quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Fica só


Fica aqui ao pé de mim, naquelas conversas, simples,
Só nossas, quase sem palavras, só olhar, só o toque,
A presença, o sorriso no fundo do olhar ou então
Diz-me qualquer coisa,
Diz-me porque é que sorris para mim,
Porque é o mar é azul,
Porque é que gostamos de ruínas á beira-rio
Douradas pelo sol a despedir-se,
Diz-me como é que as aves se sustentam no vento,
Porque é que os peixes gostam de nos assustar,
Porque é as mãos se encaixam,
Porque é que o tempo passa
Tão depressa
Que ainda ontem era
O inicio da Primavera dos
Sentidos
E agora
Acaba o Verão, ou
Pelo contrário
Como é que o tempo passa tão devagar
Que escorre oleoso e lento
Numa ampulheta estrangulada,
Quando queremos que chegue outro dia,
Outra hora,
Outro instante qualquer
Ou então não digas nada
Fica aqui só
Ao pé de mim

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Não gosto de amores desesperados


Não gosto de amores desesperados, só nos versos de Neruda e nas peças de Shakespeare, todos os outros não gosto, acho que os amores, as paixões, as ternuras devem de ser alegres, cúmplices, felizes, acima de tudo compensadores, sob pena de não valerem a dita pena.

Na vida real Romeu e Julieta deveriam ter fugido para outra cidade, evitando mortes, venenos, golpes de espada, gosto de pensar que poderiam ir para uma cidade de pores-do-sol rosados, onde se amariam entre gargalhadas, António e Cleópatra também, fugiriam para outro sítio, uma ilha qualquer no mediterrâneo azul onde mergulhariam nus entre beijos molhados, deixando para trás tronos e serpentes venenosas.

Os amores devem de ser assim como um local onde nos sentimos muito bem, confortáveis, com inquietações felizes, nunca desesperadas, o desespero cansa, desgasta, a alegria renova, os amantes devem de se provar sempre como da primeira vez, com vontade, com um sorriso, seja nos lábios seja no fundo dos olhos, as carícias devem ter algo de brincalhão, os abraços devem de ter alegria para poderem ser aceites com beijos felizes, esfomeados mas felizes.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Devagar, suavemente


Assim que ligo o telemóvel começam, visivelmente zangado e exigente a apitar e tremer, lembretes, mensagens, alguém que ligou fora de horas, aniversários, ignoro-o, posso dedicar-lhe atenção mais tarde, preciso de pousar o olhar um pouco, não estou ainda completamente desperta, durante a noite envolvo-me no livro que leio, por mais tempo do que devia, na ânsia de capturar palavras, acabei por me deixar de dormir já com a madrugada a anunciar-se, por pouco tempo, porque depois começam todas as outras coisas, os passos que ecoam na rua deserta de quem segue para o barco, os carros cada vez mais frequentes, a birra do menino pequeno arrancado da cama para ser entregue á avó, mais tarde passará a carrinha do colégio e o menino começa assim cedo atravancado entre horários, o caniche da vizinha com o ladrar estridente que tem vocação de galo matinal.
Por isso não acordei completamente, o duche matinal, acabou por funcionar como calmante em vez de despertador, a lassidão a tomar conta do meu corpo em jactos de água morna e um perfume floral, foi devagar que me vesti depois de espreitar o dia, foi devagar que levei a escova ao cabelo, foi devagar que desci as escadas, liguei o carro e foi devagar que fui olhando a acumulação das folhas a morrer no passeio, as gaivotas preguiçosas só a pairar, os velhotes que insistem em atravessar a rua mesmo ao lado da passadeira e nunca sobre ela, num gesto de rebeldia quase perigoso, foi devagar que cumprimentei as pessoas de todos os dias, é devagar que equaciono o resto do meu dia, o dia de amanhã, as pequenas coisas novas que surgem, é devagar que penso nos momentos que reservo só para mim, é devagar que ouço uma música que me faz sorrir, é devagar que alinho letras até formar palavras para depois expressar sentimentos, é devagar que me escorrem assim entre os dedos, suavemente.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Não sejas injusta!


Não sejas injusta, tens de perceber que existem pessoas pequeninas a quem só lhes interessa o seu reflexo, que estão convencidas que afinal o mundo nasceu só para eles e não eles para o mundo, pensam ainda que o sol só brilha para eles em regime de exclusividade, não se importa que não brilhe para mais ninguém, contam com a sua esperteza de rato oportunista, acham que por não fazeres os mesmos esquemas não os topas e tu finges que não percebes, passas á frente.
Essas pessoas acham maravilhoso o som da sua própria voz, tem um prazer perverso em exigir dos outros o que nunca fizeram, nunca são generosos, são interesseiros, nunca são solidários, são caridosos, nunca são alegres, são exuberantes, congratulam-se com as desgraças alheias, chafurdam nelas, mesmo, não tentam informar-se ou aprender, tentam apenas safar-se, por isso não dizes nada, segues o teu caminho, sabes que há sons muito mais belos que a tua voz, sabes que nunca podes ser inteiramente feliz enquanto existir sofrimento avulso em teu redor, sabes que sol brilhava antes de chegares ao mundo e mundo já girava em seu torno, assim continuará depois, sabes que o teu reflexo é efémero, sabes que quando te dás recebes, só essa partilha conta, que por cada coisa que aprendes há milhões que ainda não sabes.
Por isso, segue em frente, sorri, finge que não viste, não sejas injusta.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Nem sei se te lembras


Não sei se te lembras, foi num dia de sol, de certeza que foi, mesmo que o sol não estive a brilhar deve ter brilhado um bocadinho, nem que fosse só para nós, mas não sei se te lembras, eu não me lembro da data, nem do mês, lembro-me que era daqueles dias em que achamos que somos capazes de quase tudo, que se quisermos voamos, conquistamos o mundo ou descobrimos qualquer coisa especial, não me lembro do que vestia, se um vestido leve ou um camisolão de malha, sei que vestias qualquer coisa clara, não me lembro se era campo, ou uma esplanada no meio da cidade, não me lembro se as folhas caiam ou se as flores desabrochavam, lembro que uma gaivota a pairar com um ar tranquilo, não me lembro se tinha o cabelo longo ou se calhou naquelas alturas em que o cortava curtinho, nem me lembro se havia música de fundo se não de certeza que ouvimos alguma, lembro-me de olhar para um carreiro de formigas, lembro que te sorri sem motivo aparente e tu devolveste o sorriso, lembro-me de apesar de ter visto outras vezes foi ali que te vi, nem sei se te lembras.