E saiu do barco já era noite.

E saiu do barco já era noite.
Já nem se viam as gaivotas.
Entrou no carro gelado, a cabeça ainda ás voltas com as coisas que não tinha conseguido terminar e que amanhã lhe custariam mais, ás voltas com a colega angustiada com o caroço estranho, ás voltas com o colega da frente que via os dias passar até ao fim do contrato que já sabia que não iria ser renovado, ás voltas com as desculpas que tinha de dar ao telefone a mando chefe, mentiras que a fazem corar.
Conduziu até ao portão recolheu os miúdos, quase os últimos, chorosos, cansados a querer contar tudo ao mesmo tempo, tudo.
Sorriu, quase que conseguia fazer que ouvia, que a Madalena fez assim, a professora disse assado, o Rodrigo bateu no Tiago….
Entrou no prédio abriu o correio, retirou um monte de publicidade que lhe promete preços imbatíveis, umas férias de sonho, os dotes de um professor africano e um canalizador, e contas, nenhum postal carinhoso ou uma carta de amizade. Sorriu para si própria, que ideia, quem lhe escreveria?!

Entrou em casa, tirou as botas amarrou o cabelo, colocou a água a correr para os banhos, despendeu meia hora a ouvir a tagarelice infantil, enquanto cortou legumes, preparou bifes, fez salada, mais uma sopa, o arroz (É de cenoura mãe?! ), colocou as crianças no banho com um monte de brinquedos, a boiar entre a espuma, adivinhou que teria de lavar a chão da casa de banho, terminou o jantar, colocou os pratos na mesa, tirou as crianças da banheira, vestiu-lhes o pijama.

Ele chegou (Bife, outra vez?!), beijou as crianças ouviu o telejornal, como as crianças contou-lhe os percalços do dia (O Costa da contabilidade cada vez está mais estúpido caramba!).
Sentaram-se, jantaram, ele foi para a sala com as crianças, entre gritos e risadas, adivinhava-se as almofadas a bater em tudo.
Ela arrumou a cozinha, triturou a sopa, colocou a máquina da louça pronta a lavar, a da roupa também, dobrou peúgas, regou as plantas, limpou o chão da casa de banho, recolheu os golfinhos e tartarugas da banheira, apontou num bloco o que fazia falta (cenouras, papel higiénico, pasta de dentes, cebolas, leite), disse ás crianças que eram horas.

Deitou-os, contou a história, deu-lhes um beijo espantando-se com o tamanho dos seus bebés, separou a roupa para lhes vestir para o dia seguinte, entrou no quarto, vestiu o pijama, o roupão, foi novamente à cozinha, passou a ferro, foi para a sala sentou-se no sofá, viu-o a jogar, qualquer coisa no computador, fez um zapping, sentiu as pálpebras pesarem, ligou as máquinas, disse: Vou deitar-me!

Pensou: Amanhã é uma manhã igual ás outras!

Comentários

salvoconduto disse…
Tenho a certeza de que alguma coisa, amanhã de manhã, à tarde ou à noite, fará a diferença.

Abreijo.
samuel disse…
Em tantas casas, tantas cidades e países. Mudança lenta, lenta...
Zorze disse…
Ana,

Vida de mulher/mãe/esposa trabalhadora não é pêra doce. São as heroínas dos tempos contemporâneos.

Beijos,
Zorze
ferroadas disse…
Amiga

Tenho andado um pouco arredado da blogosfera, passei por cá para te desejar um óptimo ano de 2009, assim como a toda a família.

BJS
Ana Camarra disse…
salvoconduto-Claro que sim!

Zorze-Ai não é não, é uma especie de batalha. Mas uma batalha feita de amor.

Ferroadas-Um bom ano também para ti e para os teus.

Beijos
Anónimo disse…
Aninha,que belo texto!
Fez-me lembrar de imediato um poema de Gedeão, ofereço-te um bocadinho, sei que terás o resto contigo.

"Calçada de Carriche"

Luisa sobe,
Sobe a calçada,
sobe e não pode
que vai cansada
Sobe,Luisa,
Luisa sobe
sobe que sobe,
sobe a calçada.
....................
........................
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.
.....................
.....................
Regressa a casa
é já noite fechada.
Luisa arqueja
pela calçada.
Anda Luisa,
sobe que sobe
sobe a calçada,
...................

Um abracinho!
Vou hoje para a beira mar com o meu namorado.
Votos de divertida passagem de ano, para ti e para os teus e que 2009 nos traga novo governo.

Bom 2009 para todos os que passam aqui na roda da Ana

Lagartinha de Alhos Vedros
duarte disse…
mais uma vez,lembro-me das mulheres anónimas com quem me cruzo...exibindo beleza,escondendo cansaço...
amanhã acredito que o dia será diferente.
abraço ana
Diogo disse…
Cara Ana,

Há uns posts atrás afirmei que por vezes tinha inveja dos leopardos, das zebras e dos gnus. Sofrem todos mais riscos mas têm uma vida infinitamente mais calma. Fará sentido esta roda-viva? Este corrupio sem tempo para nada?
Ana Camarra disse…
Lagartinha-Conheço esse conheço, namora muito.


Duarte-Felizmente são diferentes todos os dias, e há gaivotas e rio...

Fernando Samuel-Pois é! :)

Diogo-Tens uma certa razão, nas depois não blogavamos, não fazias windsurf, etc....

Beijos
Dulcineia disse…
Um bonito blog. Uma mulher com energia.
Deixa-os crescer Ana.Aproveita bem, apesar das correrias.O tempo corre veloz.Saem do ninho e depois, depois, sentimos um vazio. E lembramos. E nos interrogamos como é que tivemos tanta energia.
Um abraço e um beijo com votos de boas festas, para ti e yodos os teus!