sábado, 19 de fevereiro de 2011

Sou uma gaja desenrascada numa geração á rasca!


Comecei a trabalhar aos 19 anos, agarrei uma oportunidade na função pública, permitia-me manter contacto e trabalhar em certas áreas para as quais me sentia atraída: educação, animação, associativismo algum trabalho de integração social, estava a dez minutos de casa, o salário não era grande coisa, mas existiam um conjunto de pequenas regalias que incluíam a hipótese de me reformar ao fim de 36 anos de serviço e um sistema de saúde que funcionava, os descontos salariais apesar de muitos mitos eram iguais aos dos outros trabalhadores, naquela altura as médias de entrada para o ensino superior eram desmotivantes, amiúde quem conseguia entrar ia para faculdades longe de casa, num esquema diabólico que trazia algarvios para Lisboa, transmontanos para Évora e os outros para onde calhasse, as hipóteses de os meus pais suportarem tal coisa eram escassas, portanto agarrei a oportunidade.

Depressa de mais as coisas mudaram-se, lembro-me de me terem cortado a progressão na carreira, de me terem cortado parte do subsídio de Natal, de me terem reduzido benefícios médicos de me terem dado dias de férias em troca de aumentos ao nível da inflação, passei a minha idade adulta a esticar o pé à medida do lençol com muitas fases em que o lençol para tapar os pés deixa outras partes descobertas, vivi o drama do desemprego em familiares próximos directos, paguei ensino pré escolar privado devido a não existir público, ouvi o discurso da crise e dos sacrifícios de vários governos, de Màrio Soares a Cavaco Silva passando por António Guterres, Durão Barroso, Santana Lopes e José Socrates, ouvi as suas promessas eleitorais, ouvi coisas sobre o preço do petróleo, que parece que é sempre mais caro para este país do que para os outros todos, deixei de ter um sistema de saúde que funcione, mas também não tenho médico de família, também tenho neste momento a perspectiva de me reformar com 46 anos de serviço, a determinada altura a salvação era a entrada na União Europeia, que seria difícil mas depois era uma beleza, não foi, depois foi a entrada na moeda única, que era disso que necessitávamos para atingir o mesmo nível dos nossos parceiros, também não foi.

Sempre paguei os meus impostos, tanto aqueles que são sacados à partida como os outros, vivi o drama do desemprego em familiares directos, em amigos, em conhecidos, conheço o drama da precariedade, dos jovens licenciados que partem para servir às mesas de um outro país qualquer, dos professores com vida de nómada que nunca sabem onde vão parar, da antropóloga que trabalha na sapataria, tenho dois filhos no ensino superior, pago as propinas, os passes, as sebentas, compro os livros, tudo luxos, agora dizem que se precisa de mais um esforço nacional, que andámos a viver acima das nossas possibilidades e que são necessários mais sacrifícios, que existe uma crise que se propagou mundo afora, tal como as gripes e deve ter arranjado aqui o sitio ideal para se instalar, entretanto os sacrifícios são feitos, gente há que toma os comprimidos em dias alternados, só come peixe em dias da semana que tenham a letra “r” e bifes à segunda quarta-feira de cada mês, há escândalos diversos quase diários, em dias bons até mais que um, coisas com ministros, sucateiros, ex ministros, secretários de estado, bancos e outras, há escolas que fecham e disciplinas que vão acabar, falta de médicos, pessoas despedidas por email, empresas com lucros astronómicos isentas de impostos ou pelo menos aligeirados dos mesmos, regimes de excepção e outras coisas que tais.

Tenho-me desenrascado apesar de fazer parte desta geração, que tem estado sempre à rasca, mas não me conformo, e tu?

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Seara Madura

Olhou-se no reflexo da porta do autocarro, por um momento pensou que não era o seu reflexo, não podia ser aquela mulher baixa de ancas largas com uma gabardine fora de moda, ar cansado, as manchas de cabelo branco a aparecer, grandes, visíveis, entre um resto só um resto de cabelo cor de searas, o cabelo que sempre lhe tinham gabado, agora sem os caracóis que lhe davam um ar boneca, vagas que foram numa seara madura, agora só uma ligeira ondulação num restolho seco…o autocarro arrancou, o caminho que se seguia era o do costume, passar no supermercado, comprar uma sopa já feita numa tigela de plástico, aquecida no microondas, sem ser tão pouco transferida para outra de louça, a sopa sorvida em colheradas, frente á tv de roupão e chinelos, o luxo final de dois, só dois quadrados de chocolate depois da maçã ou da pêra, tudo comido sozinha, na companhia de romances alheios ou concursos sempre iguais onde pessoas cheias de esperança em fazer umas férias ou comprar um carro respondem a perguntas inúteis.
Lembrou-se que nunca tinha feito aquelas férias, as tais, já não lhe interessava o carro, a neta vinha com o filho em fins-de-semana alternados, só nesses domingos é que a casa ganha outro ar, são usados pratos de louça, receitas esquecidas, para almoços sempre demasiado rápidos onde no fim ficam as cadeiras vazias, os pratos sujos e um vazio a encher tudo.
Os próximos dias seriam mais vazios, as férias em casa, sem mais companhia que os romances alheios, os concursos eternos, o vazio invasor, a begónia que nunca florescia no vaso da marquise as fotografias a olhar para ela de olhos inquisidores, talvez um passeio solitário pela marginal junto ao rio.
Decidiu esquecer a sopa na tigela de plástico, o romance alheio, o concurso eterno, entrou numa loja em saldos, comprou um vestido diferente, castanho, quase como os quadrados de chocolate, com desenhos turquesa a lembrar ramagens de plantas exóticas, entrou no cabeleireiro, deixou que a seara madura fosse restaurada, um pouco mais curta, um pouco mais madura, pensou no tal dinheiro guardado, pouco, mas algum, para uma necessidade, deixou que pintassem as unhas, despiu a roupa de mulher cansada na casa de banho esterilizada do Centro Comercial, vestiu o vestido exótico, calçou os sapatos novos, tirou o baton da mala, no espelho reflectia-se a mulher enérgica, interessante que de repente movida pela necessidade de viver entrou na agência de viagens…
Foto Luis Miguens