sexta-feira, 30 de abril de 2010

Cartilha Maternal


A minha avó tinha um respeito muito grande pela Cartilha Maternal de João de Deus, apesar de que na época em que aprendi a ler e a escrever já existirem outros compêndios de aprendizagem, não deixei de a manusear, afinal a minha avó aprendeu por ali a decifrar as letras quase por si só. Mas a Cartilha Maternal excede a obra de João de Deus, transformarmo-nos em mãe é uma transição fantástica, a vida ganha outros contornos, se por um lado passamos a recear coisas que até ali não pensávamos, por outro lado acabamos por ganhar audácias, coragens, forças e autonomias.
Para além do mistério profundo que é sentir uma vida a desenvolver-se dentro de nós, sentir os seus primeiros movimentos como uma espécie de aranha que anda por dentro de nós, com o decurso da gravidez acabamos por ganhar um grande entusiasmo, uma grande ligação, um sentido de posse dupla, porque tanto sentimos que nos pertence como em igual proporção que lhe pertencemos, por aquele ser que ainda não conhecemos, apenas umas imagens difusas num ecrã ecográfico, imaginamos o feitio dos olhos, o desenho dos lábios, se vêm com os caracóis de um avô ou as covinhas no queixo do tio, ansiamos e receamos o momento do parto, contamos dedos, perguntamos, muitas vezes, se está tudo bem.
O momento do parto, tem vindo a ser aliviado ao longo dos tempos, a tecnologia e os avanços da medicina assim o tem feito, de qualquer das formas a alegria ultrapassa o desconforto.
Tornar-me mãe foi bom, melhor do que pensava, os meus meninos tiveram chegadas difíceis, mas não me esqueço do primeiro olhar que trocámos, do seu cheiro, do toque sedoso da pele, de reconhecer neles pedaços de mim, reconhecer o seu choro entre todos os outros choros, maravilhar-me com a perfeição das unhas minúsculas, sonhar com o seu futuro e invariavelmente deparar-me com a sua autonomia que constrói sonhos próprios, tenho saudades dos meus bebés, porque a vida corre muito depressa entre obrigações, descansos e etapas, mas muito orgulho nos meus homens.

Mas ao falar de mães lembro-me de todas as faces maternais que conheço, a face da minha mãe, a face das minhas tias e avó, tive sorte em ter estas mães extra, a minha irmã verdadeiramente transformada pela maternidade, a face das mães coragem que conheço e que fazem quase que girar o mundo ao contrário pelos seus filhos, a face das mães sofredoras, tantas, que aguentaram perder filhos, que não conseguem alimentar filhos, que vivem com a dúvida eterna do paradeiro dos filhos, e ainda outras incompreensíveis que considero excepção, que lemos e ouvimos em parangonas e que nos chocam, pelo abandono ou pelos maus tratos.
Há datas pré fabricadas de calendário que me dizem imenso e outras nem por isso, o dia de ser mãe são todos a partir exactamente do momento que nos transformamos em mães.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Sem cercas


