quinta-feira, 19 de março de 2009

Um buraco



Ter um filho doente é um buraco, um rombo.
Um rombo em várias partes, no peito, no estômago, na cabeça, nas pernas que ficam frágeis e menos seguras apesar de no momento angustiante nos vestirmos com uma espécie de roupagem de coragem e força, que é falsa.
São sempre os nossos meninos, os meninos pequeninos, mesmo que calcem 45 e tenham namoradas, camisolas enormes e barba.
Queremos pegar-lhes ao colo, fazer o que fazíamos em bebé, protege-los assim dentro do ninho dos nossos braços, mais fortes que qualquer muralha, dizer baixinho “Pronto, pronto meu amor, a mãe está aqui! Já passou!”
Mas não podemos!
Os meninos são demasiado grandes para nos deixarem entrar com eles, apesar de nos lançarem do fundo dos olhos aquele pedido de colo.
Sofremos a dobrar o desconforto, a picada da agulha, o frio do RX, o cheiro do desinfectante, a indiferença de quem faz o seu trabalho, o pingar lento do soro, a triplicar a dor, a quadruplicar todos os lentos, longos, minutos de espera que se arrastam à espera, à espera naquele ambiente impessoal e asséptico onde outras pessoas esperam e esperam, onde a nossa urgência e angústia é maior que a de todos os outros, porque é nossa.
As esperas enchem-se de compassos, o chegar de mais um, mais uma ambulância, o ruído do altifalante, do segurança ou do enfermeiro que chama uma família, um cigarro fumado cá fora, as Revistas com anos lidas como se fossem novas junto com os panfletos da vacina da gripe, e sentimos sós e pequenos e vazios como a máquina sem águas, e sentimo-nos impotentes, muito impotentes.
Pronto o meu menino já está comigo!

14 comentários:

Sostrova disse...

Assusta-te a ti e ao resto da malta!!!
E nós a falarmos ao almoço das "avarias" dos meninos...

duarte disse...

mais do que eu
é aquilo que tu
carregas
a minha saudade de pai
a minha ansiedade de ti...
quando perdida
procuras
e eu presente tenho
num abraço,
o nosso mundo...
é assim que sei
que papa está
para o seu sorriso umbilical
com sabor a rosa pele,
aqui,
até nada mais ser
senão amor e carinho.
abraço do vale(atarefadíssimo)
é todos os dias uma viagem...

mugabe disse...

É isso mesmo Ana !!

Abraço!

Diogo disse...

Eu sou pai. Também sei que o meu filho é o único ser por quem eu daria a vida sem pensar duas vezes.

Beijo

Ana Camarra disse...

Sostrova- E a dizerem que o copo de vinho que entornei era alegria....

Duarte-Que belo comentário.

Mugabe-Foi um grande susto!

Diogo-Tenho a mesma certeza em relação aos meus.

Beijos

Conde disse...

Eu sei o que isso é, fiquei uma noite no hospital com a minha menina. Espero que esteja tudo bem, ou pelo menos, melhor!.

korrosiva disse...

As melhoras do teu menino :))

beijinhoss

samuel disse...

"apesar de no momento angustiante nos vestirmos com uma espécie de roupagem de coragem e força, que é falsa"

Exactamente! Depois, quando tudo já passou... é que nos desmoronamos.

Abreijo.

salvoconduto disse...

Nada como um respiro profundo de alívio. Ainda bem que foi assim.

Abreijos.

Zorze disse...

Ana,

O que interessa é que já está tudo bem.
Depois da tempestade a bonança.

Agora é a hora dos miminhos.

Beijos,
Zorze

Ana Camarra disse...

Conde-O chão foge-nos.

korrosiva-Obrigado

Samuel-Hoje estou um pouco desmoronada

Salvo-Já passou o susto.

Zorze-Agora segue-se uma intoxicação de mimos e ciumes.

beijos

PDuarte disse...

as melhoras para o teu menino.
um bfs para os dois.

SENSEI disse...

Uuuffff!

Ouss

Fernando Samuel disse...

Que buraco! que rombo! - e a esperança de que não seja nada...


Um beijo.