segunda-feira, 1 de setembro de 2008

OUTRA



Olho para a mulher à minha frente!

Rosto redondo, cor azeitonada, olhos grandes e escuros, nariz forte e arrebitado, boca bem desenhada.
O cabelo está molhado colado ao crâneo como o meu, adivinha-se que quando secar terá a sua personalidade, marcada pelos remoinhos que resistem a qualquer arremetida do cabeleireiro.
Olho disfarçadamente para ela e ela olha-me de lado com um olhar igual ao que eu fazia quando tinha oito anos e ao fim de uns minutos de estar no mar nadava direita ás bóias, da areia gritavam “Aquela miúda já está fora de pé!”, eu olhava de lado como a outra me olha agora…
Espalho creme no rosto até à base do pescoço, ela faz o mesmo, tem uma cicatriz grande que lhe faz um colar, aparentemente mais fina que a minha, a minha sinto-a como um vergão, por vezes, outras nem me lembro.

Olho outra vez e ela olha-me de frente desafiadora, reconheço-a, embora fosse jurar que não sinto aqueles cabelos brancos, como velhinhos em Parque Infantil, que lhe espreitam na tempera…
Sinto as olheiras, mas nela não parecem assim tão vincadas!
Olho-a e acho-a mais pesada que eu, juro que se parece comigo daqui por uns anos, não agora, ainda há pouco me senti tal qual como tinha vinte e poucos anos, ainda há pouco fiz festas na cabeça do meu filho e ele sorriu com o sorriso de bebé, parece que de repente encolheu, os pés tornaram-se de novo pequeninos, as mãos também, ficou outra vez com cheiro a bebé, em vez do cheiro acre do suor da adolescência, uma adolescência enorme, com pés 45 e roupas enormes…
Ao mesmo tempo olho-a e se calhar sou eu, embora tenha dias, também em que me sinta muito mais velha que ela!

12 comentários:

Ludo Rex disse...

Divina esta tua reflexão, divina.
Kiss e Boa Semana

Ana Camarra disse...

Ludo

Divina será exagero, é mais uma reflexão incoformista da Ana Camarra.

beijocas

salvoconduto disse...

Juro que vi neste post, por momentos, a minha mãe...

Obrigado.

Abreijo

Ana Camarra disse...

salvoconduto

Não tens nada que agradecer.
Eu sou mãe, isto de ser mãe é quase universal.

beijocas

anunciação disse...

Pois é, nós somos também o nosso passado feito futuro .

Bom regresso de férias .
BJ

Ana Camarra disse...

anunciação

Pois tens razão.
Já regressei a casa, ao trabalho só para a semana.

beijocas

Zé do Cão disse...

É isso mesmo. Isto de ser mãe é quase universal.
É um dos textos que mais me impressionou. Mãe, filho, avó, coisa linda coisa ternura. Que amor.
Tens dois varões, ainda jovens solteiros 26/27. O mais novo, faz amanhã 6/9, 26. Quanto a mãe chora por saber que amanhã não tem a sua mão para agarrar, a cara para lambuzar de beijos. Será contentada com uma sessão de internet, aí de 1 hora, pois o aniversariante está na Filândia -Oulu - a mouquissimos km do circulo polar artico, numa universidade a tirar um mestrado.
Eu limitar-me-ei a sorrir para o "can" desejoso de lhe dar um abraço
que mesmo longo parece cutro.
E assim o ser mãe, o ser pai e recordar com o seu sapatinho, que foi "cobreado" quando tinha 1 ano.
Desculpa-me, mas não foi para isto que vim aqui.
Depois volto, fui-me abaixo.
Bj.

Ana Camarra disse...

Zé do Cão

Não te vás abaixo, ser mãe e pai (suponho)é uma grande aventura e eu não quero que te vás abaixo.
Mas vem cá sempre que eu gosto.

Beijocas

SENSEI disse...

Inconformidades conformistas, de quem tem em si um passado presente, uma dialéctica constante entre o ser imagem e o ser intrínseco, aquele que nós teimosamente mantemos, mesmo quando o corpo por vezes se recusa, teimamos em ter a atitude que sempre conhecemos em nós, desafiadora, desafiamos o corpo a ir mais além, como antes, ele range e dói, mas a nossa persistência fá-lo obrigar-se teimosamente a vergar-se à nossa vontade, por incrível que pareça, ele volta a ser controlado por nós e jamais o contrário. É nisto que acredito, é nisto que me empenho, jamais aceitarei em atitude conformista a derrota da juventude e o triunfo da velhice, no dia em que a velhice triunfar, então é porque estarei morto.

Ver
Respirar
Sentir
Amar
Filhos
Família
Amigos
Conhecer
Saber
Lutar
Trabalhar
Ler
Fazer
Participar
Passear

São sintomas típicos de quem está atentamente vivo!

Bjos

Ouss

Ana Camarra disse...

SENSEI

Pois vivos, vivendo, mesmo mesmo, vegetando nunca!

beijo

Zorze disse...

É lindo esse teu "toque". Às vezes esses pensamentos-sentimentos-emoções são quase magia.

Beijos,
Zorze

Ana Camarra disse...

Zorze

É o que me passa pela tola.

abreijo