Mais uma história simples




Tive uma Tia-avó aparentemente convencional.
Aparentemente muito convencional, aliás.
Era Professora Primária, o que há cerca de setenta anos atrás seria “uma posição”.
Não fosse ela assumir frontalmente que não era católica pelo que leccionou sempre em Colégios privados, sendo-lhe vedado o Ensino Oficial e a consequente reforma.
Tinha uma educação esmerada, era culta, opiniosa.
Portanto as aparências iludem!
Era extremamente desorganizada em tudo o resto, os papéis, as roupas, os objectos misturavam-se numa cacofonia impar.
Era inconveniente, muito mesmo.
Vestia sempre roupas completamente desajustadas, fosse à época, fosse ao seu corpo miudinho, fosse mesmo à ocasião.
Lembro-me de uma gabardina à espiã vários números acima do seu tamanho, que lhe davam um ar de criança mascarada, lembro-me de uma camisola de malha poveira, em vermelhos e azuis berrantes no funeral da irmã…
Dava objectos de família a estranhos, a amigos, quando não os deitava no lixo, a nós dava-nos baralhos de cartas, elásticos e ganchos para o cabelo, quando o cabelo era curto e pacotes de Bolachas Maria.
Mas também me lembro de passar semanas em casa dela onde a minha companhia era aproveitada para contar histórias de família e outras cumplicidades que criámos.
Onde aproveitava para colocar em ordem a sua desorganização, apesar de ser uma adolescente, tal como a minha mãe o tinha feito décadas antes.
Teve uma vida romântica atribulada, filha mais nova de uma família rígida e convencional, iniciou a sua vida amorosa com um homem mais velho e casado, foi um escândalo, falamos dos anos 50.
Terminado o romance veio a casar-se aos quarenta e picos com um homem duas décadas mais novo.
Outro escândalo!
Parte da família demorou tempo a digerir.
Depois chegada à casa dos setenta, pediu o divórcio, assim sem mais nem menos.
Outro escândalo.
Parte dos sobrinhos tornaram a não aceitar, o marido não aceitou.
O Marido levou meses a telefonar a todos os sobrinhos, a visita-la todas as semanas e a pedir-lhe para reconsiderar.
A única explicação oferecida pela minha tia era de que, não achava lógico um homem de cinquenta e poucos anos ter de arcar com uma velha de setenta, e mais baixinho lá ia dizendo que queria viver o resto da vida à vontade dele sem dar explicações a ninguém.
Não durou muito essa liberdade.
Acabou por adoecer e morrer rapidamente, rodeada de carinhos dos sobrinhos e da devoção do ex. marido, que chorou baba e ranho no funeral, mostrando fotos do início de casados a todos, justificando que era de facto apaixonado por ela.
Cerca de quinze anos passados pela sua morte, mantém-se celibatário, exige que o tratemos por tio e fala com saudade dela.
Minha rica tia!

Comentários

salvoconduto disse…
Pelo que contas, teve uma vida cheia para a época. É bom viver com alguma excentricidade. Parece que não tinha amarras.

Abreijo.
CRN disse…
Ana,
Um tio Homem e uma tia Mulher, é uma Mulher de sorte.

A revolução é hoje!
Maldonado disse…
Pelos teus posts, dá para ver que provens duma família recheada de histórias invulgares... :D
Ana Camarra disse…
Salvoconduto – Quem olhasse para ela pensava exactamente o contrário, tinha um ar frágil de certo modo austero, excentricidade essa parte saltava à vista. Pequenos pormenores só fui apreendendo à medida que crescia.

CRN-A minha tia de certa forma era uma revolucionária.

Maldonado-Para mim estas histórias eram vulgares, só crescidota comecei a perceber que de facto tenho uma família impar, pessoas arrojadas, grandes amores, pessoas combativas, uma mistura brutal de boémios, pessoas formais, pessoas muito instruídas, uma grande salganhada genética!
Gosto de transmitir todas estas facetas aos meus filhos, acho que é a melhor herança que temos.
E espero sempre estar ao nivél …


Beijos
Anónimo disse…
Aninhas

Só uma mistura assim de personalidades fortes e gente diferente poderia resultar num ser humano único como tu és.
Fico feliz por ter o previlégio de ser teu amigo, de conhecer uma parte substancial da tua familia que assumo por vezes como minha.
Gostei de me ver referenciado nuns textos para trás!
Semprefoste uma miuda diferente, mas ainda fiquei surpreendido com esta tua veia literária, que não suspeitava, quantos tesouros guardas mais?

RF
Conde disse…
Gostava de ter tido uma tia assim.
Zorze disse…
Que grande história, Ana!
Pode-se dizer que teve uma vida cheia.