Pedem-me calma, pedem-me paciência, até há quem me peça resignação, há quem me peça para ter mais cuidado comigo, para abrandar, para descansar, inevitavelmente e no seguimento da mesma conversa acabam por me pedir ajuda, por me pedir uma camisa passada, por me perguntar o que é o jantar, perguntam pela acta, pelo papel, pela reunião, pelas contas…Tenho um depósito quase intacto das coisas que queria fazer, egoisticamente só para mim, dormir, dormir torna-se cada vez mais difícil, comprar aquele livro ou fazer a tal viagem sem olhar a contas, a tempo, aos que ficam, sair uma noite destas porque sim, fazer um penteado doido, pouco prático, só porque sim também, ler exactamente as horas que me apetecer, tocar um instrumento musical, cantar como a Billie, comprar um equipamento a sério para fazer todas as montagens de filmes que tenho na cabeça, pintar, andar vestida só com calças de crepe e chinelos de enfiar no dedo, comer medronhos maduros logo a tirar da árvore, mornos, doces e ácidos, com o sumo a escorrer pelos cantos da boca, dormir uma sesta num pinhal e uma noite na praia, fazer amor sem fechar a porta, sem olhar à hora, andar descalça na relva, misturar as palavras uma vez e outra, até tirar todas de dentro de mim, deixar de sentir inquietações surdas como traças de volta da luz, ter coragem para mostrar o meu amor por coisas, crianças, amigos, papeis, porcelanas velhas, livros, filmes que não me esqueço, momentos que estão guardados algures em mim como gotas de resina petrificada, despedir-me de todos de quem não me despedi, ver todos os museus com que sonho, sentir que há um momento só um momento em que prazer se sobreponha ao dever, estar vazia de revoltas que me angustiam e atormentam, apenas e só porque por se extinguirem as razões de revolta, uma manhã onde eu assistisse ao acordar de animais livres para me sentir assim também, sem cercas e contenções.

domingo, 25 de abril de 2010

È o mar que nos chama

È o mar que nos chama sempre, foi o mar que nos trouxe gentes até aqui, fenícios, gregos, celtas, romanos, árabes ou mouros, judeus talvez outros sem registo, foi o mar que nos chamou a partir entre a fome e Castela e Leão pelas costas, fomos pelo mar um mar roxo, assustador, calmo, azul, com peixes voadores e outros só dos que nadam, focas, tubarões, serpentes marinhas míticas de existência duvidosa, gaivotas companheiras e primeiro sinal de costa, monstros que sopravam barcos para trás e reduziam navios só e tábuas partidas e homens em corpos enxagues em qualquer praia desconhecida, sereias. Foi a ouvir o mar que trouxemos canela e malagueta, baunilha e tabaco, outras cores, cheiros e sabores, levámos guitarras connosco, já tinham cá chegado pelo mar os azulejos, as laranjas, a hortelã e o astrolábio, chegámos a outros sítios, matámos, escravizámos, lambuzámo-nos de cacau, café, cana, sexo, pasmamo-nos com elefantes e lagartos horrendos, cobras pérfidas, cavalos de riscas, macacos, tornamo-nos mais mestiços ainda levando para cá e para lá sempre sobre o mar. Ligados pelo mar chegámos a acreditar que éramos assim grandes, “do Minho a Timor”, lutámos sem saber por quê à custa de tudo, vidas, liberdades, fomes várias, foi, não só mas também, para não atravessar o mar numa guerra sem sentido, como se por acaso existissem algumas com sentido, que se fez uma madrugada nova, numa revolução com flores no lugar de balas, mas também foi por atravessar mar misturando quem aprendia a fazer guerra com garbo, com quem largava á força o arado, a colheita, a vinha, a pesca, a fábrica e a escola, foi assim a atravessar o mar todos juntos que se viu todos os lados de uma mentira feia. Foi para o mar que saltou gente em fuga para a Liberdade de um forte de onde não se poderia fugir, houve mais gente ainda que foi pelo mar a fugir da guerra, da mordaça e de ter que matar.

Para mim o mar é importante, não só porque me dizem que recicla quase metade do dióxido de carbono ou porque possui vida infinita ou por que produz oxigénio ou ainda porque é fonte de riqueza, degelo das calotes e de tantas coisas mais, parece que fui feita ao pé do mar, concebi o meu primeiro filho junto ao mar, parece que o mar me alimenta a boa disposição que me faz bem às maleitas físicas que carrego incluindo os ossos que parti que, quando abuso, doem como vidrinhos moídos, contento-me temporariamente com rios, também gosto, porque afinal todos os rios tem como destino ultimo o mar e acabam por ser filhos do mar também, porque a história das gotas de água que ascendem aos céus e acabam nos rios, passa pelo mar.

