domingo, 29 de agosto de 2010

Voltar

Quando se regressa tudo é familiarmente estranho, os objectos conhecidos parecem ter outra dimensão, as coisas parecem-nos maiores ou pelo contrário menores, o facto de nos afastarmos delas não as apaga, apenas conseguimos criar distância, o que pode ser bom ou até mau, por vezes a distância ajuda a ver tudo de um prisma muito diferente, os obstáculos intransponíveis passam a pequenos montes de areia, as coisas muito importantes ficam assim como formigas, uma coisinha pequena, ligeiramente incomoda, outras vezes a distância é em si própria a única coisa intransponível, afastamos-nos como um barco levado pela corrente, sem ancora que nos segure e prenda, depois adquirimos o gosto pela corrente, pelo imprevisto do caminho, não conseguimos, não temos vontade, de regressar ao tal porto, que foi o nosso sitio, onde agora é tudo estranho, voltar é assim algo que nos é imposto e escolhido, um magnetismo, um fluxo de maré ou nem por isso, talvez um hábito, os hábitos são rotineiros, desgastantes, vulgares, ordinários, cansativos, se for uma escolha, tem de guardar em si a ruptura com a insatisfação, tem de trazer exactamente o prisma do olhar que nos fez o regresso apetecível, a saudade do prazer já provado mas ainda não gasto, quando se regressa com prazer á festa do reconhecimento.
Regressei.

Regressei ao sítio a que chamei casa, que é assim um sítio, um lugar onde vivo dentro de mim.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Pinheiros nórdicos e palmeiras!



Há quem diga que as nossas florestas não são originalmente constituídas por pinheiros, admito que sim, mas na ocupação romana já se referem os pinheiros, as pinhas e os pinhões desta zona da península, portanto ganharam o seus direitos, eu adoro uma copa de um pinheiro manso, adorava ter um para uso exclusivo, dormir na sua sombra, ouvir o estalar da sua casca e sentir o peganhento da sua resina, pendurar uma rede, sentir aquele cheiro pela manhã, ver as agulhas sempre verdes molhadas pela chuva.
No entanto os arquitectos paisagistas ou simplesmente os empresários de gosto duvidoso enchem empreendimentos turísticos, marginais de palmeiras e pinheiros nórdicos, a mim faz-me impressão a plantação de palmeiras em zonas balneares, não é por nada, acho as palmeiras bonitas, mas tem o seu sitio, noutros locais, confesso que possuem um fascínio exótico, dão um ar tropical, mas não aqui, tal como os pinheiros nórdicos, árvores de Natal encantadas que parecem tão deslocadas como umas sandálias no meio da neve quando aqui plantadas, bonitas sim, mas desadequadas.
Portanto vou constatando que basicamente se vai tentado dar um arzinho tropical em certas coisas, outras vezes um toquezinho nórdico, esquecendo o resto, esquecendo que o ensino português não é igual ao sueco nem o Carnaval da Mealhada comparável com o do Rio de Janeiro, que os pinheiros podem suster as dunas, as arribas, dão frutos e sombras, abrigo e muito mais, continuamos assim a transvestirmo-nos naquilo que não somos, só nas coisas aparentes e menos profundas, eu cá por mim sou pelos pinheiros...

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Por estes dias

Como isto tem dias, por estes dias ando assim, sem horários, sem falar de trabalho, mantendo um contacto minimo quase só com as ligações umbilicais, levanto-me quando quero, durmo quando tenho sono, como quando tenho fome, leio, leio, acordo ao som de pássaros matinais, adormeço com grilos, quase não ouço noticias, o fardamento são chinelos calções, um elástico para apanhar o cabelo, os figos roubados de uma árvore, libelinhas azuis e vermelhas e roçar a agua transparente, conversas longas, pés na relva, coisas simples, o corpo marcado pelo sol, estes dias são assim...

sábado, 14 de agosto de 2010

As esperas


Basicamente esperamos, esperamos nascer, esperamos o fim-de-semana, de dia espera-se a noite, durante a noite o romper do dia, espera-se o fim do mês (coisa cada vez mais inatingível e decepcionante), espera-se um filho, espera-se um amante, esperamos que as coisas melhorem, no Inverno esperamos um raio de sol, de Verão uma brisa fresca, esperamos as marés, as cheias, as vazias, esperamos as fases da Lua, o subsidio de Natal e o de Férias, esperamos que os filhos cresçam, saudáveis e felizes, eles crescem vertiginosamente, damos conta da roupa que deixa de servir, dos livros escolares de um novo ano, quando damos conta, são assim grandes, dizem-me que mais tarde se espera os netos, esperamos a reforma, esperamos dormir melhor, dormir mais um bocadinho, que as plantas cresçam, que a roupa enxugue, esperamos que nos amem, esperamos amar, que a água ferva, que traça não roa aquele casaco, que o fato de banho nos sirva, que nos abracem só porque sim, esperamos conseguir acabar o que temos entre mãos, esperamos poder ter coragem para dizer o que pensamos, aos que nos são queridos para que quando partam não fiquemos com saudades de lhes dizer que nos vão sempre fazer falta, aos não queridos, para que não nos fiquem coisas amargas a estragar o paladar da vida, esperamos que o dinheiro chegue, que a luz não falte, esperamos intensamente um olhar, um sorriso, uma palavra, um amigo, espera-se a época dos morangos, das cerejas, dos figos, que por muito que cultivem de outra forma só na época possuem o seu sabor real sem artifícios, esperamos que as castanhas assadas nos saibam como na infância, mas a memória atraiçoa-nos e esperamos que essa não nos falte, embora existam coisas das quais não nos queremos lembrar, por vezes esperamos por nós próprios pela o despertar da pessoa dentro de nós, mais livre e selvagem, sem compassos de espera.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

