Dª Teresa, uma torta de chocolate, se faz favor!






Porque tenho dias assim, mais nostálgicos, volto a lembrar-me de umas coisas de infância.
Já falei das afamadas Bolas de manteiga, iguaria local, mas há outras.
A Lagartinha de Alhos Vedros já me desafiou para um bolo do Tico Tico, o meu vizinho de cima, no alto da sua Torre de Marfim, “picou-me” para falar das tortas de chocolate do Tico Tico.
O Tico Tico é uma instituição!
Existem ou existiam outras, o Manuel da Galega, a Drogaria Gaspar, o Arco Íris, as papelarias da Dª Laurinda ou Universal, a Taberna do Papagaio, as múltiplas carvoarias já desaparecidas, etc. Mas hoje falo do Tico Tico.
Em plena Avenida Alfredo da Silva, propriedade durante décadas da família Abreu, que geria a pastelaria e uma drogaria/perfumaria, umas portas mais abaixo, sempre foi um local de referência.
Existiam especialidades particularmente saborosas, aquelas argolas de massa folhada cobertas de doce de ovos, vulgarmente chamadas de Príncipes, os gelados Luna Mix, que acho que tinham a patente, que nunca vi á venda noutras localidades, os de chocolate eram óptimos os de banana horríveis e as tortas de chocolate.

Nenhum Barreirense consumia tortas de chocolate noutro sítio, faziam centenas por dia, uma massa leve, um creme pouco enjoativo surpreendentemente fresco, uma cobertura rija de chocolate a sério, sem sabor a baunilha ou outras coisas que não fosse o chocolate.
O Tico Tico tinha uma decoração sui generis, cristalizada desde os anos 60, mesas e cadeiras de formica em tons pastel, a frente envidraçada para a Avenida, a banca dos jornais á porta, os mesmos empregado durante décadas, alguns até antipáticos, a sala para festas de aniversário na cave, e o primeiro andar…
O primeiro andar era o sitio do pessoal mais jovens, subíamos, escolhíamos uma mesa virada para a frente da Avenida por onde podíamos seguir a azafama normal da cidade, pedíamos o que queríamos (tortas de chocolate, essencialmente), as coisas subiam e desciam por um elevador na parede (ainda é assim), o empregado do primeiro andar que não recordo o nome era conivente com a malta, dava lume, até cigarros, avisava quando existia o risco de uma avó, mãe ou pretendente indesejável estava no rés do chão, quantas vezes fiz a retirada estratégica para a casa de banho “Menina, está a entrar aquele jovem muito chato!”
A drogaria e perfumaria já não existe, foi vendida ou trespassada, hoje no lugar da drogaria está uma agencia de viagens, no lugar da perfumaria uma loja de telemóveis, a pastelaria também foi vendida, quem a comprou renovou mesas e cadeiras, os empregados são outros, o fabrico é bom, existem múltiplos Tico Ticos, na zona, o primeiro andar lá está, as senhoras que bebem o chá no rés do chão são as mesmas de há 20 anos, mais trôpegas, mais velhotas, os jovens do primeiro andar agora são filhos dos jovens da minha juventude.
Á porta juntam-se os mesmos grupos de homens que controlam quem sobe e desce a Avenida, é fácil a um sábado normal, saber onde anda a minha mãe e a minha tia, passo, tratam-me com o mesmo carinho de quando era miúda e dizem “As tuas mães já passaram!”
Ainda vendem tortas de chocolate, mas não são iguais!

Comentários

Anónimo disse…
Ana, eu ainda hoje subo para o 1 andar, depois vou buscar os bolinhs ao elevador e depois fico a ver, bom agora fico a ver as obras.
Sabes que agora o andar de cima é dos cabeções?!!! pois senhoras com o cabelo muito armado.
Esqueceste a Boleira do Parque?
Esqueceste o Sr. Acácio, que sevia todos ao mesmo tempo sempre em grande velocidade?

Iremos ao Tico Tico, sim em breve
Abraços da Lagartinha de Alhos Vedros
Ana Camarra disse…
Lagartinha

Não me esqueci nada da Boleira, não podia!
Vai ver o post de Março de 2008, sobre as bolas de manteiga...
O Sr. Acácio não consigo identificar, lembro-me muito do Alexandre da Boleira que encontyr de vez em quando.

um beijo
Anónimo disse…
Claro que não é Acácio, enganei-me era Alexandre!!!
Era na Boleira que se faziam bolos lindos e bons no aniversário do Partido, ainda és desse tempo?
Lagartinha de Alhos Vedros
Ana Camarra disse…
Ó lagartinha

Manda email ou o que quiseres que eu não publico e falamos...

beijos
salvoconduto disse…
A Elis ainda torna a torta de chocolate mais "doce".

Abreijo.
Ana Camarra disse…
Salvoconduto

A Elis torna tudo mais doce até estes dias pequeninos de Outono cheios de tropeções e coisas deslavadas, tristes, sombrias, frias.
Já não tortas "daquelas" senão hoije comia uma...

beijos
Anónimo disse…
Anita

Ai as tortas de chocolate do Tico Tico, falava tanto delas as miudas gostam, mas já não são iguais,mas são uma memória doce, dulcissima.
Obrigado Aninhas.

Um beijo

Zé Manuel
Anónimo disse…
ola

deixo esta mensagem para lhe dizer que gostei muito de tudo o que vi. Felicidades


carla

http://www.arte-e-ponto.blogspot.com
Isto tem dias, mas hoje, como sempre,foi um dia bom para vir aqui
Diogo disse…
E a vida passa rápida como uma pirueta fugaz. De vez em quando penso em A, B ou C que já não vejo há 10, 20, 30 anos. Que será feito deles/delas? Fará sentido uma existência tão curta? Um momento agridoce precedido do nada e sucedido do nada? Ás vezes preferia que houvesse um Deus. Vejo-me a tocar harpa, a namoriscar, a nadar e a petiscar choco frito até ao infinito dos tempos (bom, talvez acabasse por me fartar da harpa).

