sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Mesmo com burocratas e temporais


Hoje o dia está cinzento, nada de mais, é normal, estamos no Outono, levantei-me sem vontade, apetecia ali ficar a ouvir a chuva a cair e aproveitar uma certa moleza, mas não, banho, pão de leite (esqueci-me de comprar fiambre), sumo de laranja, café, vestir-me (ténis, calças de ganga, camisola, casaco de malha, um elástico para prender o cabelo depois se for preciso), ligar o telemóvel (há uma mensagem de ontem, daquelas que gosto de receber), carro, hoje o caminho á outro, papelaria (os meninos compram dentaduras de vampiros e cartolinas. “Hoje vais á minha escola, Ana? Vou sim.), tudo em ordem, tudo preparado, “Ò Ana ainda bem que aqui está a ver se me pode ajudar.”, sala preparada, (“Ò Ana que tens? Estás com bom aspecto!” a conversa repete-se por mais três ou quatro nuances, estás mais magra, fizeste alguma coisa ao cabelo, fica-te bem essa cor), não resisto a espreitar o meu reflexo, acho-me igual.
Os músicos afinam os instrumentos, são simpáticos, competentes, os miúdos deliram, aprendem depressa o que é melodia, palhetas, distinguem o oboé do clarinete e o fagote da trompa, batem palmas e abrem muito os olhos, a menina de trancinhas e paralisia cerebral sorri, com a boca e os olhos, pelo meio surgem outros assuntos tenho de sair muitas vezes, um refeitório onde pinga, um gato morto esborrachado no meio da estrada, os cartazes com as alterações de transito, os documentos que ainda tenho de assinar, mudamos de escola, o Pavilhão é velho, os meninos tiveram de se sentar no chão, os burocratas não os deixaram ir ao concerto, levou-se o concerto á Escola, flauta transversal, fagote, oboé, clarinete e trompa, a Suite Quebra Nozes e o Frere Jacques, com a chuva a bater no telhado de zinco e os meninos a dizerem “é maravilhoso”. E é!
Estou ensopada, apanhei chuva a correr a levar meninos entre um pavilhão e um alpendre, com chapéu-de-chuva emprestado, dois a dois agarrados a mim, felizes e excitados com uma aula diferente.
Assim se constroem os dias diferentes, mesmo com burocratas e temporais

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Faz-me falta



Ontem a determinada altura a vertigem da saudade e da falta atingiu-me como um raio, uma coisa pequena, são sempre as coisas pequenas, cheguei a casa, orientei meia dúzia de coisas, atendi umas chamadas, estiquei-me um pouco no sofá, um pequeno luxo, antes de acabar o jantar, pegar na mala e voltar ao trabalho, ouvi as opiniões dos comentadores económicos, sobre as possibilidades do Orçamento de Estado, fui ao computador mandar uns mails, vi que tenho mais de 100 convites de amizade, mais de 100 convites para jogos, 52 outros pedidos, não abri esse sector, peço desculpa mas começo a ficar selectiva, passei os olhos pelas “últimas” deste espaço virtual e vi uma foto, uma foto simples, tirada por um amigo, mais do virtual, muito real, conheço-o desde sempre, a foto é simples: um banco onde o meu pai saboreava as manhãs de férias, depois da bica matinal, a ler o jornal, um banco de jardim, nada mais.
Acabámos por trocar palavras das saudades que ambos sentimos, afinal, aquele homem calmo, filho de um amigo de sempre do meu pai, trabalhou com ele, percebeu o vazio que ainda guardo, ele também tem essa saudade do meu pai.
Mais tarde alguém me torna a falar dele num registo quase humorístico, cheio de ternura.
O meu pai faz-me falta todos os dias, quase a todos os momentos, faz-me falta quando acontece algo de novo na minha vida e quero partilhar esse momento com ele, faz-me falta para comentar os assuntos dia, os grandes e os pequenos, faz-me falta para ver os netos, os meus homenzinhos e o meu pequeno sobrinho, que só vai ouvir histórias do avô, faz-me falta quando vejo um filme estupendo que sabia que ele iria gostar, quando leio um livro, quando ouço um Jazz, uma sinfonia ou uma ária que gostávamos, faz-me falta quando a angustia me impele a ver o mar, faz-me falta quando sei uma anedota nova, faz-me falta quando me sinto pequenina outra vez e preciso que ele me segure na mão, faz-me falta quando me sinto crescida e era eu que o acalmava, faz-me falta quando sinto que transporto os pesos todos do mundo e ele dividia a carga comigo, faz-me falta ver reflectido no rosto dele o mesmo olhar que tenho, os mesmos gestos que faço inconscientemente, faz-me falta quando o vejo reflectidos pedaços dele no riso de um tio, no olhar de um primo, faz-me falta…

