Uma estrela cadente!



Já falei aqui de muitos aspectos da minha vida.
De pessoas que me marcaram, faltam muitos, mas falta uma estrutural, a minha avó materna.
A minha avó materna não estava presente no meu nascimento, penso que dos seis netos que teve fui a excepção, a primeira rapariga e ela não estava cá, estava em Angra do Heroísmo, recuperando a vontade de viver após a viuvez.
No entanto de todos os netos, foi a que mais conviveu com ela numa relação, assima de tudo de cumplicidades.
Não conheci outra avó, a outra a que teria direito, com quem me acham parecida, morreu exausta com 26 anos depois de cinco partos em seis anos de casamento…
O meu avô, quando me mostrava as fotos que guardava consigo para provar que aquele tinha sido o seu grande amor e me mostrava aos amigos dizendo “Digam lá se não é tal e qual?”, justificava aquela morte prematura e aquela frequência de partos, que deixou o meu pai órfão com dois anos, com o amor louco que lhe dedicava….Hoje ocorrem-me outras coisas, mas não interessa.
A única avó que conheci começou a trabalhar cedo, não pode ir à escola, as necessidades assim o ditaram.

O pai, um pouco boémio, musico nas horas vagas (tinha uma orquestra de cordas que fazia serenatas), morreu muito jovem, desempregado, devido ás suas ideias anarco sindicalistas.
A minha avó foi trabalhar para uma casa de gente ilustre, em troca de comer e de roupa usada. Lá fazia de tudo, desde esfregar soalhos, a carregar litros de água em baldes, ficou cega de uma vista com a pancada da bomba de puxar água.
Em casa tinha a sua enorme cota de tarefas, quase as mesmas que tinha no seu trabalho.
Poderá rotular-se de uma vida triste?!
Nem por sombras, a minha avó cantava todo o dia, assobiava maravilhosamente, e era um foco de alegria.
Curiosa e inteligente acabou por aprender a ler quase sozinha.
Casou com um homem grave e sério, quase triste, que ficou fascinado com aquela alegria.
Há uma foto linda, os dois num piquenique em Sintra, ela tem uma boina, penteado à garçonne um vestido à época, e um sorriso travesso, ele tem um olhar embevecido.
Guardo as cartas de namoro dos dois, com um formalismo quase hilariante visto agora, mas recheadas de erros da minha avó e palavras ocultas de ternura do meu avô.
Casaram contra a vontade da família dele, passaram a residir na casa da matriarca, pessoa seca, cheia de formalismos, que os proibiu de se beijarem à frente das outras pessoas e avisou que assim que estivesse iminente a vinda de uma criança não os queria lá em casa.
A minha avó passou a noite de núpcias paredes-meias com tal sogra, não podendo dar um suspiro mais profundo…
A vida continuou, uma vida de trabalho e privações, onde tiveram como farol a educação das três filhas, que para a época e estrato social, tiveram uma educação muito elevada.
Adoravam Ópera, a minha avó continuou a sua vida a cantar, a ajudar as vizinhas a parir, a fabricar comeres divinais com as suas mãos, a tratar de um marido precocemente envelhecido que morreu muito cedo.

Diferente do habitual, recebia em casa todos os colegas de Liceu das filhas, fazendo cafeteiras de café e fornadas de biscoitos para as suas tertúlias. Ouvia de falar de Satre e James Dean e assim ia alargando os horizontes pelos quais era sôfrega.
Diferente de todas avós acampou na Árrabida sozinha com os seis netos numas férias mágicas onde era proibido proibir, liberdade total e à noite parecia uma lata de sardinhas, os seis, desde o adolescente de 16 anos à mais nova com 7, todos em fila encostados e a avó na ponta.
Circunstâncias diversas colocaram-me a viver só com ela numa tenra infância, guardo os fados que cantava ou a Madame Buterfly assobiada, os biscoito, os manjares, o facto de eu pequenina lhe fazer a ela ditados e corrigi-los depois porque a minha avó queria aprender, sempre.
Acho que foi a maior dadiva que me deu.
Falava abertamente de tudo, até de sexualidade, ouvia os meus discos, garantia as minhas saídas nocturnas na adolescência.
Estava bem em todas as situações, tinha amigos de todas as idades, conseguia criar um rasto de amizades, consideração e respeito por onde passava.
O seu funeral foi sem duvida o retrato disso, centenas de pessoas choravam-na, pessoas de todas as cores, de todas as idades, de todos os extractos sociais, até de diferentes nacionalidades.
Ensinou-me a viver o Natal com alegria, mesmo que a nossa oferenda aos outros fosse só e apenas meia dúzia de filhoses feitas com muito carinho.

A minha avó morreu guardando sempre dentro dela aquela menina alegre.
A minha avó que me ensinou a procurar sempre a face positiva das coisas, que também acreditava que o mundo pudesse ser melhor para toda a gente.
É assim que a guardo também!


