sábado, 16 de maio de 2009

Pedaços de uma história (2)



O Armindo, ensina-me melhor as letras, diz que podemos mudar o mundo, que tenho de aprender sempre mais, que muito longe na Rússia os trabalhadores juntaram-se com os camponeses acabaram com o Rei e estão a fazer um mundo sem patrões e sem fome.
Cá acabaram com o Rei, depois a uma Guerra, a seguir outra, mas depois de muitas confusões e esperanças, estamos na mesma, fome e miséria.

O Armindo diz que sou as duas coisas, camponês e operário, dá-me para ler jornais fininhos como mortalhas que lemos escondidos na hora da bucha que passamos aos outros disfarçadamente, quando ninguém está a olhar. O meu primo avisa “Cuidado sempre houve patrões, olha que essas ideias só te levam ao Limoeiro”
Depois juntamo-nos á noite com o espanhol, Paco, o sapateiro, ali na travessa Luís de Camões.
O Paco conta-me da Guerra em Espanha, eu ouvi muitas histórias do meu pai, mas o Paco conta mais, conta que veio gente de todo o mundo lutar contra os fascistas, que só venceram com a força bruta. Conta que um poeta foi fuzilado, por ser poeta, corajoso e que fez um verso que Paco repete “Verde que te quiero verde…”, diz isto com um ar solene de dedo no ar e lágrima no olho.
Tem uma foto de uma mulher numa moldura, sei que se chama Mercedes, na foto a mulher morena segura um menino de caracóis, parecido com o Paco.

O Armindo avisou “Era a mulher e o filho, foram assassinados pelos fascistas!”
Quando bebe uns copos Paco canta e eu já aprendi “Ay Carmela, ay Carmela” e outra mais bonita “A Internacional”.

12 comentários:

mugabe disse...

Muito bom Ana.
Abraço!

Diogo disse...

O meu avô paterno era espanhol e veio viver para Portugal (morreu com 40 anos). Pouco antes de morrer pediu à minha avó destruir os livros comunistas que possuía.

Beijo

zemanel disse...

Um grande texto, uma grande prosa!
parabéns!

Ana Camarra disse...

mugabe-Obrigado, não te esqueças do mergulho!

Diogo-Tantos Pacos, como o teu avô e outros, ficaram sementes, ficaram ideias. Este Paco é fruto de alguns espanhois que conheci já velhotes.

zemanel-Obrigado.

beijos

Sandra disse...

Oi Ana.

Ainda lembra de mim? Andei sumida, viajando, mas já estou de volta. Por enquanto te envio um grande beijo, depois vou ler os posts que perdi.

Sandra

Zorze disse...

Ana,

Muito bonito. Principalmente os sonhos.
O pior é que na natureza humana, fortemente egocêntrica, poucos tentam impôr a muitos os seus sonhos.
E depois lá vêm a fome, a miséria e etc., etc..

Beijos,
Zorze

Ana Camarra disse...

Sandra-Espero que a viagem tenha corrido bem! Os posts não fogem, estão aqui á tua espera!

Zorze-Ainda assim, pelo o sonho é que vamos!

beijos

SENSEI disse...

Eles querem voltar, estão com novas roupagens, novas imagens, novas frases feitas, mais soft, com nomes e discursos falsos, dizem-se de esquerda, mas sabes?!... Eles são os filhos dos que assassinaram os poetas, dos que queimaram os livros, dos que não aceitaram os diferentes no ser e no pensar, usando exactamente isto, que repetem e dizem, sem qualquer sentimento, para repetirem o que fizeram e pretendem fazer, subjugar de novo quem trabalha, fazer vergar a maioria, para que esta sirva vergada uma minoria, eles estão aí e usam uma linguagem que parece ser a nossa, mas sabes?!... NÃO É!

Ouss

Fernando Samuel disse...

Bela história - e com a Carmela a abrilhantar...

Um beijo

casadegentedoida disse...

Conheci o meu Avô materno já eu tinha 19 anos. Ainda ouvi algumas histórias passadas nessa época, quando fazia "negócios" com Espanha, algumas trocas comerciais das quais a GNR não gostava. Por vezes falava sobre os "Pacos" que conhecia nessas transacções comerciais. Belo texto.
Continua.
Bjs.

Ana Camarra disse...

Sensei-Não é não.

Fernando Samuel-A Carmela é especial.

Casa de Gente Doida-Também conheci Paco's, mas nota-se não se nota?

beijos

Anónimo disse...

Conheço muitas "estórias" e "histórias" dessa guerra civil em Espanha, conheci alguns que lutaram nas Brigadas Internacionais pelos desígnios da Liberdade contra o fascismo, "estórias" e "histórias" contadas na primeira pessoa com a emoção inerente de quem viveu esses tempos de alegrias e tristezas, muitas tristezas....
Mas à luz da distância dos tempos e do próprio espaço, aconselho um livro de um historiador inglês que se dedicou ao estudo desse e de muitos outros acontecimentos que marcaram o sec. XX. Um livro que ajuda a clarificar alguns acontecimentos e a situarmo-nos na complexa teia política, social, económica, etc. da altura. Um excelente documento.

"A Guerra Civil de Espanha" - Paul Preston

Luís Neto