A pulga


A pulga é um animal particularmente chato e dá comichões, comichões pouco saudáveis, das coisas piores que existem deve ser ter a pulga atrás da orelha, a sensação incómoda de que algo se passa da qual podemos ser: assunto, motivo ou objecto. Essa qualidade de pulga sussurra-nos ao ouvido coisas difusas, pouco esclarecedoras ou pedaços de coisas, boatos, retalhos, mesquinhices, coisas que nos agarram nas curvas de pensamentos tortuosos, acabamos por nos dar conta de que algo não está como devia de estar, podemos ser nós, os que nos querem bem, os que nos querem mal, os que por alguma razão obscura pensam que nos querem bem fazendo-nos mal, ou que nos querem mal por não lhes querermos bem ou antes pelo contrário outra coisa qualquer, não sabendo o querem e sentindo-se mal com isso, pensamos ser superiores a essas pulgas, afinal seres minúsculos insignificantes, mas tal como muita coisinha minúscula e insignificante são incomodas, passamos a olhar por cima do ombro, as reflectir gestos que até aí eram espontâneos, a olhar para sombras que nos perseguem, a ter mais atenção com o que dizemos, da forma que dizemos, do sitio onde dizemos, do local onde dizemos…
Logicamente, pensamos em enfrentar a pulga, matar a pulga, caçar a pulga, ignorar a pulga, esquecer a pulga, regra geral a pulga continua a sussurrar coisitas, pequeninas naquela voz irritante das pulgas.

domingo, 8 de agosto de 2010

Na minha toca




Um buraco onde se cai, qual toca de coelho

Não o bicho fofo, manso, branco

Mas o bicho traiçoeiro que nos leva a

Uma toca feita com os restos das

Coisas que deixamos de usar

Deixei de usar aquele casaco

Num Inverno

Deixei de usar aquele sentimento

Porque deixei de ter espaço

Deixei de usar aquele sorriso

Porque o outro lado do espelho

Reflecte outra que não reconheço

Deixei de usar o tempo da mesma forma

Deixei de usar o corpo por puro prazer

Passei a usar coisas demasiado pequenas

Esqueci-me de usar as grandes

Guardo o amargo sabor do que devo

Comer e Beber

Caio assim na vertigem de

Agarrar algo

sábado, 7 de agosto de 2010

Ervas secas, pataniscas em retalhos


Um punhado de folhas e talos secos, hortelã-pimenta, plantou a minha mãe num vaso, no quintal da minha tia, é no quintal da minha infância que crescem estas ervas perfumadas que deito num jarro de agua fervente para depois refrescar no frigorífico, refresco-me assim, com o sol da minha infância, um sabor que sempre gostei, está guardado na dispensa, o depósito das ervas secas, num saco de pano, feito de múltiplos retalhos, que a minha avó juntou, um pedaço de lençol, um quadrado de um vestido meu, o retalho de uma camisa, agora chama-se patchwork, parece que é chique, a minha avó fazia estes sacos de retalhos com os restos da nossas vida apegada ao hábito da economia, de quem cresceu com pouco de seu e como tal todos os trapos, deviam de ser aproveitados para algo, como as lascas de bacalhau que serviam para pataniscas e os restos do cozido para pasteis de massa tenra.
Teimosa como sou, gosto mais das pataniscas dos pasteis de massa tenra do que do cozido em si ou do que do bacalhau, gosto assim destas coisas que ficam, estas coisas que guardo, que me servem sempre em caso de necessidade, gosto das amizades guardadas desde os bancos da escola, de panamá e bibe, gosto dos livros velhos que já foram lidos antes, mas também gosto de olhar o horizonte de ver em frente e apesar de guardar as ervas que crescem plantadas pela minha mãe, no quintal da minha infância, no saco de retalhos de tantas coisas juntas pela minha avó , apesar de guardar este lado infantil, sigo para a frente uma mulher crescida, aparentemente segura, porque afinal na bagagem trago pataniscas embrulhadas em retalhos doces.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

As borboletas morrem depressa

Não digas nada, porque por vezes tudo está tão pequeno e frágil que se pode desmoronar, sabes aquela coisa das asas da borboleta que provocam um tufão? È assim podemos dizer o que não queremos ou que queremos mas sabemos que vai doer, vai doer a sair da garganta e à velocidade do som, vai doer quando entrar no ouvido, quando for dito não existe volta a dar. É como os livros comidos pelo pó e pelas traças, que até parece que estão bem mas estão puídos, fininhos, desfazem-se assim que tocamos com o olhar, as palavras dissolvem-se em mofo, como as fotos antigas com roupas que já usámos, que já não nos servem, que acabaram em panos do pó, trapos para limpar coisas, nas fotos temos sorrisos que também não usamos, o sorriso com dentes de leite, o sorriso de boca fechada para esconder a falta dos mesmos, o sorriso vidrado e assustadiço das fotos tipo passe, as cores as fotos desbotadas, antigamente eu usava o cabelo assim, lembramos-nos da discussão surda naquele dia, na alegria no outro, não nos lembra-mos do sabor do bolo de aniversário, fica assim tudo, míope e desfocado, numa memória descolorida, quase como as asas da borboleta quando lhes tocamos.

Por isso não digas nada, o silêncio até pode gritar dentro de nós, o pó ter comido a cor das memórias, as traças terem comido a macieza dos gestos, as palavras podem gastar-se por não serem ditas, talvez se não as dissermos se gastem tanto que desapareçam, as borboletas morrem depressa.