Às vezes faz bem evocar familiares que já partiram para outra jornada.

Beijos,
Zorze
Ana Camarra disse…
RF-Não guardo nada, sou uma pessoa muito transparente, como sabes.

Conde-Não te a posso emprestar!

Zorze-Acho que as boas memórias são sempre para perservar.

beijos
samuel disse…
Adoro estas tias e familiares vários, que só com as suas histórias, enriquecem as nossas vidas.

Abreijos
Anónimo disse…
Ana dizes que naquele tempo, ser professora primária era uma posição, agora é oposição, não é?
Lá estarei na manifestação dos professores.
Ai a tua tia, bom essa estirpe feminina é mesmo de família, não é?
As minhas tias, tal como a minha mãe, foram ceifeiras, mondadeiras, apanharam azeitona e fizeram de tudo o que era preciso, para ganharem a miséria que não dava para viver.
Em ranchos de raparigas saíam de madrugada para os campos dos agrários lá no alentejo, cantavam lindas "modinhas" e esperavam melhor futuro.

A minha família, Ana, só podia ser comunista, e eu só podia ser comunista!

Obrigada por mais uma história linda e pela Né Ladeira

Abraços Lagartinha de Alhos Vedros
Anónimo disse…
também quero uma dia destas!

beijo
do lagartão da verderena
Ana Camarra disse…
Samuel - Pois eu também e a minha familia é quase uma fonte inesgotavél....
Algumas acho mesmo que não posso contar.


Lagartinha_ Infelizmente existe muita gente com o teu passado familiar que se empenha acima de tudo a renegar as origens. È claro que não é o teu caso.
Os professores eram de facto uma classe profissional muito respeitada, hoje infelizmente é o oposto.
A minha familia é uma miscelânea onde há de tudo, mas maioritariamente burgueses, o que não impede que muitos de nós sejemos comunistas, convictos e activos.
Não tens nada que agradecer, eu é que agradeço o teu carinho.

Lagartão da Verderena-Mas de onde me apareces lagartão, suponho que querias dizer tia?

beijos
...tão simples.. mas tão rica.
Fico embevecida quando ouço, ou leio relatos (reais) de familias, histórias de vida, bonitas, tristes, seja o que for, acho que é um "previlégio" tê-las.

Beijos
ausenda
Diogo disse…
A fuga ao socialmente correcto é uma forma de talento. A tua tia não estava acorrentada aos parâmetros que (provavelmente) lhe tentaram impor na juventude. Livre nos actos, livre nas ideias. Se mais houvera como ela não teríamos estas imensas manadas e eleger larápios ano após ano, incapazes de pensar por si.

Um beijo.
Ana Camarra disse…
Ausenda-Tenho tantas! Tenho uma familia enorme cheia de histórias, algumas menos felizes e algumas que não posso de todo contar!

Diogo-A minha tia tinha uma rica cabecinha, tinha sim senhor, analizava tudo com uma curiosidade ciêntifica e chegava a conclusões surprendentes.


beijos
IDEAL COMUNISTA disse…
Há tias (e tios) que têm a ternura de uma mãe, estão ao lado como uma amiga, ajudam na esperança e as ouvimos na sabedoria.
Ludo Rex disse…
Mais um bonito testemunho de vida.
Kiss
SENSEI disse…
Haverá nomes tão portugueses, como o de Maria e o de Ana?
Assim Mariana, indica a aglutinação de Maria e Ana, pois este era o nome dessa tua tia. Indica inteireza de ânimo e espírito aberto.
É próprio de pessoas que amam a sua profissão e os seus afazeres. Preocupam-se como os demais na medida em que deles necessitam e, em geral, são pessoas receptivas.
Mas generalizar, por vezes é injusto. Ela era acima de tudo, uma mulher que adorava a sua independência, mas a idade traiu-a.
Viveu em pleno, isso sim!... Só isso importa, ainda que vivas um só dia, vive-o todo!

Ouss
Ana Camarra disse…
Ideal Comunista - A minha tia nunca foi mãe. Era sabedora, mas tenho a sensação que eramos nós que a ajudavamos...

Ludo Rex- É um testemunho.

Sensei-Tento faze-lo

beijos
Fernando Samuel disse…
A tua família é uma galeria de personagens fantásticos - que têm a sorte de te ter para o contares...

um beijo amigo.
Ana Camarra disse…
Fernando Samuel

Não sei se eles tem sorte de eu contar ou eu tenho sorte de ter tido e ter uma familia assim, enorme, diversificada e invulgar, sem duvida.

beijos