terça-feira, 12 de maio de 2009

Pedaços de uma história (1)

O meu nome é Joaquim Santos, Quim para os amigos, não sabia onde era o Barreiro, só sabia que lá terminava a linha de caminho de ferro.
Enchi-me de esperanças com o fim da Guerra, mas ficou tudo na mesma.

Mas farto de pastar gado e esperar pelas jornas nas colheitas para comer uma bucha resolvi ir, para onde já foram tantos da minha aldeia. Na minha aldeia só aprendi o que é fome, frio e umas poucas letras para assinar o nome. Há-de ser melhor nas fábricas, tenho lá patrícios, no bolso levo uns tostões na cabeça o choro da minha mãe “Vai filho antes bem longe que mal perto, isto aqui é só miséria
Saí do comboio, é tudo grande e diferente da minha terra, tanta gente, ninguém cumprimenta, tenho de saber onde é o Alto José Ferreira, lá mora o meu patrício sobrinho de meu pai, num pátio, não sei como será.
Pergunto a um velhote aponta mais ou menos diz que chego lá, pela rua garotos descalços e ranhosos como na minha terra. À porta da estação um grande grupo de homens, caras fechadas, ar perdido de condenado, vestem todos de igual de azul.
Cheguei à fábrica, o encarregado perguntou-me o que é que sei fazer, baixei os olhos “Faço o que for preciso”.


Fui para os vagons, empurro pequenos comboios cheios de pedrinhas, cheiram mal, o fumo arde nos olhos o peito parece que rebenta, o dia começa e acaba com o apito da fábrica.

11 comentários:

sagher disse...

e assim deixamos de ser escravos da terra e passámos a ser escravos da maquina. grande inovação. mundo cão este onde os escravos passam de paradigma em paradgima convencidos de que um dia a liberdade lhes vai cair nas mãos por oferta dos amos

Zorze disse...

Ana,

Os monstros existem, sempre existiram (nem sempre, exercitando a holo...).

Um dia vais ver. Vão todos para a casa do ... Com uma espada incrustada no meio da cabeça.

E não haverá mais histórias destas.

Beijos,
Zorze

Maria disse...

Pressinto aqui uma história biográfica de alguém muito próximo de ti. Cheira-me.
Tanto tempo depois, o dia começa e acaba com os ponteiros do relógio (das 9.00 às 18.00) e também com o apito da fábrica.
E assim será...

Beijos

Maria disse...

Não falei da LUTA que teremos que travar.
Era preciso?

Outro beijo

salvoconduto disse...

De Norte a Sul a mesma sina, o abandono das terras à procura do pão amargo.

Abreijos.

Diogo disse...

É por isso que devemos abrir os olhos para as mudanças de paradigma que nos traz a evolução tecnológica.

Chega de fábricas, de apitos, de relógios de ponto e de 7, 8 ou 9 horas de trabalho diárias. Vamos pôr as máquinas a trabalhar e dividir a produção. E atirar os Berardos para a fogueira.

Beijo

Ana Camarra disse...

A todos os que aqui passaram hoje, peço desculpa por não responder individualmente, mas o apito das 18 já foi á muito tempo e só agora acabou o meu dia de trabalho...
O Quim, é um personagem inventado por mim, fruto de muitas entrevistas a muitos operários, ex-operários com que tive de falar para uma pesquisa, não pude desenvolver a personagem como queria, por contenções, sempre orçamentais (o sacana do dinheiro!).
O Joaquim representa uma geração operária,a história dele continua, tenta abranger uma história de consciência e luta.
Resolvi publicar aqui estes pedaços de uma história a ter para ter a percepção do que acham.
As vossas opiniões são preciosas para mim.
O Joaquim não é nenhum familiar mas conheço muitos Joaquins, merecem esta singela homenagem.

Beijos e Até amanhã

korrosiva disse...

Hoje em dia, continuam a existir muitos Joaquins e Marias que também continuam a dizer:
"Faço o que for preciso"

beijinhoss

Anónimo disse...

Linda

Continua, estou a gostar, conheço muitos Quins, tu sabes disso.

beijos

kl

Fernando Samuel disse...

É mais ou menos o tema da Engrenagem, de Soeiro Pereira Gomes.

Um beijo.

Anónimo disse...

Lindo, fico esperando os próximos textos!
Porque não escreves tu e deixas que outros te ultrapassem pela direita?
Vê se acordas que já vai sendo madrugada!


Até ao próximo
Abraços da Lagartinha de Alhos Vedros