quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Olha, o Fado!


Tenho uma relação estranha com a canção nacional.
Se por um lado aquela coisa do fatalismo, do destino marcado na palma da mão, me afasta, até o facto de fado ter sido “apadrinhado” de forma exaustiva pelo Regime Fascista.
Por outro lado reconheço a originalidade do Fado, com aquele respirar da guitarra portuguesa, a versatilidade do Fado, que serve para cantar a letra mais machista, passando pelo mais belo poema de amor e até ser reivindicativo.
Hoje o Fado é respeitado como género musical, muitos fados são ou foram escritos por grandes poetas, há Fados de “fusão”.


Já aqui escrevi que a minha avó cantava muito, claro que também cantava fados.
Aprendi vários fados, com letras de Frutuoso França, conhecidos pelos fados desgraçadinha, eram sempre letras com desgraças, amores perdidos e misérias empoladas.
Mas o meu conhecimento generalizado do fado veio pela mão do meu tio-avô, Mário de nome próprio, bom vivant, dado a patuscadas, casinos e cabarets.
Homem fascinante marcou-me a infância e a adolescência com um rasto luminoso, mais tarde percebi outras facetas menos agradáveis, mas não interessa, já morreu e prefiro guardar a imagem do Tio que tudo permitia, que nos levava aos sítios mais improváveis e era perito em fazer-nos todas, mesmo todas as vontades.


Quando eu tinha cerca de 6 anos, vivia com a minha avó, o meu tio com frequência procurava a irmã, para a levar a passear e levava-me a mim por arrasto.
Assim conheci locais improváveis com a minha idade, desde de um amigo que tinha um carrossel e que o ligava só para mim para as voltas que eu quisesse, a marisqueiras, Restaurantes de luxo e casas de fado.
Nas casas de fado tem de se distinguir que o meu tio, tanto frequentava o Bairro Alto, as casas clássicas, com profissionais, onde era tratado pelo nome próprio e tinha a melhor mesa, como as tascas onde era Rei o chamado Fado Vadio.
Foi assim que comecei a vender o meu trabalho, sendo que neste caso o meu trabalho era cantar o fado, vinte escudos cada um, aliás a proposta do meu tio era clara – Aninhas, o tio dá-te uma nota de Santo António por cada fado.


Era colocada em cima da mesa ou de uma cadeira, geralmente com os músicos presentes a acompanhar á guitarra e á viola, do alto dos meus seis anos desafiava a história da Severa, a Casa da Mariquinhas, cantava odes á Rua do Capelão e ás gaivotas e Canoas no Tejo.
Cheguei a ganhar duzentos escudos por noite.
Tinha um reportório vasto, ainda hoje sei as letras de muitos fados, não consigo ouvir alguns sem me lembrar do meu tio Mário, do seu sorriso bonacheirão e do seu cheiro a Brut e cigarrilhas….

21 comentários:

salvoconduto disse...

Do fado retenho um dia dos meus anos, que os amigos organizaram numa casa de fados na Mouraria e as inúmeras sessões de fado vadio no Bairro Alto, onde morei. Bons tempos...

Abreijo

Ana Camarra disse...

salvoconduto

Pois o Fado presta-se a estas boas recordações.

abreijo

Conde disse...

À granda fadista,continuas a cantar?.Há umas coisitas que eu gosto de ouvir,mas só cantado por vozes femininas.Um dia gostava de ter uma guitarra de fado,mas aquela mão direita!!.Gostei de ler esta historia.

Ana Camarra disse...

Conde

Numa farra com amigos ainda sai, também depende do ambiente, um bocadinho da disposição e já agora da carga etilica....
Até tenho um verdadeiro xaile de fadista, preto como convem, com franjas e tal, mas depende assima de tudo do ambiente e de ele ser reservado, em miuda não tinha vergonha, agora tenho.

Beijos

F Nando disse...

Shiiuuu...
Silêncio que se vai cantar o fado!

Beijos

Ana Camarra disse...

f nando

De vez em quando.....

Beijos

Anónimo disse...

Miuda

Bendito tio Mário que te ensinou isso.
Por acaso aos anos que não te ouço a cantar o fado, também cantavas uns sambas, umas do Leornard Cohen e tal, fogueiras na praia Grande de Porto Covo, acampamentos na Arrábida e Troia, e que saudades!

Levo-te ao Bairro Alto mas tens de cantar!

Beijaças

Paulo (el niño)

Anónimo disse...

Ana

Lembo-me bem do seu tio Mário, figura carismática!
Estive fora mas já me deliciei a ler os seus textos.
Não me passava pela cabeça que também tinha dotes de fadista!
A Ana é uma caixinha de (boas) surpresas.

Um abraço

Anónimo Barreirense

Utopia das Palavras disse...

Ora nem a propósito, andava com esta "coisa" para postar, mas não lhe achava muito jeito. Mas já que falaste em fado e num belo texto, que gostei imenso, posto aqui em jeito de comentário.

Fado, canto
Solidão
Mar da descoberta
Paixão
Terra longínqua
Condenação
Coragem de navegantes
Coração, raça
Fado, saudade
Pranto
Ciúme dos amantes
Enfado
Liga de faca rasgada
Malfadado e bebido
Guitarra gemida
Magoada
Guitarra trinada
Encanto
Fado triste
Apaixonado
Latinidade, altivez
Imensidão de mar
Lezíria
Jeito de ser Português!

