quinta-feira, 8 de maio de 2008

Cansa-me este peso guardado das asas que não uso.


Agora agarro os dedos entrelaçados e fito as minhas mãos cheias de nada.
Nada deste instante se repetirá, nada dos instantes em que não parei se repetirá, nada mesmo nada se repetirá.
Ensinaram-me isso na escola, parece-me ou li num livro, já não sei.
O que penso que sei baralha-se na minha cabeça, as horas, os números: códigos de telemóveis, pins’s de Multibanco, número de bilhete de identidade, passaporte, contribuinte, eleitor, passwords de acesso, datas, números de telefone, datas e horas de reuniões, contactos, visitas de estudo, testes, aniversários, saldos bancários.
Oiço de repente vozes e sons que sei que já não existem, vozes que desapareceram, que já não se repetem.
Sinto ainda cheiros, da maresia, e eu pequena junto á lota a ver os barcos e os caixotes de peixe a serem descarregados e os peixes a palpitar num desgosto aflito de sentir o mar ali ao lado e saber que não voltavam mais ali a nadar, o mar que julgavam banal, eterno e garantido.
Agora sou um peixe aflito, tenho falta de um mar que não sabia dar valor, um mar que era meu.
Agora estou no trapézio e sinto falta daquela rede invisível que eu não queria mas estava lá, segurava-me sem prender, a rede onde podia sempre cair, feita de afectos, de respeito, de carinho, de amor?
Dói-me uma parte qualquer, uma parte de mim que não identifico, não é a cabeça, nem um braço, as costas? Não é outra coisa.
Cansa-me este peso, do trabalho, dos amigos, da família, das notícias tristes gritadas nos noticiários, impressas em folhas de jornais.
Noticias das fomes, das guerras, dos que matam, dos que roubam, e é mais uma criança maltratada e mais outros abandonados e mais outras misérias avulsas.
Quero ir para uma toca, ser uma toupeira, fechada num buraco morno, na terra amarga, seca e quente.
Cansa-me este peso guardado das asas que não uso.

1 comentário:

Anónimo disse...

Não esteja tão triste pelas imagens e sons que escolhe, pelas coisas certas que escreve sei que é uma pessoa linda.
Há sempre um amanhã