segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Uma manhã como as outras.

O despertador tocou, outra vez as frases parvas da estação de rádio, a gritarem animados para se levantarem.
Saiu da cama a custo, muito custo, espantou os farrapos de sono como se tratassem de insectos inoportunos, ao seu lado o ressonar tranquilo.

Um duche, o primeiro jacto de água fria depois a lassidão da água quente, um sabonete, aroma de sândalo, pequeno luxo, sabonetes de aromas. Esfregou energicamente os seios avaliando a sua firmeza, as axilas, as pernas, saiu do duche apesar de lhe saber bem.
Embrulhou-se na toalha, pisou o chão frio com os pés descalços, acordou as crianças que teimosamente se agarravam ás almofadas, abanou o homem que ressonava tranquilamente na sua metade da cama “Levanta-te”.
Começou a vestir-se, seguiu para a cozinha, meio vestida, colocou as fatias de pão na torradeira, o leite a girar no microondas, voltou para o quarto enfiou os collantts olhando com agrado para as pernas, ainda bem torneadas, vestiu a saia, colocou desodorizante, a blusa, os brincos, guardou para depois as gotas de perfume sacramental.
Vestiu as crianças, meio ensonadas.
Secou o cabelo á pressa.

Distribuiu tigelas de leite, torradas, foi trincando uma enquanto analisava pacotes congelados para retirar para o jantar, eterno dilema, entre bifes, costeletas, postas de peixe.
Tirou a roupa lavada da máquina, a máquina colocada a lavar á noite, para ser mais barato, estendeu a roupa.
Sentiu aquela comichão inequívoca de uma malha na meia, a trepar pela perna, entrou no quarto, despiu a saia, os collantts, vestiu umas calças, umas peúgas quentes, foi buscar as botas, viu que faltava o pequeno pendente do fecho.

Colocou a louça na máquina, entrou na casa de banho e deu um beijo no homem que barbeava, pegou nas crianças, nas mochilas, no seu saco com o tupperware cheio de sopa, duas peças de fruta, um pacote de bolachas.
Colocou rímel a correr.

Prendeu as crianças nos bancos, deixou-as no seu destino, chorosos e sonolentos, estacionou o carro no parque de terra batida, onde só se tem de dar uma moeda ao toxicodependente de olhar vazio.
Correu para o barco, sentou-se, olhou o rio e as gaivotas, suspirou.
Agora, sim ia começar um dia de trabalho.

11 comentários:

korrosiva disse...

O meu acordar é sempre tão doloroso no inverno, ninguém me mete na cabeça que acordar e sair da cama quente faz parte do ritual diário :/

mugabe disse...

Ana

Choro pelos Palestinianos !!

Abraço, Bom Ano !

Maria disse...

Apenas um trabalho diferente, porque o que fez em casa foi uma correria...
Se ao menos a travessia de barco desse para descansar um pouco...

Beijo

Diogo disse...

Minha cara,

Devias tentar escrever um livro. Tens talento a mais. É um prazer ler o que quer que tu escrevas. Invejo-te. Go ahead!

Beijo

Ana Camarra disse...

Korrosiva-Eu por acaso acordo sempre cedo, mas de Inverno custa mais um bocadinho.

Mugabe-Infelizmente essas são lágrimas que parece que não se enxuga, uma vez mais o governo de Israel ataca barbaramente e a comunidade ocidental dita civilizada apoia, com um ralhete "não batas com tanta força, mas bate!".

Maria-Os barcos agora demoram 15 minutos quando era meia hora ainda dava para descansar.

Diogo-Á força de tanto me dizeres ainda me convenço.

beijos

Fernando Samuel disse...

Um dia de trabalho precedido de um «aquecimento» trabalhoso...


Um beijo.

Sunshine disse...

Um ritual que se cumpre em todas as manhãs, com maior ou menor dificuldade mas enfim "tem que ser".

Bjs Ana

duarte disse...

trabalhos de sexo...fraco?
A minha mãe sempre teve essas correrias(tirando a parte do rímel),e admiro-a tanto por essas e todas as pequenas coisas,de que nunca se esqueçeu...
chapeau mesdammes!
abraço do vale

Ana Camarra disse...

Fernando Samuel-Um grande aquecimento....

Sun- Pois em de ser...

duarte-Ainda bem que tiras o chapeu, ser mulher não é facil, sabias?

Beijos

Zorze disse...

Ana,

Um dia não acordaremos.
Depois teremos saudades de manhãs difíceis de acordar.
Olharemos com outra atenção e constataremos que dentro das rotinas diárias havia sempre qualquer coisa de novo.

Isto dito por pessoas que tiveram esse sentimento.

Beijos,
Zorze

Ana Camarra disse...

Zorze

Isso já não sei, sei que um dia será o ultimo para mim, não acordarei mais, se terei saudades....

beijos