sábado, 7 de março de 2009

Nós Mulheres (e os homens não se esqueçam)

Vinicius de Moraes escreveu assim a sua

Receita de mulher

As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental.
É preciso
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize elegantemente em azul, como na República Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível.
É preciso
Que tudo isso seja belo.
É preciso que súbito tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflita e desabroche


No olhar dos homens.
É preciso, é absolutamente preciso
Que seja tudo belo e inesperado.
É preciso que umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Éluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como no âmbar de uma tarde.
Ah, deixai-me dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas.
Nádegas é importantíssimo.
Olhos então
Nem se fala, que olhe com certa maldade inocente.
Uma boca
Fresca (nunca úmida!) é também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar das pernas, e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é porém o problema das saboneteiras: uma mulher sem saboneteiras
É como um rio sem pontes.
Indispensável.



Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteie em cálice, e que seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mas que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas.
Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os membros que terminem como hastes, mas que haja um certo volume de coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem
No entanto, sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!).
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos




De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério.
Pés e mãos devem conter elementos góticos
Discretos.
A pele deve ser frescas nas mãos, nos braços, no dorso, e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior
A 37 graus centígrados, podendo eventualmente provocar queimaduras
Do primeiro grau.
Os olhos, que sejam de preferência grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da Terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão
Que é preciso ultrapassar.


Que a mulher seja em princípio alta
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que se fechar os olhos
Ao abri-los ela não estará mais presente
Com seu sorriso e suas tramas.
Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber
O fel da dúvida.
Oh, sobretudo
Que ela não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.

14 comentários:

Mar Arável disse...

Do ventre até à foz

como um rio

que alimenta o mar

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Excelente escolha para assinalar o DIM. Pelo CR também estou há 2 dias a tentar prestar uma homenagem a todas as mulheres.

Zorze disse...

Anna,

A Mulher é tudo isso e mais ...

Algo que nos fascina. Sem sabermos bem porquê, ela fascino-nas.

Será o cheiro ?
Será o toque ?
Será a essência ?

A Mulher será, sempre, um ser de fascinação.

Mesmo ter entrado em muitas, o mistério permanece...

PDuarte disse...

parabéns por seres mulher.
parabéns por seres quem és.
beijo e bom fim de semana.

mugabe disse...

Gosto das loiras, mas prefiro as morenas !!!

Abraço!

duarte disse...

é isso e muito mais...
ainda não hà quadro que retrate o que de uma mulher emana.
estou aqui por uma mulher me ter carregado e acarinhado 9 meses...
E tenho na minha filha a esperança de um futuro melhor , mais justo...
nada mais sei, só o que descubro.
abraço do vale

ferroadas disse...

A beleza duma mulher está no seu interior...

Bom dia da mulher

Anónimo disse...

Aninha,se o "Natal é quando um Homem quiser", o Dia da Mulher é quando ela quiser também.
Quando disser basta à humilhação, exploração e tristeza e se abrir insubmissa para a vida em pleno.
Não nego a necessidade de se celebrar, acho bem que se lembre o sacrifício das operárias de Chicago, Catarina Eufémia,Maria Lamas Virgínia Moura e tantas outra que lutaram pela liberdade ao lado dos homens e pela ugualdade de direitos à frente de tantas Marias
Não gosto do Dia da Mulher estilo dia dos namorados, mas também não gosto estilo vitimas a quem se presta homenagem estilo soldado desconhecido!
É assim aninha minha amiga, eu penso assim vai para cima de muitos anos!
Para ti
" Barreirense,mãe,mulher pensante,interveniemte inconformada e arrebatada para a vida"
Duas prendas pequeninas:
Ari

Desde que as coisas se tornem
naquilo que agente quer
é igual dizer meu homem
ou dizer minha mulher.

e agora, especialmete para ti
Alberto Caeiro

Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado
Mas eu fico triste como um por de Sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.
..................................
X
Olá, guardador de rebanhos,
Aí à beira da estrada,
Que te diz o vento que passa?
............................

Um abraço aninha!

Lagartinha de Alhos vedros

Fernando Samuel disse...

Que bela receita!

Um beijo.

Eric Blair disse...

um caos determinístico é o que é :)

Maria disse...

Ler o poema de Vinicius (que génio de escrita!) ao som da Yolanda...
Obrigada pela partilha, Ana

Um beijo

Ana Camarra disse...

Mar Arável – Que bela metáfora!

Carlos-Eu tenho ido lá espreitar mas só lá para quarta-feira irei ter tempo para comentar devidamente tudo.

Zorze-Só tive dentro da minha mãe, até de mim por vezes acho que estou fora…

PDuarte-Obrigado meu amigo.

Mugabe-E ruivas?

Duarte-De certeza que a tua mãe te acarinhou mais que nove meses, tens uma filha, será uma mulher.

Ferroadas-Sim, mas quando se diz que a beleza é fundamental, a interior também.

Lagartinha-Como sabes também tenho a mesma perspectiva. Muito obrigado pelos poemas, esse do Guardador de Rebanhos diz-me tanto.

Fernando Samuel-è, não é?

Eric-Acho que é um caos maravilhoso.

Maria-Sempre ás ordens. O Vinicius era uma maravilha.

Beijos

Maldonado disse...

É sem dúvida um grande poema, que homenageia a Mulher duma forma bastante tocante. :)

Lúcia disse...

A Mulher nasceu para se bela - em tudo - é por isso que é fascinante! E que lute, lute sempre: do alto dos seus sapatos, com o decote atrevido...mas que nunca páre de ganhar o seu lugar.~
Este texto é bestial, Ana!
Beijinhos