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Lentamente


Lentamente como um sopro
Lentamente
Como as marés
As mudanças de luz
A transição do dia para a noite
Da noite para o dia
Lentamente
Suavemente
Crescem ideias e vontades
Lentamente germinam
Vontades
O Amanhã vem sempre a seguir
E é onde se guarda o futuro
Lentamente

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Depois volto...


Não fugi para parte incerta, embora muitas vezes pense nisso, só em partir sem saber onde e como chegar, como se partir fosse só por si a aventura e a vontade sem mais nada anexo, só partir, sem ancoras nem bagagens, nem pedi asilo político a nenhum paraíso das Caraíbas com charutos enrolados, bebidas ambarinas e praias de sonho, embora já me tenha passado essa ideia pela cabeça e concluído se esta Europa civilizada só me dá desgostos, talvez possa procurar outra coisa qualquer em vez de ficar e sofrer indignar-me e lutar sempre, mas lutar assim todos os dias também cansa, cansa mais quando parece que a maré, o vento e a corrente estão sempre contra, sempre contra e a praia até está ali mesmo mas não se chega lá.

Também não fugi para dentro do meu mundo pequeno, pessoal e egoísta, acho que nem sei fazer isso, nem quando devia consigo, centrar-me só em mim, nos meus, nos meus pequenos prazeres, nunca o consegui fazer, as injustiças sempre me afligiram, em miúda não gostava de ir ao circo dava comigo a perguntar onde dormiam aqueles meninos mascarados de lantejoulas, que por baixo das pinturas tinham sempre um ar triste.

Não fiz nada disso, apenas de vez em quando, deixo cair, esqueço-me de ouvir que apesar de tudo ainda há risos de crianças, distraio-me ao ponto de não me maravilhar com voo inquieto de uma ave, com os cheiros felizes da vida, com o carinho ensurdecedor de um sorriso, depois volto, já cá estou.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Os Gritos dos pavões


Existiam pavões brancos para além dos normais azuis, era assim um dia meio pardacento com estas névoas pesadas de início de Outono, as pedras velhas, cinzentas cobertas de líquenes, a sensação estranha de estar num dia inventado onde o ar custa a respirar e quase que se pode segurar com a mão os farrapos de nuvens, como se fossem farrapos de algodão sujo.
Existiam pavões brancos para além dos normais azuis, que piavam num som aflito, aflitivo também, de quem não pertence ali, apesar das cabeças pequenas e dos olhos estúpidos alguma coisa naqueles animais deve ter a saudade primordial de florestas e outras paragens quentes, não daqueles farrapos de algodão sujo de nuvens baixas, nem do cheiro azedo da palha velha na gaiola, do milho, quase que aposto que no seu estado natural não comem milho partido.
Lembro-me das pedras cinzentas cobertas de líquenes, do algodão branco sujo e quase palpável, das nuvens baixas, do piar de choro dos pavões, de um ranger metálico, talvez um balouço, lá no fundo do relvado, um relvado triste com faltas de relva, um pardal morto de patas para o ar, com o corpo cheio de formigas, os meus sapatos meio molhados, a sensação de estar num dia inventado que queria desinventar, sem os gritos aflitos dos pavões.



