sábado, 4 de abril de 2009

De uma das minhas bisavós Mariana



Tive duas bisavós de nome Mariana, cruzaram-se na vida, porque afinal eram as duas do Barreiro, sensivelmente da mesma idade, do mesmo meio.
Hoje escrevo sobre uma delas, não a filha do inglês de quem herdei os brincos passados à mais velha do “lote”, mas da mãe da minha avó paterna.
Sei que casou e teve duas filhas, gémeas, sendo uma delas a minha avó, cedo muito cedo perdeu uma das filhas, levada por uma qualquer doença infantil e pouco tempo depois o marido.
Ficou só com a minha avó, que teria uns 7 ou 8 anos.
Vivia numa casa tão grande que era conhecida pelo “o quartel”.
O “quartel” era partilhado com o irmão, cunhada, e segundo sei pelo menos seis sobrinhos.
Parece que a minha bisavó era a alegria e a generosidade em pessoa, pelo menos é assim que vários barreirenses que a conheceram a recordam.
Casou novamente com um viúvo, com duas filhas, um fragateiro, que ganhava a vida a navegar entre as duas margens do Tejo, com a fragata carregada de tudo o que se possa imaginar, desde alfaces a carvão, passando por cortiça.
Ficaram a viver no “quartel” onde tiveram outra filha, numa casa cheia de crianças.
As crianças eram todas tratadas por igual o que fez com que as primas da minha avó, as enteadas, a minha tia e a minha avó, sentissem que eram mais irmãos que outra coisa qualquer. Pelo que me contam eram todos criados com mimos raros para a época.
O meu pai e os restantes filhos da minha avó nasceram nessa casa.
A minha bisavó Mariana assistiu ainda à morte precoce da filha, da minha avó, que morreu aos 26 anos. Um choque, que nem imagino, porque acho que assistir à morte de um filho será contra natura.
Por fim não resistiu à morte do marido, deixou de comer, beber e falar, assim por esta ordem, até que se deitou na cama conjugal, no lado dele e morreu.
Ficou a ideia romântica que morreu de amor.
Não sei se assim foi ou se simplesmente desistiu, no entanto não deixo de ter um certo orgulho nas histórias contadas milhentas vezes pelas suas sobrinhas e pela filha mais nova e de me terem dito por vezes “Tens coisas muito parecidas com ela!”

9 comentários:

Maldonado disse...

As histórias da tua família são maravilhosas. Nem tenho palavras para descrevê-las... :-O


PS: Tenho lá no meu canto uma prenda para ti... ;)

duarte disse...

Se assim dizem assim deve ser...
de uma coisa tenho a certeza:
generosidade e muito amor emanam das tuas palavras.
abraço

Fernando Samuel disse...

Essa tua bisavó merece que fales mais dela: que escrevas a história da sua vida, por exemplo...

Um beijo.

Zorze disse...

Ana,

Com uma ascendência assim só poderia ter dado uma descendente generosa e amorosa.

E há coisas que ultrapassam o nosso entendimento, tal como a 2ª foto que inseriste no post.

Beijos,
Zorze

Diogo disse...

A morte por amor é agridoce. A esmagadora maioria das mortes é sofrida. Mas também há mortes serenas. Não tem de constituir uma tragédia.

Beijo

PDuarte disse...

há um romantismo puro na descrição que fazes da tua familia que me lembram Garrett.
beijo.

Mar Arável disse...

Quando vivificamos memórias

estamos vivos

Texto sensível

AP disse...

Para não variar e fugir à regra esta é mais uma das tuas deliciosas histórias. Maravilhosa mesmo.

Ana Camarra disse...

Maldonado-Na medida em que as conta vou tendo consciência que tive a sorte de nascer numa família invulgar.
Obrigado pela prenda.

Duarte.Não a conheci, mas os testemunhos que me chegaram foram estes.

Fernando Samuel-E tenho histórias das 4 bisavós. Dá uma saga!

Zorze-Que tem a foto?

Diogo-Não encaro como uma tragédia, acho que desistiu, só mais nada.

PDuarte-Gosto mais do Eça!

Mar Aravél-Coleciono bules, caixas e histórias de família!

AP-Quanto mais conto mais me lembro para contar.

Beijos