OS PAPALAGUIS




O Papalagui é um livro com os discursos do chefe Tuaivii, de uma ilha dos mares do sul descrevendo a forma como via o Homem Branco (Papalagui).
Os textos são cómicos se não optarmos pelo lado trágico que carregam, neles o chefe, entre outras coisas, espanta-se pela escravidão do Papalagui ao metal redondo e ao papel forte (dinheiro), pelo facto do Palagui se embrulhar em panos e peles mesmo quando não está frio, pela loucura do Papalagui em querer dividir o tempo e dizer que não tem, como se fosse possível dividir tempo ou possui-lo…

Falo neste livro porque quando o lemos revemo-nos no Papalagui e ficamos apreensivos com a quantidade de coisas mesquinhas que encontrámo-nos para nos dificultar e sobrecarregar a vida.
È claro que não me importava nada de viver numa ilha paradisíaca dos mares do sul, onde todos os dias fossem domingo, com aguas claras e transparentes, peixe pescado na hora, árvores de fruto e flores exóticas… Não é possível, já sabemos.
Mas por outro lado dou comigo a examinar uma legião de papalaguis sem tempo e com uma vida de compromissos e de restrições e pobre em….vida.

Falo outra vez das nossas crianças e por nossas crianças entende-se os meninos deste país, integrados no sistema escolar público ou privado, uma classe média abrangente.

Hoje ter um filho é arriscado, arriscado por ser caro, arriscado por motivo para perca de emprego, etc..

Mas arriscado é ser criança hoje.
A maioria das crianças após os 4 ou 5 meses das licenças de maternidade ou paternidade entra num rodopio de compromissos.
Entram para uma creche ou para uma ama onde irão partilhar o colo com outros.
Pais levam-nos quando eles ainda estão envoltos em sonhos, vestem-nos e levam-nos ainda sonolentos de carro, de transportes colectivos ou para uma qualquer carrinha de um colégio.
Se vão para tal carrinha ou minibus percorrem por vezes durante uma hora as ruas do mesmo burgo a recolher outros meninos sonolentos e chorões.
Vão para a escola com sono e a correr, almoçam com tempo contado, brincam com tempo contado, saem da escola vão para o colégio, para a ginástica, para o Inglês, para a música, para a explicação, vão para outro desporto qualquer, chegam a casa cansados, tomam banho dado por mães e pais cansados que lhes dão a seguir um jantar apressado, deitam-nos num quarto cheio de brinquedos comprados para compensar a falta de tempo, de abraços e de colo.

Em estudos recentes estima-se que a esperança de vida dos nossos filhos seja inferior á nossa em cerca de vinte anos.

Comem muito, muitos cerais açucarados, produtos embalados com cremes sintéticos, hamburgers com molhos, refeições pré-feitas congeladas, ricas em gorduras, açucares e hidratos de carbono, pobres em proteínas, em ferro em vitaminas.
Comem boiões de fruta processada, pensam que o leite nasce em pacotes.
Muitos deles não se podem rebolar na erva ou comer amoras apanhadas das silvas.
Sabem nadar em piscinas com água a cheirar a cloro e toucas de silicone, muitos não sabem andar de bicicleta ou fazer um jogo espontâneo, ás escondidas, á apanhada.
Nunca espreitaram ninhos, nunca apanharam girinos, nunca roubaram fruta, nunca partilharam um gelado, nunca se afastam de um local sem rede para os telemóveis coloridos que servem de cordão umbilical.

São obesos, pálidos, intolerantes á lactose e ao glúten, sofrem de alergias várias, que os impedem de brincar nos resquícios de campo perdidos na cidade.
São pobres meninos ricos.
São uns pequenos Papalaguis…

Comentários

Eduardo disse…
Já cá tinha vindo em busca de novo texto.
Não mudou a música mas não faz mal é bonita.
Você é Educadora de Infância, Professora ou Assistente Social?
Demonstra grande preocupação com as crianças.
Já se viu que é mãe, dedicada.
Tem bom gosto.
É de esquerda.
A avaliar por alguns comentários quarentona ainda em muito bom estado.
Caramba, agora é que estou mesmo viciado.
Com o azar que eu tenho é casada.
Ana Camarra disse…
Caro Edudardo

Sou casada há muitos anos e feliz na relação, não ando á procura de mais nada.
Anónimo disse…
Cara Ana

Vou já comprar o livro assim que receber.
É assim mesmo que se chama?
Fatima disse…
Ana

Cá estou eu outra vez.
De facto é verdade entre os seus meninos perdidos e estes papalaguis exisste um abismo, mas não sei o que é melhor.
Os miudos tem coisas a mais e tempo a menos, mas a culpa é dos pais também.
Depois o resto, os meus iam embrulhados em cobertores da minha casa para a casa da vizinha que os entregava á carrinha, quando voltavam ficavam em casa dela outra vez (chamam-lhe Avó)até eu chegar já de noite. Não foi facil.
Não é facil para ninguém
Enfim pensamos sempre estar a fazer o melhor.

Um abraço
Anónimo disse…
Amiga Ana

Realmente esta sociedade de consumo rapido empurra-nos para coisas do arco da velha.
As crianças já não crianças, são pequenos adultos controlados.
É assim o 8 e 80.
Continue que vai muito bem.

