segunda-feira, 21 de abril de 2008

Colo





Telefonou-me uma amiga com uma voz sumida de naufrago em busca a tábua de salvação “Tens um bocadinho para mim?”.
Pensei que dizer que não, que não tinha, a secretária afogada em papéis, o telemóvel de serviço a chamar-me impaciente e autoritário, as tarefas marcadas a caírem dentro da agenda como um castelo de cartas. Por outro lado o pedido foi suplicante, somos amigas há muitos anos, não estamos juntas tantas vezes como gostaríamos, a vida, o trabalho, a família vai roubando o espaço onde poderíamos cultivar a nossa amizade, mas somos amigas. Conheci-a quando na arrogância da nossa juventude sabíamos que éramos belas e interessantes e tudo era possível, tínhamos planos audazes de viagens e profissões. Acompanhei a morte precoce da sua mãe, como ela acompanhou a morte, também precoce, do meu pai, acompanhei o seu relacionamento amoroso de uma década, redutor, que lhe queimou a estima e amor próprio com um homem que não a merecia, que aliás não merecia que nenhuma mulher lhe entregasse o seu amor.
A minha amiga “deu a volta” com o nascimento da filha, a filha que só ela quis, pela qual lutou de todas as maneiras, pela qual fez a travessia do dinheiro contado da mulher sozinha a criar só e sempre só aquela filha.
Respondi-lhe que sim que tinha todo o tempo do mundo para ela, começou a construir um discurso: o caroço no peito, os exames médicos, o diagnóstico brutal, antevisão de quimioterapia, radioterapia e cirurgia.
Gelei, conheço bem demais este discurso, já passei por ele em todas as mortes recentes da família, passei por ele com vários familiares e amigos que vivem esse calvário e que vão sobrevivendo outros que estão oficialmente curados mas que no entanto sentem sempre uma sombra negra e pesada sobre si, estou de certa forma a passar por ele comigo, não da forma mais brutal e assustadora, mas sempre com essa perspectiva.
Sei que no momento em os médicos nos dizem para não pensarmos no pior e que hoje em dia a medicina está muito avançada, deixamos de compreender as palavras que o médico vai dizendo, parece que nos fala numa língua estranha, as palavras: nódulos, cirurgia, terapia de substituição e biopsias – passam a ser estrangeiras, estrangeiras tipo finlandês ou chinês, pensamos “Se calhar trocaram os exames”, “Se calhar as analises são doutra pessoa”. Saímos do consultório ligeiramente tontos, ligeiramente agoniados, estranhamente vazios, infantilmente pensamos ainda “Se o próximo carro que passar tiver matricula impar vai correr tudo bem. Se conseguir passar com o semáforo verde vai correr tudo bem”.
Queremos fazer a cirurgia amanhã, não, hoje ainda. A perspectiva de um apagão total no nosso cérebro para acordar com aquela coisa que nos roí o futuro extirpada do nosso corpo é muito atraente.
Não sei se isto sempre aconteceu, talvez sim, sei que somos trucidados numa vida que não nos permite parar, reflectir, amar, apreciar todas as pequenas belezas, sei que vivemos uma vida controlada por: relógios, horas, dias da semana, compromissos, hipotecas, prazos de validade, contratos a prazo, á espera fim-de-semana e do fim do mês, daquela entrevista, daquele exame, de qualquer coisa.
Sei que nestes momentos só precisamos de colo, foi isso que lhe tentei dar.

1 comentário:

Anónimo disse...

Amiga
Gastamos a vida a ganhar a vida e não ligamos às coisas importantes.
Obrigada por existires e passares tão bem ao papel alguns dos sentimentos que também eu sinto.
Gosto muito de ti. Beijo.
Anabela