terça-feira, 14 de abril de 2009

Por Decreto




Por decreto foram proibidos os abraços
O mesmo estipula ainda que os olhares
Sejam reservados
Os beijos devem ser de boca fechada
Devidamente desinfectados, higiénicos
A amizade deve ser de cor neutra
Nada de colorido
A música discreta pouco arrebatada
Sem agudos, graves, sons de baixo
Baterias, choro de saxofone e trompete
Lamento de violino e violoncelo
Tudo isso é de evitar
As intuições, paixões, causas,
Actos criativos e emocionais
Serão punidos
As atracções, empatias, solidariedades
São de evitar, só a ser usadas em casos excepcionais
De força maior
Devidamente fundamentada em impresso próprio
Sujeito à apreciação do superior hierárquico
Todos deverão ser maquilhados de forma inexpressiva
Ou preferencialmente usar máscara
Todas as flores estão proibidas
Mas muito particularmente as rubras
Que exaltam os sentidos
Os pássaros também, as marés, o luar
Os raios de sol
As nuvens normalizadas
Os sentidos também devem ser usados com parcimónia
Ver, ouvir, provar, cheirar, tocar, são dispensáveis
Todas as singularidades banidas

15 comentários:

salvoconduto disse...

E não é contra isso que lutamos?

Abreijos não resignados.

Ana Camarra disse...

Salvo

Claro que sim!
De onde tu tiraste a ideia que sou cumpridora destes decretos?

Um abraço e um beijo rebeldes

samuel disse...

Boa malha! Belo texto!
Só que agora fiquei com uma vontade danada de voltar ler "A Invenção do Amor" do Daniel filipe... e vai dar cá uma trabalheira para encontrar!... :-)))

Abreijos

Maria disse...

O Samuel já falou no Daniel Filipe...Vi uma curta metragem feita por amadores, nos anos de 67 ou 68, sobre este poema. Numa colectividade, à porta fechada (claro).
É brutal a imagem que ainda retenho...

Um beijo
(o botão eu arranjo sempre...)

Ana Camarra disse...

Samuel-Quando encontrares, por favor, se for possivél manda-me, porque não conheço?
Quanto á inspiração para este foi de certa forma "Europeia"!

Maria-Pois nessa altura segundo me contaram era assim. Tens de me ensinar a do botão, eu ensino a da musica, tá?

Beijos

samuel disse...

Grande Ana,

O livro ainda não encontrei, mas o que interessa está neste link:

http://www.astormentas.com/din/poema.asp?key=1509&titulo=A+inven%E7%E3o+do+amor

Vais entender por que razão foi tão importante para nós, os dessa "colheita", um pedaço anterior à tua.

Boa leitura,
Abreijos

Lúcia disse...

DESCRETE-SE ENTÃO E VIVA-SE PORRA!
Bjos

Fernando Samuel disse...

(...)«Um homem e uma mulher um cartaz de denúncia
colado em todas as esquinas da cidade
A rádio já falou A TV anuncia
iminente a captura A polícia de costumes avisada
procura os dois amantes nos becos e avenidas
Onde houver uma flor rubra e essencial
é possível que se escondam tremendo a cada batida na porta
fechada para o mundo
É preciso encontrá-los antes que seja tarde
Antes que o exemplo frutifique
Antes que a invenção do amor se processe em cadeia)...


Um beijo - e parabéns pelo teu belo texto.

utopia das palavras disse...

Uff!!!! Que decreto!
É para cumprir, Ana?

Parece-me que um decreto parecido a esse já entrou em vigor na loja do cidadão em Faro!

Belo, belo texto!

Um beijo

Susete Evaristo disse...

Também eu amiga, também gostei de te conhecer embora eu já seja visita assidua do teu "Isto tem dias" há algum tempo só que agora já posso associar o blogue à pessoa.
Quanto ao teu texto de hoje se os deixasse-mos era o que eles queriam daí que os encontros blogosféricos "No caminho da Mudança" em boa hora foram iniciados pelo "Cheira-me a Revolução" vamos continuar a dar combate a estas ideias de retrocesso ao antes de Abril.
Beijinhos e pessoalmente um até breve

Ana Camarra disse...