Beijo
Ana Camarra disse…
Zé Manuel - Pois são.

Carla-Obrigado, felicidades para si também.

Carlos- Ainda bem que sim!

Diogo-Não sei porquê também acho que a harpa também me enjoava um pouco...

beijos
Ludo Rex disse…
Belo texto, que a memória perdure... Sempre. E os teus escritos dão o seu contributo. Kisses
Fernando Samuel disse…
A última frase é um espanto!

Um beijo amigo.
Ana Camarra disse…
Ludo - A memória é coisa que não me falta, até ver...

Fernando Samuel-Mas é verdade, já não são as mesmas.

Beijos
Passei por aqui por acaso. Mas depois não consegui sair...adorei a selecção da música e acabei por ouvir as músicas todas :)
Desculpa, sei que não têm nada a ver com o tema do post, mas apeteceu-me partilhar.
Ana Camarra disse…
as coisas que oiço

Geralmente as músicas que coloco tem tudo a ver com o meu estado de espirito!
Estou sempre a mudar a playlist.
Volta sempre!
Obrigada. :)
Agora que li o post fiquei com fome. Como não tenho as famosas tortas acho que vou ter que me ter que contentar com um twix. Pode não ser tão bom mas satisfaz duas vezes (e é única coisa doce que tenho em casa)! :)
Ana Camarra disse…
Também não é mau, á falta de melhor!
Anónimo disse…
vizinha,

o nosso Barreiro é mesmo isto :)

e em dia de abertura de projectos modernos é bom escreveres sobre as nossas memórias colectivas - as tortas de chocolate.

está tudo dito no teu texto, incluido a fraca qualidade da cobertura de chocolate dos dias de hoje! um abaixo-assinado deviamos fazer a exigir uma intervenção da ASAE na torta de chocolate do Tico-Tico e já agora nas peruas atómicas do 1º andar ;)

são estas coisas que me lembro, quando orgulhosamente digo que sou do Barreiro. são estas coisas e as pessoas que fazem do Barreiro uma cidade com identidade própria (a única da margem sul).

por hoje e pelos dias vindouros aceita um beijo do teu,
vizinho de cima

agora que já és amiguinha da lagartinha mete lá uma cunha para eu também ir à bela da torta!!! :)
Ana Camarra disse…
Vizinho de Cima

Pois a nossa panca é por muito que nos afastemos desta terra está sempre a chamar-nos, com o velhos á porta do Tico Tico e da Tia Maria, com a familiaridade de termos de parar em cada dois passos para cumprimentar alguem, por olharmos um para outro e termos a noção que as gerações anteriores da nossa familia já se conheciam, relacionavam e partilhavam ideiais.
Que para alem de te chamar meu menino, chamo-te camarada e me sustituis numa tarefa de Festa do Avante quando estou cansada, e passas pela janela só para ver se já estou de melhor humor e chamo-te da rua em dia de fanfarra para vires cá abaixo e bebermos um café.
È por estas coisas que estamos assim, apesar de tudo, bem na nossa terra, com a consciência do passado, mais e menos recente, os caminhos de futuro, e a doçura das memórias colectivas, sempre cumplices.

Beijinhos meu menino

Vamos comer a torta ou outra coisa qualquer
sagher disse…
no barreiro a instituição é o barreiro e o que ele representa, pelo menos para mim.
Ana Camarra disse…
sagher

Sem dúvida.
Mas são pequenas caracteristicas, coisas, pessoas e até estabelecimentos que fazem a sua individualidade.
As bolas de manteiga são do Barreiro, cresceram até um pouco á volta mas são daqui, como outras coisas próprias.
Como não consigo falar de todas em simultâneo vou falando assim por capitulos, assi de cabeça, já falei das Mercearias, das Tabernas, das Bolas de Manteiga, de Brincar na Rua...
Tu falas nos Perspectiva, outra instituição....
Zorze disse…
Ana,

Também tive uma altura que frequentava muito o Tico-Tico.
Também faz parte da minha mesologia.
Não tanto os bolos, mas mais, as pessoas.
A vida é mesmo isto. Tem dias e épocas.

Beijos,
Zorze
Ana Camarra disse…
Zorze

Tu andas á procura de palavras de sete e quinhentos?
Mesologia!

Livra-te.
As épocas são todas nossas enquanto estamos vivos!

beijos
Anónimo disse…
Ana,já tentei encontrar o dia de março, mas o comput, diz que não existe post.
Não tem importância!!!
Bom já estou a ouvir os Clãs e o sopro no coração,lindo!!!!!!!!!!!!
E na América?
Um Negro na Casa Branca será por si só um contraste que possa melhorar a política daquele País?
Pode ser que melhore, o que não é difícil e também não custa ter esperança!

Xau Aninhas!
Bom dia
Abraços da Lagartinha de Alhos Vedros
Ana Camarra disse…
Lagartinha

Vais aqui á barra do lado, aobarquivo do blogue, tem os nomes dos ultimos textos e tem os meses com o número de textos carregas em Março, e está lá um texto sobre as Bolas de Manteiga.

Quanto ao Obama, não sei se o contraste por si chega, mas é menos mau de carteza, vamos a ver!

Não sei se viste o convite do Pedrocas, lá em cima?!

Beijos Lagartinha