Aos céus não ascendem outras coisas, como achar civilizado e um acto de liberdade última proibir o uso véus islâmicos em diversos sítios na Europa, Europa Ocidental, Civilizada, maioritariamente cristã, tradicionalmente opressora de outros povos, aos céus não ascendem aqueles que já foram crianças em mãos de guias espirituais que lhes devassaram o corpo e a inocência, escudados pela hipocrisia de uma suposta religião de abnegação e amor, aos céus não ascendem os inquisidores, que também pelo mar foram, matando, prendendo estropiando em nome do amor último, mas já se pediu desculpa, cinco séculos depois, também se pediu desculpa porque afinal a Terra é mesmo redonda e afinal sempre se move e o mar continua a chamar em discursos hipócritas em momentos que esses hipócritas dispensavam de celebrar, que já propuseram que não fosse feriado, que deixaram a sua quota-parte de divida, injustiça social, desigualdade, recuo, é ainda assim pelo mar que chamam…

terça-feira, 20 de abril de 2010

Coisas


Ontem estacionei o carro à porta de casa, pouco faltava para a meia noite, fim oficial do dia, tirei o saco, a mala, outro saco, a pasta do portátil, voltei a abrir a porta ajeitei o cinto que ficou de fora da porta do carro como a língua de um animal cansado, passou um homem por mim, não o conheço mas tinha um ar familiar, ajeitava o blusão porque estava frio, um gato salta do contentor do lixo para um muro, num movimento gracioso que não me canso de admirar, tranquei o carro subi a escada entrei em casa um dos meus homens beija-me, acolhe-me, “Como foi o dia, mãe?”, “Já acabou filho!”, distribuo as coisas que trago num dos sacos, penso se ainda abro a pasta do portátil ou não, decido que não, tiro o relógio, os brincos, o anel, o elástico que me prende o cabelo, coloco na máquina as caixas de plástico que voltam sujas e vazias, dispo-me visto o incongruente pijama cor de rosa cheio de gatos e cães, apoio a cabeça no colo de um as pernas no colo de outro, tento entrar no espírito que leva os meus homens a rirem e a fazer comentários jocosos ao filme quase artesanal, Kung Fu dos anos 70, não consigo, faço uma torrada, bebo um copo de leite, vou para a cama, ainda vejo o resto de um episódio repetido onde um grupo de policias cientistas descobre um criminoso através de um fragmento de vidro partido, acabo por ficar naquele estado de vigília até que os meus meninos, grandes, enormes, com barbas que arranham se debruçam sobre mim para me dar um beijo de boa noite, o beijo que já foi ao contrário, eu que me debruçava sobre as suas camas. Sonho, sonho com várias coisas do dia, sonho com outras, com um lago de águas calmas, com um silêncio cheio de ruídos, acordo com o despertador do costume, com o corpo ao meu lado que se levanta, deixo-me cair no luxo de estar assim um pouco, deitada, a adivinhar o dia, enroscada sobre mim própria, até me levantar fazer as torradas, tomar o banho, entrar no carro que estacionei ontem á noite, arrumar a pasta do portátil e a mala no banco do pendura colocar o cinto que voltou à forma inicial, já descansou….

sábado, 17 de abril de 2010

A culpa é do PREC

Sei que ando a escrever menos, provavelmente ninguém deu por isso nem sentiu a falta que estes escrevinhaços também não assim como as tábuas da lei, mas tendo em conta que a maioria das vezes escrevo como se fosse um diário, uma coisa que escrevo quase de mim para mim, sinto que ando a falhar a mim própria, mas a culpa não é minha mas sim do PREC, Processo Revolucionário em Curso, isso mesmo, isto tudo porque ando a preparar entre outras coisas o 25 de Abril, esse processo revoluciona-me a vida de certa maneira, ando enterrada em imagens, de soldados a sorrir e mulheres com cravos nas mãos, jovens quase imberbes, vestidos de soldados, selos de apoio a famílias de presos políticos, documentos visados pela censura, fichas da PIDE, gente que saí da prisão com um ar cansado mas feliz, gente que se vai embora com uma mala velha amarrada com cordas em busca de um futuro melhor, se bem que por vezes o futuro passava por algumas humilhações, não conhecer a língua ou o país, enregelar com um frio que ultrapassava os meses de neve, estar longe da família, não conhecer o rosto dos filhos ou a forma como dormiam e viver num bairro de lata de nome estrangeiro bidonville…

