segunda-feira, 21 de março de 2011

A Primeira Verdade

Eu por mim gosto disso, dias brilhantes e noites longas, a chegada da Primavera costuma trazer andorinhas, alvoroço entre os adolescentes, alergias ao pólen, cabritos e borregos, papoilas entre os campos verdes e outras coisas constantes nas redacções da primária “Descreve por palavras tuas a Primavera!” é claro que existia sempre um que tinha uma prima Vera, e a redacção era um chorrilho de trocadilhos em redor do assunto, existia ainda quem, com letra bem desenhada, conseguisse encher uma página com as banalidades das andorinhas a fazer ninho.
Faço aqui então a minha redacção da Primavera.

“Eu gosto da Primavera, mesmo quando a sinusite me incomoda, prefiro espirrar com o pólen do que me vestir em camadas como as cebolas. “Prima Vera” quer dizer “Primeira Verdade”, e as primeiras verdades são assim claras, impetuosas, simples e fortes, tem o doce e acidez, a relva verde com a humidade matinal, das primeiras verdades surgem forças por vezes imparáveis, a vontade de romper com tudo quanto é velho, serôdio, guardado, apetece despir malhas e preconceitos, encarar as pessoas nos olhos e perguntar se é isto mesmo que querem, uma espécie de Primavera pobre e eterna, com cheiros artificiais de alfazema num Centro Comercial decorado com flores de plástico, acções de guerra humanitária em nome da paz e da justiça, se bem que esta paz e a justiça cheirem a petróleo, apesar de as noticias me servirem novidades requentadas e discursos inflamados sem nada de novo, gosto do rumor a nascer de quem quer uma vida a sério, sem manequins a fazer de pessoas e escadas automáticas que nos levam a sítios iguais onde já estivemos antes, porque a recessão, a crise dos mercados, as medidas de austeridade são sítios onde já estivemos e acabaram em cartazes de paisagens onde nunca fomos, com mares onde nunca navegamos e promessas que nunca nos foram cumpridas.
Por isso gosto da primeira verdade, do primeiro sorriso, do primeiro grito, do primeiro olhar, do primeiro sabor do mar a infiltrar-se comum cheiro a sal, numa música rouca, na força das marés, das primeiras ervas tenras que ainda assim furam a terra gelada, do nascer do sol, sempre uma alvorada nova, a primeira verdade.”

sexta-feira, 18 de março de 2011

E tu vens?


Hoje é sexta-feira, véspera de sábado e está sol, parece que ontem o jogo correu bem ao Benfica, mas a gasolina está ao mesmo preço, o que está em cima da mesa neste momento são mais cortes nas pensões, nos salários, mais desemprego, soube-se também esta semana, que é impossível criar um combustível profissional, que os produtores de leite vão ter de cessar a actividade porque vendem o leite a vinte e tal cêntimos o litro e a ração dos animais custa trinta cêntimos o quilo, também se soube que já não vão baixar o preço dos medicamentos mas que o Governo foi sensível aos argumentos dos praticantes e donos de campos de golf, um desporto de massas acessível a qualquer um, para baixar a taxa de IVA, entretanto no sábado passado milhares de pessoas que se sentem enrascados com tudo isto manifestaram-se, mais ou menos espontaneamente, haverá quem diga que de nada serviu, de que não serve de nada a Manifestação marcada para amanhã pela CGTP. Eu não concordo, durante 48 anos pelo menos, o direito á indignação foi proibido, foi a indignação popular que se juntou à acção militar do 25 de Abril de 1974, para mudar o rumo do país, é um país digno que quero, onde os meus filhos tenham futuro, onde os recursos naturais sejam aproveitados de forma sustentável, onde as condições de dignidade sejam garantidas, aos jovens, ás crianças, aos velhos, a todos, onde os cuidados de saúde não sejam um acaso, o acesso á cultura não seja um luxo, o ter trabalho não seja um feliz acaso. È isso que quero é por isso que luto, é por isso que vou amanhã, que fui outras vezes manifestar-me, pelo direito à dignidade.
E tu vens?

quinta-feira, 3 de março de 2011

Reflexão sobre o nosso maravilhoso, fascinante, democrático, mundo ocidental civilizado... e outros


Parece que agora se descobriu que a Tunisia, o Egipto e mais uns quantos países são ditaduras onde o povo é oprimido de forma brutal, estranhamente a comunidade internacional nunca tinha dado por isso, eu por acaso já fui ao Egipto e suspeitei de tanto policia com tanta metralhadora, como achei estranho os autocarros de turismo terem escolta militar para atravessar o deserto, mas pronto, dizem-me desde pequenina que eu tenho mau feitio, por isso devia de ser defeito meu, o meu feitio leva-me a pensar que existem outros países com ditaduras tão ou mais brutais, apenas dão menos nas vistas ou então são suficientemente amigos dos nossos dirigentes e como tal se olha para o lado. Quanto á miséria, evidente aliás, parece-me que noutros sítios não é muito diferente, quase que aposto que é parecida à do Bairro do Fim do Mundo aos arrabaldes de certas cidades sul americanas e nem por isso muito diferente dos sem abrigo que existem neste nosso maravilhoso, fascinante, democrático, mundo ocidental civilizado. A chatice disto tudo é que alguns destes países são produtores de gás natural, petróleo, ou controlam a rota de uma coisa ou outra, materiais nos quais o nosso maravilhoso, fascinante, democrático, mundo ocidental civilizado assenta a sua economia que aliás tem vindo a ser preparada para fascinantemente, democraticamente e maravilhosamente, reduzir a sua massa humana a uns seres estranhos que se congratulam com os golos da bola, suspiram com o caminho deste mundo onde o rapaz de 20 anos mutila o seu patrocinador sexagenário com sacarrolhas, num hotel de luxo em Nova Iorque, encolhem os ombros com os PEC’s avulso que nos roubam o futuro, acham natural que um governante se “amanhe” porque se não o faz é parvo, acham que a crise familiar tem origem nas emigrantes brasileiras, continuam a fazer peregrinações a pé até Fátima convencidos que a Nossa Senhora vai resolver a sua disfunção eréctil, fazer do Sporting Campeão, fazer desaparecer a divida à Cofidis e interceder para que algum dia tenham aquele Audi de sonho, tem como sonho básico um apartamento de férias na Marina de Vilamoura, roupinha de marca, e dinheiro para minis, acham ainda normal que isto vá ser pior por causa dos oprimidos das ditaduras lá longe, os sacanas é que estão a reter o petróleo, não saem à rua porque afinal estão bem melhor que outros, aqui no nosso maravilhoso, fascinante, democrático, mundo ocidental civilizado onde está para já garantido o direito de morrer de fome.