vendo...

Beijos,
Zorze

samuel disse...

Que coisa bonita!
É bom ainda podermos ver nos outros aqueles que amamos... mesmo que seja assim, num sonho acordado.

Abreijos.

André Miguel disse...

Belíssimo texto. Magnífico mesmo...
Doce e amargo ao mesmo tempo.

Maria de Fátima disse...

nem sei se és menino ou menina
se és crescido
( e que é isso?!)
sei que traduziste um sentir que é meu também
e que o fizeste muito bem literariamente
que nada disto é importante
apenas sabermos que andamos
(todos)
a tentar VIVER
cada um seu modo
até que nos apartemos
que não mais cavalguemos aquela onda de sueste
(ou faremos nos olhos de um passante?!)
e fica-nos esse sabor de limão e mel...enquanto

Ana Camarra disse...

Maria-Somos irmãs em muita coisa.

Fernando Samuel-Obrigado.

Lagartinha-è assim.

Salvo-Ás vezes também te vejo!

Sagher-As pessoas só deixam de fazer parte da nossa vida quando assim o entendermos.

Diogo-às vezes não é culpa é só mesmo a falta, o buraco.

Sensei-Eu não consigo saciar-me da falta, mas por vezes estão vivos.

Zorze-Não consigo ainda juntar-me a essa tua “clarividência” (pode ser?) mas como digo acho que as pessoas só saem da nossa vida quando assim o entendemos.

Samuel-Sonho tanto acordada….

André-Obrigado.

Maria de Fátima-Sou muito menina ainda apesar de ter 42 anos. È mel com limão…

Beijos

EspaçodasLetras disse...

Adorei o seu texto e por isso deixo-lhe um presentinho no meu Espaço das Letras.