sexta-feira, 1 de maio de 2009

As margens

Vamos no carro, não é por irmos que as outras coisas ficam para trás.
Nós vamos, nada mais. As coisas ficam.
Há animais mortos na berma da auto-estrada, cães, gatos, no separador há arbustos, loendros, brancos, rosa, fúcsia, alguns quase árvores.
Há estevas, flores bravias, umas explosões de cor de uma papoila que deixou ali sementes para que na Primavera florescessem um molhe de filhas numa explosão rubra de tenacidade e vermelho.

Há arvores, sobreiros, ciprestes, pinheiros mansos e bravos, mimosas em flor, cavalos e ovelhas a pastar em cercas, há uma faixa tosca pendurada no viaduto onde um tal de Daniel proclama o seu amor por uma Rita, eu espero que o amor seja mais forte que as cordas frágeis que prendem tal declaração, explorações suínas que deixam um cheiro pungente a esterco, há vivendas, algumas bonitas, outras foleiríssimas, há fábricas e armazéns, montes de cortiça, um Centro Comercial que promete alegria, preços baixos e divertimentos.
Depois há o Rio, lindo, largo e a música escolhida é bonita, tem um cheiro de tango, de violoncelo, de piano, combina com o Tejo, não sei se combina comigo, acho que sim, sabe-me bem.
Vou uma vez mais manifestar a minha inconformidade, junto com muitos milhares, é bom. Dou abraços e recebo beijos de quem já não via há muito tempo, também de outros que vejo mais amiúde, recebo carinhos solidários, um cravo rubro, um galanteio de um jovem de setenta e muitos anos.
Subimos a Alameda naquela irmandade solidária e teimosa. Comemos uma sardinha no pão e partimos até chegar outra vez, mais uma vez, ao Hospital do desassossego, onde a morte e a vida são medidas em gotas, em silêncios, em gemidos, em percas e os minutos parecem horas, apesar dos melros que cantam entre as árvores do Parque de estacionamento.
Volto para o carro e quero deixar tudo para trás, outra vez, voltar a passar para a outra margem.
Como se fosse possível despir estas coisas, só por mudar de margem, como se não existissem Rios, pontes e até pequenas cordas frágeis a uni-las.

7 comentários:

Fernando Samuel disse...

Passamos e as coisas ficam - salvo o que, delas, levamos connosco...

Um beijo.

salvoconduto disse...

São precisas muitas mais pontes e muitas mais cordas, frágeis que sejam. Por cada uma haverá sempre cem pessoas a quererem derrubá-las ou cortá-las.

Abreijos.

samuel disse...

Belo texto!
Não, não é possível "despir estas coisas"...
Todos permanecemos. Nós, as coisas, os rios, pontes e cordas frágeis que nos ligam...

Abreijos

Zorze disse...

Ana,

Isso é que foi um "MayDay" recheado de emoções.

Beijos,
Zorze

Diogo disse...

Andas tão triste, cara amiga.

Qu'est-ce qui se passe?

Un baise!

Ana Camarra disse...

Fernando Samuel-Por vezes carregamos o Atlas!

Salvo-Construimos pontes todos os dias, como teias de aranha, algumas nunca se desfazem.

Samuel-Não é possivél despirmo-nos.

Zorze-Já sabes que tenho uma vida em turbilhão!

Diogo-Há alturas em que o seu nos caí sobre a cabeça, como dizia o Asterix.

beijos

Anónimo disse...

Lindíssimo texto aninha!
Um abracinho
Lagartinha de Alhos Vedros