As revoluções não são fáceis, obrigam-nos a encarar muita coisa que não queremos, a pensar noutras, a encarar verdades estranhas de frente, neste meu processo revolucionário em curso lido com prazos apertados, afinal é já para a semana, filmes a cortar e montar e músicas a escolher para o mesmo, escolho o desenho para os cartazes, um cravo, grandioso e rubro, escolho o formato dos convites, o desenho do bolo, imprimo convites, faço etiquetas, fecho envelopes, distribuo cartazes, idealizo o carro alusivo, predisponho-me a vestir a roupa mais que velha para de pincel em punho pintar placas de madeira, descasco orçamentos, relatórios de actividades, penso no futuro, no Dia da Criança que está a chegar, penso no imediato, o almoço está feito falta pensar no jantar, em paralelo continuo a inventar um mundo diferente só feito com as minhas palavras em que as personagens vão criando vida própria, vontades, teimosias, dói-me as articulações, não sei se é mesmo do novo medicamento que também me deixa metade do dia nauseada se é só destas coisas todas, estou a acabar de ler um livro com uma nova perspectiva do mítico Artur, um dia destes tenho de ir cortar o cabelo e até tenho uma noite esta semana limpa de reuniões e compromissos para me enroscar no sofá, gosto do Processo Revolucionário em Curso!

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Coisas que me continuam a lixar independentemente do dia da semana


Já é segunda feira e ainda assim se o dia de ontem acabou com um pretenso documentário histórico, uma informação errada da box da Zon relativa a uma coisa que eu queria ver e que não deu na hora indicada, o dia inicia-se com uma sensação de cansaço à qual não deve ter sido alheia o ritmo do fim de semana no qual se acumularam as mil e uma coisa que remetemos para o mesmo por falta de tempo, a maior desculpa dos tempos que vivemos, a falta de tempo, uma estupidez porque o tempo não se agarra e temos sempre o minuto seguinte a este para usar, temos tempo para parar se quisermos ou se nos for imposto, acabamos por ter tempo para uma data de coisas que dispensávamos e em última analise o tempo não passa nós é que vamos passando por ele e o “nosso” tempo é o tempo em que estamos vivos. Feita esta observação parva que em nada contribui para a minha felicidade nem para os demais devo de acrescentar que para além de ser uma pessoa sem tempo, sou uma pessoa sem médico, o que é normal num país em que todos os cidadãos são “sem-qualquer coisa”, existem sem abrigo, sem direitos, sem reforma, sem salário, sem estarem ao alcance da justiça, sem escola, sem Hospital, sem Centro de Saúde, sem Maternidade, sem regalias sociais de espécie nenhuma e claro sem médico, ainda assim estou na categoria do menos mal. Outra vertente da filosofia nacional, antes morto que estropiado, antes aleijado que morto, antes pobre mas honrado, antes no talho do que na farmácia, antes na farmácia do eu na funerária, no meio do azar todos temos sorte, deve ser do clima. Agora iremos ter a sorte da visita papal, sorte porque pode ser que nos cubra com o manto infindável dos desígnios insondáveis do senhor e se o Papa antes de ser Papa fez vista grossa a abusos sexuais de menores dentro da Igreja e se depois de ser Papa deixa que diversos sacerdotes se vitimizem pela Igreja ser acusada de tais desvarios, pode ser que passe uma esponja por imensos desvarios nacionais, casos de pedofilia estagnados, porque sim também os temos, negócios poucos claros de sucatas, Centros Comerciais ou submarinos, caixas de robalos e escutas que afinal não existem, um buraco financeiro enorme que se pretende curar com a estagnação total de toda a economia coadjuvada com os 75euros, logo agora que eu precisava de comprar uns sapatos de ténis, portanto hoje para começar o dia para além do computador trabalhar aos soluços ora tendo ora não tendo rede, deparo-me com a noticia de que os médicos poderão vir a ser pagos por objectivos de produtividade, tipo come se tivessem a fabricar carcaças ou a encher chouriços, ainda não percebi como vai ser efectuado o controle da produtividade se é pelo maior número de consultas em menor espaço de tempo, se é pelo número de gripes, treçolhos e panarícios atendidos, se em cada cem doentes se tira o apêndice a 5 e a vesícula a 4, seja ou não necessário e isto sinceramente chateia-me.