Lúcia-Pois descrete-se....

Fernando Samuel-de facto esse texto é fabuloso.

Ausenda-Foi mesmo essa loja do Cidadão inserida no Simplex que me inspirou.

Susete-Claro que vamos, antes quebrar que torcer.

beijos

SENSEI disse...

A tristeza de um País que teima em não ver a porta que conduz à verdadeira Liberdade.
Este povo teme a luz, prefere a falsa escuridão a que o habituaram, pois nela sente-se abrigado, já a conhece, institucionalizou-se-lhe de tal forma, ao longo de 48 anos, que os breves raios de luz intensa, que o 25 de Abril de 74 lhe proporcionou, encandeou os seus olhos, viveu momentos de Liberdade, mas depressa o medo lha tolheu, mãos hábeis e mentes perversas, escondidas na penumbra de um sol de Liberdade, aproveitaram o encandeio, para assustar um povo ainda muito medroso. Depressa se retirou este povo, de volta ao julgado conforto da escuridão que já conhecia, vivendo entre o medo e a denúncia do próximo, assim está à já 35 anos. Colocaram-lhe umas janelas, vê o céu, mas não lhe chega, este teima em lá estar e deixa-se ser visto, o povo Português acha que a Liberdade é ver, mas jamais fazer, até chega a dizer que é liberdade a mais, que se tapem as janelas!... Grita.
A escuridão é de facto a grande aliada das moscas, que vão assim, mantendo o mesmo excremento, apenas com nomes diferentes.
O povo vota, mas recusa-se sair da escuridão, vota metendo apenas a mão de fora, recusa dar a cara, tem medo.
Elas, as moscas, voam contentes e alegres, elas sim, são livres, livres na manutenção do status quo, excremento mais polido, pouco a pouco e cada vez mais, um pouco mais e mais, vão mostrando e demonstrando as suas verdadeiras intenções, por agora, limitam-se já muito longe, como o que a loja do cidadão de Faro demonstra, por da vontade das moscas.
Mas nas suas mentes perversas e absolutamente doentias, conspurcadas por um poder cedido e não cobrado de 4 em 4 anos, pelo que apenas procuram proibir em público, o que em privado os excita, salivando como vulgares animais com cio, usam e abusam de menores inocentes como aconteceu em tempos no famoso escândalo denominado "Ballet Rose" e, mais recentemente no vergonhoso processo da Casa Pia, fora os que não vieram à tona e, acontecem hoje, agora e amanhã, pelos Cruzes, Pedrosos e Bibi's, moscas varejeiras e mal cheirosas, que continuam livres e impunes. Estas moscas, as que mandam na Loja do Cidadão de Faro, são apenas mais umas moscas oriundas do mesmo putrefacto excremento, totalmente livres, enquanto o povo continuar a se sentir seguro, na escuridão do medo e, já lá vão 83 anos.
Quanto tempo, teremos nós, os que lutam com coragem e sem medo, contra estas moscas varejeiras cor-de-rosa e laranja, de esperar por este povo tipo caracol medroso?

Xôxos (significa beijos)

Ouss

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Mesmo sem decretos, regulamentos e ditais, já todos nos comportamos como soldadinhos de chumbo, mas ainda não demos por isso...
Beijos

Zorze disse...

Ana,

Acho que não irias querer que dissertasse a minha verdadeira opinião sobre decretos.

Seria um esparramar de fel e mel com muito picante à mistura.

Aí é que veríamos esses olhos arregalados! De tal maneira que até outras dimensões se veriam.

Beijos,
Zorze

Ana Camarra disse...

Sensei-Isso é outro post!

Carlos Barbosa de Oliveira-Pois é um bocado como dizes, infelizmente!

Zorze-Mas sempre davas umas gargalhadas á conta dos meus olhos arregalados!

Beijos