sábado, 27 de dezembro de 2008

Rosa, minha tia Rosa

Impossível falar da família sem falar da Tia Rosa.
A Tia Rosa não era minha tia, mas demorei muitos anos a perceber que ela era prima do meu avô, que a minha Tia Deolinda, irmã do meu avô tinha cometido o desvario de casar com o primo, irmão da Tia Rosa, que passou a ser o meu Tio Miguel, embora fosse primo. Confuso?!
Um bocadinho, por isso para mim ela era irmã do meu Tio, era Tia dos meus primos, era Tia, também nunca se importou, com o tratamento de Tia.
Para além de ser prima do meu avô materno, era prima da minha avó paterna!
A Tia Rosa era magra, falava sempre num tom de voz calmo, tinha o nariz adunco e era seca. Cheia de rituais.
Casada com o Tio Marcos, mais baixo que ela com um ar gingão e fadista que contrastava com aquela austeridade.
Nunca tiveram filhos. O Tio Marcos justificava-se contando que na noite de núpcias foram a Lisboa ver uma revista ao Parque Mayer, no regresso o barco andou toda a noite à deriva, perdido no nevoeiro no Tejo, dizia com uma piscadela de olho: “Arrefeci!”.
Mais tarde descobri que não terem filhos nada tinha a ver com isso mas com umas irrigações feitas com permanganato que ela fazia.
No fundo acho que tais aplicações a tornaram estéril a vários níveis…

Não se bebia o chá nas chávenas onde se bebia o café com leite do pequeno almoço, tudo tinha um local próprio e uma forma de usar, qualquer espontaneidade era refreada pela aquela mulher autoritária, sempre com um tom de voz calmo, mas frio.
Assim escolheu ela o nome dos sobrinhos, impôs padrões de comportamento, proibiu a sobrinha de se aproximar das primas (minha mãe e irmãs), dado que eram raparigas que frequentavam bailes, deslocavam-se sem acompanhamento para o Liceu, frequentavam praias, usavam meias de vidro e mangas de cava. Péssimas influências!
Parecia que se empenhava em ter uma vida monótona, azeda, sem qualquer espécie de prazer que não fosse estragar o prazer dos outros à sua volta.
Em relação a mim abanava a cabeça pelo facto de eu brincar como os rapazes e aos 7 anos não saber bordar perfeitamente a ponto pé de flor, não conseguir estar sentada de forma aceitável para uma menina.
A sua observação era “Esta rapariga nunca irá ter preceitos!
Se ela me visse hoje a bordar ponto cruz, fazer tricot, pintar pratos e caixas, não sei o que pensaria embora de certeza que iria reparar que não obedeço a esquemas previamente definidos.
Nunca era áspera, ralhava e criticava com voz melíflua e como se estivesse a faze-lo com o maior dos carinhos…arrepiante agora que me lembro!

8 comentários:

korrosiva disse...

Deliciosas as histórias da tua família :)

beijinhos

salvoconduto disse...

Raios partam o permanganato, talvez as coisas tivesem sido diferentes para ela...

PDuarte disse...

acho-te tão nostálgica rapariga.
és tão jovem para estas coisas.
mas pronto, tu é que sabes.
mas que escreves bem, lá isso escreves.
um bom ano para ti e para os teus.

Fernando Samuel disse...

Excelentes histórias, estas que nos contas sobre a tua família.


Um beijo.

Zorze disse...

Ana,

Os recalcamentos da vida tornam as pessoas assim.

Beijos,
Zorze

duarte disse...

educação...mais uma vez , os azedumes com o tempo transforman-se em companheiros naturais do nosso comportamento...
a teoria das necessidades de maslow,explicaria melhor a forma de estar de certas pessoas...
mas olha: tu és a pessoa que tentas ser, e consegues sê-la saboreando cada momento teu...
atenta àquilo que te rodeia.
se mudares...só pode ser para melhor.
abraço do vale (sem novoeiro)

mugabe disse...

Ana, que se passa ? ainda não foste lá fazer um comment ???

Ana Camarra disse...

Korrosiva-Tenho uma família enorme, se pensarmos que cada um tem uma história para contar.

Salvoconduto-Talvez, sim, mas pronto o tio marcos era um querido, malandreco, mas um querido.

PDuarte-Acho que estas coisas também são parte de mim, daquilo que sou, sou incapaz de pegar numa agulha sem me lembrar da Tia Rosa!

Fernando Samuel-E existem ainda montes delas por abrir.

Zorze-Pois deve ter tido um recalcamento qualquer, as flores quase que murchavam à sua passagem.

Duarte-Eu sou a pessoa que sou, não sei se mudarei para melhor, espero que sim.

Mugabe-Ò meu lindo a minha vida não é só blogar! Mais para mais, quando estou constipada!

Beijos