domingo, 11 de abril de 2010

Coisas que me lixam o domingo...


A verdade tem tantas faces como as bocas que a contam e recontam, a verdade é que D. João I subiu ao trono de Portugal e do Al-Garb pondo fim a uma crise dinástica, como rei legitimo, apesar de ser filho ilegítimo e nem sequer ter o reconhecimentos dos seus meios-irmãos filhos de Inês de Castro, assassinada e consagrado o seu cadáver no que ficou como um acto de amor, mas que sinceramente me parece a pura expressão da loucura, retirar um cadáver em decomposição e obrigar a corte a beijar-lhe a mão. Outras “verdades” nos foram transmitidas, acabei de assistir a um programa de História, apresentado por um ex Ministro da Educação do Regime Fascista a explicar, com as paragens já próprias da velhusta idade e também, penso eu, com o incomodo que o tema lhe causa, segundo ele, isto não era tão mau, a chatice era a guerra, porque “nenhuma família gosta de ver um filho morrer”, nem uma palavra sobre o resto: o isolamento internacional, as prisões políticas, o desempenho do regime colonialista, a repressão, a tortura, a miséria, a Censura, etc, etc. Assusta-me pensar que qualquer jovem interessado assista ao Programa deste douto senhor e que conclua que até se estava bem, tirando o pormenor da Guerra, é claro. Depois caracteriza o Dia 25 de Abril de 1974 com uma ligeireza que me deixa assombrada, coloca os seus rótulos, Spinola equilibrado e democrata, Costa Gomes comprometido com a esquerda, Vasco Gonçalves um lunático á ordem do PCP, aliás o PCP como força tenebrosa de sombra que conseguiu dinamizar a aliança Povo-MFA, mas depois, segundo a criatura que conseguiu afirmar-se como sumidade da História Nacional, lá prevaleceu o bom senso, pela mão de Ramalho Eanes e com a eleição da Assembleia que marcou com a maioria de votos obtidos pelo PS, esquerda democrática e PPD, sociais-democratas, desassombradamente a criatura afirma no fim que foi assim “reposta a legalidade democrática”
Nesse instante mudo de canal, o arroz está cozido, os legumes salteados, e assusto-me com o facto de além túmulo Salazar conseguir ainda moldar mentes, na Televisão Pública, a bem da Nação!