(nota todas as músicas desta playlist podiam ter sido escolhidas por ela, incluindo Queen)

Comentários

CRN disse…
Uma mulher plural em tempos de pensamento único, uma familia muito rica.
Conde disse…
Foi mesmo uma inspiração profunda.Este texto fez-me pensar!
poesianopopular disse…
Ana se soubesses a inveja que me causaram as tas palavras!
É que nunca tive o carinho dos meus avós, no meu tempo de menino, lá na aldeia os avós dos outros eram tambem os meus.
A infância deixa-nos muitas marcas, sobetudo na parte solidária!
Bjos camarada.
Opinador disse…
Porra, que isto foi mesmo profundo!
Abençoadas avós e abençoados netos que as tiveram por perto.
Eu nunca passei mais do que meia dúzia de dias com as minhas avós e os avós nem os conheci.
É o que dá ser o "descuido" da ninhada... aquele que já ninguém esperava. Nem os avós tiveram tempo de esperar por mim...
Ana Camarra disse…
CNR – A minha avó ainda era muito mais que isso, foi um óptima influência.

Conde – Ainda bem que te fez pensar.

José – Também avó mesmo, só tive esta mas valeu por várias.

Opinador-Porra, faz assim, prepara-te para seres uma estrela cadente para os teus netos.

Beijos
Ludo Rex disse…
Belo testemunho de vida. Este teu artigo fez-me lacrimejar os olhos. Bonita Homenagem que aqui prestas a essa mulher de luta, a tua avó.
Beijos e Bom domingo
Mac Adame disse…
A descrição que fazes é suficiente para se gostar dela. E dava um livro. Beijinhos.
ferroadas disse…
Olá amiga

Rica história de vida.

As lágrimas vieram-me aos olhos.

Parabéns

BJS
Ana Camarra disse…
Ludo - Juro que não queria fazer ninguém chorar, a minha avó era ainda muito mais que isto.

Mac - A minha avó deixava um rasto de amigos onde passava. É engraçado ver que de certa forma ainda deixa.

Ferroadas -`Teve uma história de vida enorme e simples, como ela era.

Beijos
Diogo disse…
Minha cara, você tem muito jeito para escrever. Talvez devesse arriscar um livro.

Um beijo
Ana Camarra disse…
diogo

cá em casa estão sempre com essa conversa, eu confesso que a pessoa que acredita menos em mim sou eu....

Mas obrigados pelo elogio

beijos
Miss K disse…
Foi por ver o teu post no meu blog que vim cá dar um saltinho. Tenho andado um pouco afastada da blogosfera por falta de tempo e de inspiração.

Confesso que já me tinha esquecido de como é bom ler o que escreves... gostava de ter metade da tua inspiração e jeito com as palavras.

Não posso voltar a ficar tanto tempo off... :)
Ana Camarra disse…
miss K

Vocês mimam-me muito!
Não fiques tanto tempo off, não.

beijos
mugabe disse…
Ana,...foi bonito. Abraço!
Ana Camarra disse…
mugabe

Ainda bem que gostas!

Abraço
AnA disse…
Também guardo excelentes recordações dos meus avós. Principalmente do meu avô paterno.Além dos pais, devem fazer parte do nosso crescimento. A minha mãe costuma dizer que os avós como não têm a responsabilidade directa de educar, estão disponíveis para "dar" e transmitir outras coisas igualmente importantes. Falo de valores e não só.
salvoconduto disse…
Pela tua última nota dá para perceber que a tua avó tinha muito bom gosto.

Abreijo
Ana Camarra disse…
Ana - Os avós, se quiserem, tem um papel fundamental.

salvoconduto-A minha avó tinha um gosto fora de série.

beijos
DML disse…
Lindo texto! Optima inspiracao!



(Fiquei fa do teu blog)
Ana Camarra disse…
dml

Obrigado, volta sempre que quiseres.

bjks
SENSEI disse…
Avós, que paradigma!
Nós vemos neles um passado cheio de histórias, ficam-nos os cheiros e as vontades feitas às escondidas dos pais, por vezes uma reacção repreensiva ás diatribes, para logo de seguida, um sorriso e a inevitável comparação de quem também já foi assim, mas a vida fez esquecer, nas nossas diabruras, ressurge-lhes esse passado tão saudoso ainda que difícil, mas memória também é vida.
E é isto que eles vêem em nós, o seu passado feliz, a sua vida, perpetuar-se na vida e no futuro dos seus netos.

Por isso não têm funções educativas ou disciplinadoras, mas sim cumplicidades e vontades satisfeitas, para desespero por vezes dos pais, os avós servem mesmo é para estragar, mas isso faz tanta falta!... Não faz?!... Em especial depois de terem partido e, no nosso coração ficar aquele vaziozinho tão fundo, que ninguém nunca mais vai conseguir encher, cobrir?!... Talvez!... Mas encher?!… Nunca!

Ah!... É verdade, a isso chama-se AMOR!

Ouss
Anónimo disse…
Estúpida!

Já me fizeste chorar...

Um grande beijo

Lena G.
Ana Camarra disse…
sensei - è amor incondicional, os pais educam os avós é para estragar, ou talvez não.

Lena G. - Juro que não era essa a intenção.

Beijos