segunda-feira, 30 de março de 2009

Madrugada



È de madrugada e passeámos junto ao cais, barcos perfilam-se adormecidos, arrumados no seu sono tranquilo embalados pela ondulação.
As traineiras chegam, provocando a loucura das gaivotas que volteiam doidas na expectativa de um peixe, vibrante e prateado que na ânsia de voltar para a agua, escape de um balde.
E as redes são tiradas, cheira a gasóleo, a peixe e a maresia.
Os homens rudes e tisnados com sacas de serapilheira na cabeça carregam o peixe, equilibrando-se em tábuas, que ameaçam cair a qualquer instante.
Na Lota instala-se a cantoria do lotear o peixe.
Eu tenho cinco anos e certezas infinitas: que os bons são recompensados, que estarei sempre protegida pela mão forte que me segura, que o mar será sempre meu amigo e que cada coisa tem o seu lugar no mundo.

9 comentários:

Fernando Samuel disse...

Sim, cada coisa tem o seu lugar no mundo - mas há muitas coisas que para estarem no seu lugar nos exigem muita luta...

Um beijo.

salvoconduto disse...

E como estão hoje essas certezas infinitas? Mantêm-se ou foram substituidas por outras?

Abreijos.

poesianopopular disse...

Ana
Fizeste-me recordar a minha infância na lota de Paço D,arcos, úém sabe talvez por isso a minha luta, não mais parou.
bjos camarada

Zorze disse...

Anocas,

A azafama do peixe fresco. Quando no grelhador ou no prato esquece-se a luta que foi "a viagem".
O mar é amigo quando lhe apetece, às vezes oferece "sorte madrasta" ao calhas. Marimba-se se são bons ou maus. Desprovida de emoção e critério.

Beijos,
Zorze

Diogo disse...

Então és uma poetisa ou uma prosadora? A decisão não é necessária...

É engraçado que eu não engraçava com poesia antes de te começar a ler.

Beijo

António Chaves Ferrão disse...

Ana
A criança de 5 anos ainda vive em ti? Que inveja eu tenho.
Beijos

Anónimo disse...

Aninha parece que o stress te aumenta a sensibilidade e te faz ficar como um cristal de que resultam as palavras que nos trazem aos olhos lágrimas mas tiram peso do coração.
Contigo não esquecemos a crise,só que "ao colo" tudo custa um pouco menos.
Um abracinho
Lagartinha de Alhos Vedros

Ana Camarra disse...

Fernando Samuel

A maioria das coisas só com muita, mesmo muita luta.

Salvoconduto

Mantêm-se, cresceram comigo.

José

Talvez tenha tido influência, os homens do mar são guerreiros.

Zorze

O mar tem as suas coisas, mas dá muito, dá vida

Diogo

A poesia é uma forma de arrumar ideias, talvez uma forma mais bonita. Ainda bem que gostas.

António Ferrão

Faço por ela estar muito presente

Lagartinha

Talvez tenhas razão, se te levo ao colo já não é mau.

Beijos

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Já tinha saudades de vir aqui e deleitar-me com estes teus belos txtos, Ana. São um bálsamo para mim.