Beijos
Ausenda

António Chaves Ferrão disse...

Quem canta seus males espanta. Quando prestamos atenção ao que se vai passando, a vontade de cantar só cresce. É verdade, também há fados belíssimos (segundo o meu gosto particular). Se foi o fado usado como forma de desviar a atenção dos problemas políticos por Salazar? Claro, Mas até a língua portuguesa, que enforma o pensamento, também foi. Não será por isso que deixaremos de falar, escrever e...cantar.
E de escrever versos em prosa se para tanto chegar a nossa habilidade, como faz a Ana.

Cidadão do Mundo disse...

AHHH FADISTA...!!!!

Belas recordações Ana !! Abraço!

poesianopopular disse...

Ana
Tambem me recordo perfeitamente do Frutuoso França, cantava aqueles fados do tipo "andava a esgraçadinha no gamanso" e a "mãesinha porque choras" e a "laranja", pelo que vêjo a nossa formação é de base, não é por acaso que lutamos pelo mesmo.
Bjos amiga

Zorze disse...

Ana,

Eu cada vez mais gosto de Fado e aprendo a gostar cada vez mais.

"Tio-avô, Mário de nome próprio, bom vivant, dado a patuscadas, casinos e cabarets.", é dos meus! Agora sou muito certinho, já não sou o galifão que fui. Mas está no ADN do VERDADEIRO Português que os tem bem pretos. De vez em quando ainda à um descalabro.

O quadro de José Malhoa, é melhor não dissertar (a esta hora) muito acerca do quadro. Para não assustar mentes mais sensíveis.

Amanhã? Cafecito, talvez...

Beijos,
Zorze

Ludo Rex disse...

Temos fadista... Belo testemunho.
Kiss

Diogo disse...

Portanto, para além de escriba de génio, a minha amiga também sabe cantar. Bravo!

Beijo

Fernando Samuel disse...

Feliz sobrinha que tal tio Mário teve.

Um beijo amigo.

AP disse...

Grande ícone da cultura lusitana, estilo musical próprio e que nos distingue, inimitável como só nós sabemos cantar.

Mas confesso que não gosto de Fado. Respeito quem gosta, mas não consigo gostar. A tristeza e melancolia associadas ao Fado funcionam como repelente para mim. Sei que é uma heresia dizer isto, mas são gostos.

Bjs

DML disse...

Boa historia... No Porto nao temos tanto essa tradicao de casa de fados...

Ja agora todos os que leram este post vao ao YouTube ouvir Anaifa, isto para quem nao conhece, e' muito bom, eu gosto muito!

Beijinhos e Abracos!

Ana Camarra disse...

Paulinho, meu menino – Ainda sai uns sambas, umas coisas, uns fadunchos, depende. Também tenho saudades das fogueiras, mas acho que já não se pode fazer. Quanto ao Bairro Alto sei o caminho sozinha, chantagens não, meu menino.

Anónimo Barreirense – O meu Tio Mário era um mundo.

Ausenda – Belas palavras, o fado é isso tudo.

José-Os fados do Frutuoso França tem letras tão ridículas que se tornaram um ícone.

Zorze-eu não os tenho negros, o Tio Mário acho que sim, tinha.

Ludo Rex – Fadista é exagero.

Diogo - Exagero, génio! E sei as letras todas, cantar depende da carga etílica dos ouvintes e da boa vontade também.

Fernando Samuel – O meu tio conseguia fazer as pessoas á sua volta profundamente infelizes e felizes, tive a sorte de só conhecer a ultima faceta.

AP-è isso mesmo, gostos são gostos. Qual Heresia.

Dml – Mas está na playlist o Fado do Ladrão Enamorado do Rui Veloso e Carlos Tê.

Beijos

Ana Camarra disse...

Cidadão

São boas recordações, mesmo.

beijocas

SENSEI disse...

Fado!... A triste sina de uma história de alguém, retratada em muitos.
Hino de um regime que se sustentou em parte, nos 3 F's - Futebol, Fado e Fátima.
Hoje seriam 2 F's, 1 T e imensos CC, sendo:
- Futebol (canalização da revolta social em nada)
- Fátima (o futuro feliz, que só no céu se alcançará, mas alegrai-vos!... O comunismo caiu e, foi Nossa Senhora que em Portugal o disse a 3 putos pobres, que como tantos milhares deles, eram assim vistos pelo regime como excelentes trabalhadores, quando não e, por serem bonitas as catraias, eram tal como hoje, levadas para casas de gente “IN” e, aí iniciavam uma vida de luxo a troco das suas virgindades, chamava-se então o “Ballet Rose”, uma antevisão da Casa Pia dos nossos dias, com o patrocínio do PS e, conivência dos média).
- Telenovelas (indução da indolência e preguiça mental)
- Centros Comerciais (púlpito do consumismo desenfreado, numa total prostituição da banca via a banda magnética com o nome de VISA, os clientes são mais que muitos e, a "puta" a engordar, garantindo a sua eternidade pelas próximas gerações de herdeiros da desgraça).
Apenas o Fado se retirou, contudo permanece "IN", em retiros de 50€ por cabeça, no Bairro Alto, Alfama, Madragoa, Coimbra, etc..
Bons tempos os que gozaste, nessa inocência de miúda irreverente.

Xôxos

Ouss