domingo, 3 de outubro de 2010

Mea Culpa

Ando a concluir que de facto a culpa é minha, existe um senhor de olhos arregalados no Telejornal que avisa que de facto os Portugueses têm de fazer poupanças e que esta é a altura ideal, que temos ainda que interiorizar que os subsídios de Natal e Férias, bem como outros apoios sociais tendem a ser extintos porque é impossível o estado continuar a suporta-los, tal como outras coisas, o Serviço Nacional de Saúde ou a Educação, ouço o senhor e penso que de facto tenho contribuído para levar o país ao estado ruinoso em que se encontra, afinal não tenho poupanças, um PPR a vinte cinco euros por mês, isto tudo porque sou uma louca e ainda não desabituei de certos luxos dispensáveis, um cinema de vez em quando, livros, jornais (se bem que com menos regularidade), férias (cada vez menos tempo é certo, mas continuo agarrada a esse vicio), um eventual espectáculo ou concerto (caramba tanto programa na tv para quê esta teimosia), depois o resto, gosto de peixe fresco, confesso esta loucura, então cozido ou grelhado insisto no fresco, gosto de ter várias qualidades de frutos, cheiro as maçãs, compro aquelas qualidades como a bravo esmolfe, coisas dispensáveis (como é que não me consigo convencer que a fruta não tem de cheirar), levo a loucura ao cumulo de, por vezes, lá me controlo e não faço sempre que me apetece, ir petiscar com uns amigos ou beber um copo num final de noite, portanto sou uma mulher desequilibrada que não se agarra a esses vícios como os transmite aos filhos, levando-os a cair neste padrão, o meu desequilíbrio vai ao ponto de achar que tudo isto é normal, descubro agora que não, afinal uma parte do estado a que isto é da minha responsabilidade, devia de fazer sopa de cascas de batata, aproveitar os períodos de férias para pescar tainhas no rio e congelar, devia de não ter estantes com livros cheios de ideias perniciosas, devia de ter comprado no mercado mensal o quadro do menino da lágrima em vez de cópias de quadros que adorei, alguns até paguei entradas nos museus para os ver, como se isso tivesse algum interesse, devia de comer fruta inodora na dose diária recomendada, bem como as proteínas necessárias sem me preocupar com coisas tão estúpidas como especiarias e gostos de palato, cheiros ou fruta da época, o teatro não é mais que um grupo de doidos em palco a fingir o que não são, o cinema é coisa de ilusões e o consumo de música é outro gesto dispensável.


A
tendendo ainda que considero que muitas peças que vi, obras de arte, filmes, muitos livros que li, muitos concertos a que assisti, muito momentos sem preço, como tal caros, chego á conclusão que desbaratei uma fortuna que agora poderia ser redireccionada para coisas fundamentalmente importantes, como a continuação de tropas portuguesas no estrangeiro e a compra de mais submarinos.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Para lá do canavial...


Passa um camião que tem escrito na lateral “Temos a solução que você precisa!”, é uma promessa que penso não estará ao alcance de quem a publicita, aliás as soluções costumam não andar assim a passar frente ao meu nariz, ou talvez andem e eu para variar continue a abstrair-me de muita coisa, sempre fui observadora numas coisas e completamente impermeável a outras, por isso por vezes baralho-me dou comigo a tocar num acorde diferente do esperado, a fugir para outro mundo qualquer, por vezes vejo aquilo que ninguém vê, passa-me assim, sem ver, o que é evidente, vim cá para fora de telemóvel e maço de tabaco para fazer a pausa fundamental, depois de colocados em cima da mesa os tópicos, as diversas opiniões são o que são, por vezes a mesma forma de não dizer nada no concreto, por isso evado-me um bocadinho só, o tabaco enche esses momentos, tirar o cigarro, acender o isqueiro, aspirar o fumo, saber que depois da estrada, da terra batida, dos canaviais, está o rio, para pensar sozinha, sem distracções de que me apetece mesmo é estar ao pé do mar a ouvir outros murmúrios, a carícia do sol, o azul irreal do mar, para lá ainda do rio, depois da serra que espreita lá mais ao fundo, não pensar noutras coisas, conseguir até nem pensar em nada, gozar apenas e só um espaço de tempo dedicado a um prazer quase egoísta, esticar-me o mais possível à carícia do sol, em vez de me preocupar com outras coisas, uma reunião que é transferida, um encontrão nos compromissos de outro dia, os tempos que se avizinham mais nublados, a chuva que parece que vai cair, a miséria que vai crescer mais ainda em misérias acumuláveis, tentar encaixar nisso tudo um espaço cheio só pela vontade, para me ouvir junto com o murmúrio do mar apenas a dar espaço aos sentidos.