quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Não consegui, outra vez


Não consegui despedir-me outra vez, é uma ineficácia que herdei de ti, como não ser capaz de chorar e conter sentimentos ou manter o carro limpo durante muito tempo, portanto não consegui despedir-me outra vez, consegui tratar das burocracias com aquele espírito prático que se usa para tapar outras aflições, as pernas que tremem, a falta de sono, aquela sensação de sermos outra vez crianças perdidas, com medo do escuro, descobri depois de crescida, que mantemos o medo do escuro, não do escuro tradicional, dos escuros da alma, apenas aprendemos também a mostrarmo-nos valentes, parecendo quase que não temos medo, mas temos.

Portanto não consegui despedir-me, até porque me pareceu, como me parece muitas vezes que estavas por perto, com as calças abaixo da cintura, não por moda, mas por hábito, um meio sorriso trocista, a postura envergonhada de quem não sabe o que fazer com os braços e ou os cruza, dando um abraço de conforto a si próprio ou os cruza atrás das costas, pareceu-me que no teu sorriso meu trocista avaliavas tal como o verde gritante da vegetação, sorriste com a perdiz que passou a correr e aspiraste o ar marítimo misturado com o vegetal da serra, maravilhado como sempre ficamos com a beleza do mar entre o azul e o verde e o fundo transparente.

Gostavas disso, das gaivotas da beira-mar, da areia fina e branca, do peixe e do vinho do almoço, do tempo roubado a todas as obrigações para uma pausa de convívio simples, tudo coisas que herdei de ti ou que me ensinaste, como o pé fino e um pouco torcido, o passo inseguro, o valor de um silêncio assim de frente para o mar a gozar da carícia do sol na face, do grito alucinado das gaivotas e do marulhar do mar de que nunca nos conseguimos despedir, tal como eu nunca me consegui despedir de ti

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

De forma que eu o ouça...


Todos os dias deviam de começar bem, assim de uma forma reconfortante, um pássaro a saudar o sol, uma carícia que nos acorde devagar, um cheiro a café, uma brisa suave sobre o mar, mas isso são inícios excepcionais, pouco frequentes, os dias são cheios de outras coisas, começam com um despertar por vezes abrupto ou com um rádio sempre mal sintonizado, com o sinal sonoro de marcha atrás de um camião, o ladrar de um caniche histérico noutro andar, um duche (o duche é sempre bom, a água a acariciar a pele, a espuma), o pão que já foi fresco a que se dá calor na torradeira, o sumo a empurrar comprimidos de formas diferentes, um branco com rasgo ao meio, um rosa pequenino, um branco achatado, um em forma de pevide, outro comprido (faça o que fizer Ana, nunca deixe de tomar a medicação, é fundamental. Está bem, doutor!), o café por fim, um momento de prazer que nunca falha, depois as contrariedades, o carro que não pega, o compromisso a que chegamos a horas que os outros se esqueceram, a busca por coisas que de momento não existem em stock (olho de lado para os vasos de ciclames, alfazemas, penso em perder um pouco de tempo a acariciar a terra com a ponta dos dedos, a encaixar as raízes em terra nova, a esmagar com um prazer quase sensual um pedaço de alecrim. Desvio o olhar, não vou ter tempo para isso). Tento resolver assuntos pelo telefone, espero uma mensagem qualquer que me adoce a manhã, paro um minuto, tento recomeçar o dia outra vez, afinal ainda vai a meio, pode ser que um daqueles pardais o queira celebrar de forma que eu o ouça!

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Apontamento


Já escureceu e eu escrevo numa folha, já usada de um lado, uma lista de coisas de que não me devo esquecer, coisas simples, o pior do que tinha para fazer no imediato está feito, pelo menos em marcha, na minha cabeça surgem logo outros projectos, acabo por monitorizar a família via telefone, o dia foi recheado como deve de ser, coisas fascinantes, algumas que oscilam entre o ridículo e o hilariante, uma ou outra mais bichosa, penso que o dia funciona quase como uma caderno de notas, páginas apaixonadas, página banais com as compras de semana, discursos escritos e reescritos, pensamentos soltos, pensamentos mais elaborados, desejos secretos, coisas que já aconteceram mas que ainda assim precisamos de as transformar em algo indelével, mesmo que um dia mais tarde me esqueça onde guardei o caderno ou que ele fica apenas no fundo de uma pasta, o bloco dos rascunhos dos rascunhos onde um dia escrevi algo importante, como hoje.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Em espera


Ando à espera há algum tempo
Há espera como se liga para um
Telefone ocupado
Como quem fala só
E espera o eco da sua voz
À espera da maré-cheia
Da maré vaza
Da altura perfeita e do
Tempo conveniente
Do dia certo
Da hora exacta
Das circunstâncias ideais
Não espero mais