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Estava quase


Há cerca de 36 anos eu tinha 7 anos acabados de fazer, tinha começado em Outubro na Escola Primária, não na escola Primária Oficial mas num Colégio dirigido por um reconhecido pedagogo com ideias mais amplas que o normal, eu não percebia certas coisas: não percebia porque é de vez em quando existiam uma espécie de festas de aniversário na minha casa, sem ser o aniversário de ninguém, com homens e mulheres desconhecidos a quem a minha família tratava por camarada; não percebia porque é que recebíamos noticias de amigos da família que tinham sido presos, eles não eram maus; não percebia porque é que existiam lá em casa discos com músicas que eu aprendia, mas nunca podia ouvir muito alto nem poderia cantar fora de casa, escondidos em capas de outros discos, frequentemente em capas do Conjunto “Maria Albertina” ou do “António Mafra”; custou-me muito a perceber uma noite que a minha mãe não dormiu espreitando a janela e o meu pai chegou de madrugada com nódoas negras e a roupa rasgada, no outro dia explicava-se com uma largada onde tinha ido com uns amigos, também me custou a perceber que pudessem entrar pela casa dos meus tios de madrugada e que eu fosse arrancada da cama por homens de caras zangadas, apesar do meu tio insistir que naquele quarto dormia uma criança e uma velha, assustada vi revirarem gavetas, colchões, espalharem roupas e brinquedos; chegavam pessoas já de noite, com um ar de quem não quer ser visto, com embrulhos, eram recebidos com abraços fortes, com o tal tratamento de camarada, tanto ficavam algumas horas, parte das quais trancados numa sala com o meu pai ou com o meu tio ou com os dois e mais pessoas, como ficavam vários dias, quando se iam embora levavam o casaco do meu pai ou cachecol do meu tio, uma merenda, algum dinheiro e despedidas comovidas, no meu carto existia um poster com a declaração Universal dos Direitos da Criança, no corredor o homem de Vitruvio tinha escrito por cima os Direitos do Homem. Falava-se da Guerra, falava-se “lá de fora”, falava-se em sussurros, recomendava-se atenções e cuidados e por muito que o oficial do Quartel da GNR frente do outro lado da rua dissesse que eu podia ir ver os cavalos sempre que quisesse lá em casa nunca me deixaram. Percebia que existiam meninos sem Direitos, sem sapatos, sem festas de aniversário, sem brinquedos, percebia que existiam homens jovens de olhar parado ou de cadeira de rodas e que se dizia que “…foi a Guerra…”, percebia que o meu pai não tinha ido a nenhuma largada…

Há 36 anos isto estava tudo a mudar…



(publicado também no "Cheira-me a Revolução")

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Jacarandás floridos


No decorrer das horas colecciono os sorrisos, acordo preguiçosa, devo estar a mudar com idade despego-me dos lençóis com sacrifício ou então ainda não entrei no novo fuso horário, uma dessas, o quotidiano assemelha-se a um conjunto de caixas chinesas em que de dentro de uma sai outra, inesperadas, diferentes, mas no intimo muito parecidas, alguém que teve uma ideia brilhante e que a quer concretizar pendurado no esforço alheio, alguém que não se lembra das coisas insignificantemente importantes mas que consegue lembrar-se de me chatear por coisas que nem sequer me interessam, vejo abismada o vídeo de um massacre sobre civis e jornalistas, por jovens americanos, formatados para não pensarem, numa Guerra inventada, ouço da Acta que desapareceu, com contrapartidas que nunca existiram, para submarinos que ainda não chegaram e talvez nem façam falta, das promessas da saúde impossíveis de concretizar, dos prémios dos fabulosos gestores nacionais, da Igreja que se queixa de perseguição porque se multiplicam testemunhos de abusos sexuais em crianças e jovens, levados a cabo por sacerdotes, com votos de castidade, entre outros não cumpridos, não deixa de ser irónico se não fosse dramático, ver os grandes perseguidores do mundo ocidental assumirem o papel de perseguidos, sai outra caixa do meio das outras, árvores a plantar, discuto jacarandás, gravileas, penso nos jacarandás floridos, nas flores de um roxo claro, nos cheiros de lavanda e alecrim que decidimos espalhar pelo canteiros da cidade, sem deixar de pensar nos papeis, nas reuniões, nas resoluções, no almoço e no jantar, no filme que tenho de editar, da carta que tenho de escrever, do ferro que me incomoda na perna e magoa o andar, do tupperware com a sopa para aquecer no microondas, da chamada telefónica para saber de um amigo, das amêndoas caseiras que alguém (a Tia Ilda é um doce) mandou com carinho, do peso que se acumula debaixo das pálpebras, da roupa para estender, para apanhar, para passar, para lavar outra vez, das cores que me apetecem mais claras e vivas, dos convites e cartazes e outras coisas por fazer, das sugestões de musicas fáceis para o meu menino tocar de ouvido na guitarra, da arca de brinquedos que tenho de pintar para o meu sobrinho, do fim de semana que amigos me ofereceram numa escapadela a dois num sitio à escolha, do famigerado PEC que ainda mal sai da casca me baralha a vida, das consultas médicas que tenho de marcar, dos lençóis para trocar nas camas, guardados entre sabonetes de cheiros antigos, verificar se tenho ou não coentros porque sem ervas de cheiro a comida fica mais pobre, se encontro aqueles brincos que não sei onde guardei, de várias camisolas descosidas do outro menino, para as quais tenho de me munir de agulha, linha, paciência e dos conselhos longínquos das tias velhas com cheiro de braseira, dos limões oferecidos, outro ingrediente fundamental, esquecidos num saco em cima da secretária, do amola tesouras que anuncia chuva com a flauta de pã, da vontade de voltar outra vez para os lençóis e sonhar com jacarandás floridos.

