domingo, 17 de maio de 2009

Pedaços de um história (3)

Vou ao baile dos Penicheiros, fui tomar banho aos banhos públicos, comprei uma latinha de brilhantina, a roupa melhor ficou a jeito no quarto do meu primo a salvo dos catraios dele com quem durmo no chão da cozinha.
A casa também não tem mais nada, a cozinha com a chaminé e pia dos despejos, o quarto interior onde ele dorme mais a Conceição e o Zézinho que tem dois anos, já houve uma menina depois do Zezinho mas morreu com pneumónica depois de noites a chorar com a Conceição a embalá-la e a chorar também baixinho.
Morrem muitas crianças, tantas como lá na terra.
Estou a ajudar o meu primo a pagar o enterro, do caixãozinho branco que foi para Santa Bárbara.

Talvez hoje esteja no baile a Leopoldina, é alta e desempoeirada, trabalha nos teares com a mãe, tem um sorriso que alumia a fábrica toda cinzenta.
Já trocamos palavras entre risadas dos colegas, trocamos olhares à entrada e à saída.
Vou engraxar os sapatos, foram remendados pelo Paco e depois espero que ela lá esteja.

10 comentários:

Diogo disse...

Além de prosadora, de poeta, és também uma historiadora. Onde acabará o talento?

Já te disse várias vezes: faz uma selecção de textos e publica. Tens, pelo menos, um comprador.

Beijo

Ana Camarra disse...

Diogo

Obrigado pela confiança, sou uma mulher que gosta da vida, acho que para entender o presente e projectar o futuro tenho de conhecer o passado.
O talento não é tão grande assim, apenas quando fazemos algo que gostamos nos empenhamos.

beijos

Fernando Samuel disse...

Outro texto magnífico.
Parabéns.

Um beijo.

SENSEI disse...

Voltar a estes tempos!... Não, por muito que sejam lembrados, foram tempos de grandes tristezas, de fomes, doenças, desprezo pelos pobres, que afinal era neles que estava a força que enriquecia os patrões como Alfredo da Silva, hoje há, quem lembre com saudade o herói patrão e esqueça o pobre esfaimado e injustiçado.
Há mesmo quem afirme que os trabalhadores da CUF tinham sorte, viviam bem, tinham a dispensa, os refeitórios, o hospital, só lhes faltava a dignidade de serem pagos meritoriamente pelas suas quase sempre 12 horas de trabalho diário, sobre os olhares desconfiados e opressores da GNR que a cavalo patrulhava o solo das fábricas.
Afinal, as fábricas de que Alfredo da Silva era o dono, seriam fábricas, ou campos de concentração?
O circuito era fechado, os trabalhadores e trabalhadoras estavam confinados por 12 horas à guardada fábrica e as outras 12 horas, confinados a um recolher obrigatório que durou mais de 30 anos, não podendo haver ajuntamentos de mais de 3 pessoas, pois se fossem mais a GNR logo agia, sem delicadeza, mas com a coronha da mauser e logo apelidados de malandros e preguiçosos, pior só se lhes chamassem comunistas, esses que assim eram chamados, desapareciam e nunca mais ninguém os via.
De facto Alfredo da Silva foi um grande benemérito para o povo do Barreiro, Barreiro esse que em si era também um campo de concentração, cada rua era patrulhada atentamente por um dos maiores destacamentos de GNR do país, quando carregavam, nem as crianças escapavam. Mas Alfredo da Silva era um grande benfeitor, criou e fez desenvolver o Barreiro, com o rio ali ao lado e Lisboa à vista, sem arame farpado, mas impedidos estavam os barreirenses pelo cansaço e pelo escasso soldo, vivendo de mãos dadas com o medo no coração e a revolta na alma.
Infelizmente os novos fascistas que se apelidam de esquerda, hoje saúdam e premeiam quem se destacou nesse tempo, não pela resistência ou pela luta, mas pelo colaboracionismo com o regime, do Barreiro tipo Auswitchz, onde "Arbeit macht frei" - O TRABALHO LIBERTA.

NÃO PASSARÃO!

(Bons textos, espero que o livro esteja em andamento)

Ouss

casadegentedoida disse...

Também sou da opinião de alguns, deve juntar os textos e publica-los, juntar-lhes as fotos também, acho que seria um projecto interessante.
Continua. Bjs.

sagher disse...

quando em agosto de 1969 cheguei ao barreiro vindo do alto alentejo, deparei-me com um quadro um pouco diferente, mas ainda assim semelhante. semelhante porque logo a seguir o choque petrolifero fez-se sentir por aí, e eram muitos os desempregrados.
semelhante porque, pela mão de um punhado de homens fantásticos em dedicação e amor a essa terra, pude integrar os "jogos juvenis" um ex-libris da luta contra a ditadura. semelhante porque eram tantas as colectividades, que deambulava anos mais tarde, por algumas delas. Preferendo os Franceses aos penicheiros. O barreiro é, como costumo dzer "a minha terra" porque essa cidadde, outrora de operários, formava homens conscientes e livres, é óbvio que havia muita gente reles, mesquinha, informadores e colaboracionistas, seria interessante seguir a vida de um desses, quantas vezes obrigados a isso, pela fome ou pela miséria. O anterior regime acabava sempre por triturar tudo e todos, e servia-se disso para comprar a consciencia das pessoas.
ler as tuas palavras é viajar no tempo. Num tempo onde me fiz jovem e depois Homem. Muito obrigado miuda.

Ana Camarra disse...

Fernando Samuel-Obrigado Camarada.

Sensei-O trabalho a mim cansa-me

Casa de gente Doida-Vamos a ver.

Sagher-Lá chegaremos a essa parte da história, indespensavél.

beijos

Anónimo disse...

Ana

Já quase que vislumbro a face do Quim....
Tantos Quim's que conhecemos.

beijos~

KL

mugabe disse...

Ana, que hei-se dizer...o material é muito bom, só faltam os finalmentes.

Abraço

Zorze disse...

Ana,

Eu não tomei banho em W.C.'s públicos mas, naquele ao pé da ilha no parque fiz uma marotice. Eu e ela éramos uns miúdos.
Como o tempo passa...
Também ia aos Penicheiros! Mas vou ficar-me por aqui.

Beijos,
Zorze