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Palavras e Imagens


Dizem que uma imagem vale mais que mil palavras, mas as imagens, tal como as palavras podem ser manipuladas, podemos retirar do contexto meia dúzia de palavras e dize-las ou escreve-las assim, amputadas do contexto original, e passam a ter outro sentido, tal como as imagens, podemos no meio de uma ruína á beira-rio focar apenas a imagem de uma flor bravia, que nasce ali por acaso, aquela imagem passa a ser só e apenas aquela, de uma flor bravia em grande plano em contraste com o céu. E nem sequer é mentira, porque o truque está em descobrir as flores bravias em cada recanto, no meio do alcatrão, na rotina dos dias e substituir lentamente as palavras também, porque a verdade está no que se sente, podemos encher esse espaço de palavras, palavras simples ou complexas, palavras que se colam com a argamassa dos sentidos da mesma forma que num momento qualquer não vemos o lodo, uma parede derrocada perdida como um fragmento de outra coisa, apenas vemos a forma como o sol dá um tom metálico ao lodo transformando-o em paisagem preciosa, apenas vemos que aquelas paredes derrocadas estão pintadas pelo tempo, pelo tempo que lhes fez crescer musgos macios, que as fez ficar a olhar eternamente o lodo pintado de cor metálica e a servir de refugio a qualquer flor bravia que ali nasceu por acaso.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

O meu Rio

O meu Rio é assim, haverá mais largos, mais belos, mais compridos, mais límpidos mais importantes, mas este é meu, um Rio que namoro diariamente, que só troco pelo mar, mas ele vai lá ter comigo, ao mar, espreito todos os dias o meu Rio, as gaivotas que gritam, as tainhas (sim, tainhas, fataças o que lhe queiram chamar) que saltam num bailado estranho, as garças, que lá pousam, de vez em quando um bando de flamingos encantados, patos bravos, luxos de quem pode voar.
O meu Rio é assim, olho para ele todos os dias, dá-me o que preciso, por vezes calma, por vezes paz, outras vezes força, é generoso o meu Rio, sempre foi, para mim é mais que isso, é onde o meu olhar descansa.
(foto Vasco Ribeiro)

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Em branco, a estear...


Começou hoje a Escola, uns entram pela primeira vez naquele espaço colectivo onde passam a fazer parte de outra coisa, entram assim meninos (inclui as meninas) cheios de expectativas, alguns com medo de largar a barra da saia das avós, outros habituados desde bebés a estarem em berçários, creches, entram para o pré-escolar, para o 1º Ano, para os outros anos todos a seguir, entram na expectativa dos amigos, dos novos, dos que já conhecem, do espaço que será a sua casa, quase principal durante muitos meses, entram alvoraçados com bibe, com a mochila nova, a de marca e as outras mais baratas ou que foram de um irmão, entram para conhecer o novo professor ou um professor que já conhecem e que reencontram com alegria, como quem encontra um familiar, entram todos iguais, nas escolas que foram limpas e pintadas, sobre o olhar de quem os deixa à porta e que sente um novo corte num cordão umbilical, são todos iguais os meninos, de nomes estranhos tirados das novelas e das equipas de futebol, os outros com nomes da moda, os outros com nomes simples, os nomes bordados no bibe, escritos em etiquetas com joaninhas e borboletas desenhadas, carros de corrida e dinossauros, todos começam um ciclo novo, como um caderno em branco, a estrear…

domingo, 12 de setembro de 2010

Olhou para mim com ar de desafio


Passo sempre apressada pelo espelho, limito-me ao mínimo indispensável, depois nunca soube, nem quis aprender os truques de transformação do rosto, os pós sobre pós e outras maquilhagens, só o mínimo, com o tempo também fui ficando desagrada com o espelho, por vezes devolvia-me uma imagem estranha: uma mulher de olheiras e olhos cansados, vagamente parecida comigo, uma mulher com um olhar vago e perdido, por vezes com um olhar triste, angustiado. Deixei de olhar para o reflexo, passei a olhar para por partes: o cabelo, um olho, os dois olhos, o lábio, os dois lábios, o queixo…
Hoje surpreendi-me com a mulher que vi, assim á minha frente do outro lado do espelho, não sei se foi o cabelo que cresceu, se a cor da camisola, seja o que for aquela mulher do outro lado surpreendeu-me, os lábios cheios e olhos grandes que advinham nas imagens de anos passados, mas mais que isso apesar de linhas diferentes, apesar de tudo, um ar confiante, quase desafiador, um meio sorriso de quem guarda um segredo qualquer que não quer partilhar, um ar de brincadeira no olhar.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Esta sou eu