domingo, 4 de abril de 2010

Fresquinho também é bom...


Ontem completei mais um aniversário, bom sinal, sinal que cá estamos, embora comemoremos qualquer aniversário em todos os dias, o dia do nosso nascimento é especial, sempre o celebrei com uma espécie de ansiedade que com o tempo foi sendo mais equilibrada, não eram as prendas, nem sequer o dia com largueza para mais brincadeiras porque ainda assim a infância foi recheada de dias assim, também não era o bolo, embora tivesse na minha infância os bolos mais fabulosos e mágicos que se possa imaginar, se hoje se fazem esculturas e bonecos em maçapão, naquela altura, o Sr. Armindo, artista de pastelaria, fazia pianos, caravelas, aviões e bailarinas em nougat, a encimar bases de pão-de-ló e doce de ovos, eram bolos fantásticos e artísticos, fabulosos dos quais nunca mais vi iguais. Mas ainda assim não era bolo, nem as prendas, nem a brincadeira, acho que foi sempre outra coisa, que passei a fazer com os meus filhos o celebrar da vida, o carinho com que se rodeia cada humano que aqui chega, se bem que muitos humanos nunca tenham direito a essa celebração. Os pormenores das lendas pessoais da família relatam que eu ia nascendo num pic nic em Pinhal de Negreiros, num domingo, quando aquilo era um pinhal, mas que esperei por segunda-feira, pelas oito da manhã, hora em que as buzinas das fábricas anunciavam, estridentemente o começo de um dia, neste caso de uma semana de trabalho, só nasci eu, aquela hora, naquele dia, na Clínica da Dr.ª Laura, outra instituição Barreirense, o meu pai contrário ao espírito da época, entrou na sala de partos comigo acaba de chegar, beijou-me ainda suja da travessia, de seguida foram aparecendo outros familiares, amigos, inclusive um clandestino comunista escondido lá em casa, que mais tarde se veio a tornar dirigente de um partido de direita, as voltas que a vida dá… Parece que fui feita numas férias de recem casados na Arrábida e talvez isso tudo me tenha dado um personalidade matutina, com a paixão por pinheiros como os que existiam em Negreiros, pelo fascínio do mar transparente da Arrábida, com o começar quase todos os dias cedinho, pronta a trabalhar, aberta a coisas novas e sempre deslumbrada com as antigas e confortavél no ninho de carinho que fez meio mundo telefonar, enviar mensagens dos diversos tipos, almoçar comigo num convívio fraterno e ainda aparecer á noite equipados de bolo de aniversário e na falta de champanhe com vinho verde fresquinho, que também é bom.