Augusto
Anónimo disse…
Não se deve passar nada para comentar se isto...
SENSEI disse…
Esse livro é espectacular, já o li, é super interessante,
"O PAPALAGUI", nele encontramos a nossa mesquinhez, as nossas complicações face ao que não é complicado, é apenas o que é!

Sabiam que os ameríndios não castigavam as suas crianças, nunca?
E se uma criança errava a culpa era sentida pela comunidade que havia sido descuidada.
Ainda a comunidade tinha um sentimento comunal ou seja todos trabalhavam epartilhavam para o bem de todos na comunidade, este sentimento é-lhes ou era-lhes quase inato, é giro hoje ser apenas na ideologia socialista (mas na verdadeira)como via para o comunismo (economia comunal) a ser de facto aquela que luta por isto poder vir a ser uma realidade em vez de utopia?
Trabalho, saúde, educação, amor, ingredientes básicos na formação moral, humana e cívica, são hoje e no actual regim, uma utopia!...Infelizmente, mas eu não pararei de lutar contra e sei que cada vez somos mais, temos de ser mais, as crianças deste mundo e as nossas precisam destes ingredientes, logo precisam de nós.
Anónimo disse…
Este blogue é de um bom gosto incrivél.
É quase uma ilha de bom senso.
Ganhou lugar nos meus favoritos.

Muito obrigado por ser assim
Anónimo disse…
Ana

Cá estou outra vez.
Continuas 5 estrelas.
As minhas crianças também passaram essses tormentos, chegavam a fazer hora e meio de minibus do Colégio pelas ruas do Porto.
O nosso sentimento de abandono é tão grande que lhes tentamos dar tudo e ás vezes o tudo é nada.
O Papalagui é um clássico, é claro que continuas boa leitora e deixa que te diga boa escritora.
De facto tivemos uma infância mágica comparada agora com os nossos filhos, tu não bricavas propriamente comigo que eu dava confiança a miudas pequenas.
Mas o nosso circuito era de dias em Troia ou na Arrabida a explorar a serra, tardes na Mata da Machada e no Pinhal de Negreiros que agora está transformado numa porcaria pseudo chic.
Tardes á pesca na muralha da Avenida da Praia, explorações malucas no eucaliptal dos Casquilhos e na Fonte das Ratas (agora é Fidalguinhos).
As minhas crianças sofre agora ainda de outro transbordo-fins de semana alternados com o pai ou com a mãe.
Enfim, tristezas.
Mas tentamos fazer sempre o melhor.

Grande beijoca e aquele Abraço

Zé Manuel

PS-Sessão da Tarde na Quimigal e da noite no Teatro Cine, Bailes no 22, primeiros copos no Portão, noites malucas no Seagal (lembras-te), tardes e noites de verão no Parque a conversar sobre tudo.
Dias na estátua a andar de skate, bicicletas pelo Barreiro a fora.
Excursões a Sesimbra e ao Meco.
Enfim, bons velhos tempos.
Cada vez que venho cá espreitar dá-me para o saudosismo, sinto-me novo e velho ao mesmo tempo.

Toma lá mais uma beijoca
Eduardo disse…
Ó Ana

não leva a mal estava a brincar.
Ana Camarra disse…
Anónimo 1

O Livro chama-se mesmo o Papalagui.
È pequeno lê-se muito depressa.

Fátima

Pensamos sempre fazer o melhor
Nada disto é fácil
Também não é tudo mau


Augusto

Obrigado

Anónimo 2

Não percebi muito bem, queria que eu fizesse outro tipo de comentários?
Não é obrigado a cá vir.
Faça um blogue seu e comente sobre o que quiser.

Sensei

È verdade

Anónimo 3

Muito obrigado

Zé Manuel

Estás em baixo amigo, mas qualquer dia arranjas a tua vida outra vez.
De facto tivemos uma infância/adolescência incrível.
Obrigado por todos os elogios.

Eduardo

Está desculpado.
Eric Blair disse…
papalagui num sabe nadà...
goleador disse…
Porra, porra
que eu não fico tão sensibilizado assim com os mafarricos. Tenho dois, vivem com a mãe. Dou-me perfeitamente com eles e dou-lhes tudo o que precisam de um pai solteiro, mas que os adora, na mesma. Nunca me vi casado com vida familiar como é uso e costume nesta civilização.
Feitios.
Ana Camarra disse…
Eric Blair

Os Papalaguis estão a ficar mais burros.

Goleador

Pois é, feitios.
A vida é assim.
A vida familiar não é só uma tradição. Também acho que é melhor uma boa separação que um mau casamento.
Zé Ferradura disse…
Parabens! Um blog de embalar, de sensações de alegria e de tristeza, que nos invadem a cada dia, para as quais andamos distraídos e nos abstraímos com o fulgor da luta quotidiana!

Uma visita ao seu blog tansmite-nos a paz que todos necessitamos após uma semana intensa de laboração.

Cumpts
Zé Ferradura
goleador disse…
A questão não é separação/casamento, bom ou mão. É uma questão de liberdade e independencia.
Anónimo disse…
o que eu estava procurando, obrigado