Esta sou eu, inteira e despida

Esta sou eu no

Sobressalto de quem se perde em

Mágoas antigas

Recordações mágicas

Desejos concretos

Lutas onde quando me sinto vencida

Começo tudo outra vez

Coisas práticas para resolver

Esta sou eu inteira em despida

Com os restos do que fui

Guardados no que sou

Esta sou inteira e despida

Protegida pela nudez

De quem não se quer mascarar

Esta sou eu inteira e despida

Fragilmente exposta

No que nunca fiz

No quero fazer

Esta sou eu, inteira e despida

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Um sabor macio


Rompe-se algo na alma,
Um murmúrio,
Que vaza e enche com o ritmo das marés,
Penso em várias coisas ao mesmo tempo,
Num dia qualquer em que o sol
Brilhava de outra forma,
Entre nuvens vagas,
Numa luz leitosa,
Quase palpável,
Quase pesada,
Lembro-me um olhar cruzado,
Do barulho de um mar,
Um mar interior,
Um mar de força irresistível,
Um olhar de dúvidas e certezas,
Um formigueiro nas mãos
O primeiro toque,
O primeiro cheiro
O primeiro sabor
Um toque suave e áspero
Esfomeado
Um cheiro salgado
Um sabor macio

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Falemos então


Falemos então
Falemos das coisas que nunca falamos,
(Das coisas que temos vergonha
Das coisas que temos medo)
Medo de dizer e que depois de
Serem ditas
Fiquem assim a pairar sobre nós
Eternamente
Falemos de coisas que por vezes
Temos vergonha de pensar
Falemos então de tudo
Até gastar as palavras
Até não existir mais silêncio
Nem palavras
Falemos então de todos os
Desejos inconfessáveis
Vontades nunca satisfeitas
Medos que nos acompanham
(Como nos acompanha o primeiro relógio de pulso)
As fotos das crianças que fomos
Que por vezes ainda somos
(Lá no fundo de nós)
Falemos sem cerimónias
Dos arranhões na alma
Nódoas negras espalhadas
Das carícias perdidas
(de cada vez que pensamos numa e não usamos perdem-se)
Falemos sem vírgulas
Pontos finais
Falemos como uma torrente
(uma represa de nós)

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Acabou a Festa!?


Ontem terminou mais uma Festa do Avante, infelizmente ontem já não consegui ir, o médico lá tem as suas razões para além de ficar incapaz de dar um pio, a perna marota, cheia de parafusos recusou-se a dar os passos importantes, não importa entre sexta e a madrugada de sábado para domingos (cinco da manhã é madrugada) fiz o que pude: trabalhei, com aquele sentimento único da Festa do Avante, onde trocamos gracejos, sorrisos, onde sentimos o carinho que de quem vem de longe que nunca nos viu os olhos mas nos olha de frente e nos chama “Camarada!” e isso só chega, mas não foi só trabalho, encontrei amigos que só encontro fisicamente ali, amigos de longa e curta data, abracei amigos de sempre de todos os dias, vi espectáculos, exposições, conversei com calma com amigos que me conhecem desde miúda, sem a rapidez diária, atafulhada de pressas, conversas com sorrisos, gargalhadas, recordações, cantei (lá lixei a garganta, entre amigos novos e amigos mais antigos, trocando fados e clássicos de rock, com acompanhamento na viola, na batida das mãos na nessa, num copo de vinho do sul e um naco de presunto do norte, fiz a minha ronda por diversos espaços, sem nunca conseguir ir a todos, pelos espaços políticos, porque a Festa do Avante não é um Festival de Verão, é uma Festa Politica, alicerçada num modelo de sociedade, o nosso modelo, de homens mulheres, de várias idades, com várias experiências, que ali se reflectem, constroem e fazem, desconstroem e planeiam a próxima, não só como um sitio para beber uns copos, provar umas delicias gastronómicas, mas como um local onde simultaneamente se cumula um esforço, uma perspectiva, uma história de luta e de conquistas e onde se olha de frente para o futuro, um futuro que se quer assim, festivo, solidário, lutador, amigo, camarada…

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

inquietação




De vez em quando a

inquietação cresce

como uma maré,

a vontade de partir,

o silêncio das coisas nunca ditas,

a saudade das sensações,

as desilusões arrastadas

pelos cantos

como cotão,

vontade de gritos e de silêncios,

restos de mim nas gavetas,

nos cabelos, em trapos, em fotos, em músicas,

listas de coisas nunca feitas,

o senhor do telejornal a debitar o costume,

fogos e cheias, desemprego, os dramas futebolísticos,

o artista de cinema,

voltar é pegar em coisas que

se deixou inacabadas

como se com isso elas se completassem,

o que não acontece.